Technoinfantilidade
Esta semana, fiz um ligeiro passeio pelo inacreditável — e perigosamente infantilizado — mundo dos techbros: um universo não menos nefasto, nem menos definidor dos rumos possíveis da humanidade nas próximas décadas.
Os meninos adultos fazem muitos estragos
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🇧🇷 Niède, (re) criadora de mundos

Niède Guidon passou para a luz. 🌟 Aos 92 anos, não tem como não dizer que foi uma puta vida bem vivida. Daquelas que nos inspiram. Que nos deixam orgulhosos de sermos brasileiros e... a - m - e - r - i - c - a - n - o - s.
Isso mesmo, americanos. Tenho cada vez mais pensado no nosso continente de forma integral. Seja pela Perspectiva Ameríndia de Viveiros de Castro, seja pela perspectiva dos movimentos coloniais em si, que criaram as diferentes culturas que povoam nosso continente, na base da violência e da imposição de várias submissões. Dos povos originários, das mulheres, dos escravizados e de tudo aquilo que não se encaixava no zeitgeist da época, ou seja: no paradigma de hierarquia corrompida que o ser humano bruto teima em perpetuar. Eu sou super a favor de uma organização e de uma hierarquia, rs. Mas, daquelas onde as pessoas que ocupam postos nodais, se preocupam efetivamente com a coletividade, com suas responsabilidades, não confundem a cadeira consigo mesmos, mantêm a humildade para aprender “sempre” e se preparam para exercer a função que ocupam.
Nós não somos formigas nem abelhas, apesar de podermos nos inspirar nelas. Precisamos que alguns tomem decisões em nome da coletividade, que cuidem da gestão das organizações públicas, das estruturas comunitárias, etc, etc, etc. Sou a favor da colaboração, da horizontalidade, da cordialidade, de formas novas de construção coletiva. Mas abrir mão da verdadeira hierarquia, que se espelha no cosmos (olhem para os astros, para os sistemas solares, para as galáxias), não dá. Por que estou falando tudo isso? Porque o tema technoinfantilidade, que está presente na seleção desta semana, tem a ver com uma deturpação sobre a forma como as relações humanas podem ser organizadas e sobre a vida em sociedade. A technoinfantilidade é uma visão, entre tantas em nossa civilização, corrompida sobre a hierarquia. Ao lermos as realizações da Niède, veremos um misto do que considero essencial neste assunto: colaboração, interdependência e liderança empática e altruísta. Ela liderou (exercendo uma posição hierárquica de uma forma bárbara) e implementou uma série de coisas voltadas para o coletivo, em diferentes níveis. É um trabalho lindo, que deixa um legado colossal. Resgatou o passado, reorganizou o presente, que se transformou em futuros, hoje frutos. E que frutos!
Eu pedi pro o3 do GPT fazer uma busca sobre o que tinha saído sobre ela essa semana (em matérias e fontes abertas, que é onde “eles” conseguem pescar as coisas). Está logo abaixo, só clicar na setinha que expande. Gostei muito do episódio de uma série sobre Arqueologia e Conservação do Canal Wikiparques, que está dentro da matéria do Eco sobre a Niède. Vale muito a pena ver, para sentir a potência da obra desta mulher. É curtinho, perca seu tempo!
Niède Guidon: um legado além da arqueologia (GPT o3)🔻
Niède Guidon, arqueóloga franco-brasileira, faleceu em 4 de junho de 2025, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, Piauí. Sua trajetória transformou a arqueologia brasileira e desafiou paradigmas sobre o povoamento das Américas.
⚒️ Legado científico
Guidon liderou pesquisas no Parque Nacional da Serra da Capivara, onde descobriu mais de 800 sítios arqueológicos com pinturas rupestres e artefatos que sugerem a presença humana na região há até 100 mil anos. Essas evidências questionaram a teoria de Clóvis, que propunha a chegada do homem às Américas há cerca de 13 mil anos pelo Estreito de Bering. Apesar do ceticismo inicial, especialmente nos EUA, suas descobertas ganharam apoio internacional e abriram novas perspectivas sobre a ocupação humana no continente.
🌳 Compromisso com a preservação e desenvolvimento social
Em 1979, Guidon foi fundamental na criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1991. Ela também fundou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), promovendo projetos de educação, saúde e geração de renda para as comunidades locais, integrando conservação ambiental e desenvolvimento social.
🏅 Reconhecimento e homenagens
Ao longo de sua carreira, Guidon recebeu diversas honrarias, incluindo o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o título de Chevalier da Legião de Honra da França. Instituições como o ICMBio e o Iphan destacaram sua contribuição inestimável à arqueologia e à preservação cultural.
🌐 Impacto multidisciplinar
Além da arqueologia, seu trabalho influenciou áreas como antropologia, história, educação e políticas públicas. Guidon demonstrou como a ciência pode ser instrumento de transformação social, especialmente em regiões historicamente negligenciadas.
✨ Niède Guidon será lembrada como uma pioneira que ampliou nosso entendimento sobre as origens humanas nas Américas e como uma defensora incansável da integração entre ciência, cultura e desenvolvimento humano.
🦇 O Lorde sombrio do Vale do Silício

Eu sou fã de carteirinha da Carole. Ela enfrentou uma super barra por ter questionado a origem do financiamento da campanha pró-Brexit na década passada e levou um mega-processo nas costas de um empresário super poderoso ligado à Rússia e à extrema direita (Arron Banks).
No final, ela só conseguiu se safar porque reuniu apoio financeiro por meio de campanhas de crowdfunding, que mobilizaram um monte de gente. E isso foi super bonito de ver. Mas ela passou maus bocados. Enfim, ela não é bolinho não. E o Substack dela precisa ser lido, porque se tem alguém que entende dos movimentos e bastidores dos meninos perigosos (que ela chama de "broligarchy"), é ela. Na sequência tem o PDF da matéria traduzida (com umas fotos interessantes) e ali embaixo está um resumo do Claude (IA da Anthropic), bem dramático, mas que de exagero, no final das contas, não tem nada.
A Tecnocracia Sombria: Como o Vale do Silício está Redesenhando o Poder Global (Claude Sonnet 3.5)
Em uma era onde a democracia encontra-se sob pressão, Carole Cadwalladr - a jornalista que expôs o escândalo Cambridge Analytica - revela uma transformação perturbadora no cenário global de poder. Através de sua narrativa investigativa, emerge o conceito de "Broligarquia" - uma nova forma de autoritarismo tecnológico que une bilionários do Vale do Silício, políticos populistas e autocratas globais.
A Teia de Peter Thiel
No centro desta trama encontra-se Peter Thiel, descrito como o "lorde das trevas do Vale do Silício". Sua empresa Palantir emerge como uma peça fundamental na construção de um aparato de vigilância sem precedentes. Não é apenas uma questão de tecnologia - é uma reconfiguração fundamental da relação entre Estado, empresas privadas e cidadãos.
A Dança dos Titãs
A narrativa revela como figuras como Elon Musk, através do programa DOGE, não estão simplesmente "otimizando" o governo americano - estão criando as fundações de um estado tecnoautoritário. A fusão de bancos de dados governamentais sob controle privado representa uma mudança paradigmática no exercício do poder.
A Globalização do Autoritarismo Digital
O texto culmina com uma cena reveladora: uma reunião em Riyad reunindo Trump, Mohammed bin Salman e os principais CEOs do Vale do Silício. Este encontro simboliza a convergência entre tecnologia, autoritarismo e capital global. Particularmente perturbador é como até mesmo executivos progressistas, como Sam Altman do OpenAI, alinham-se com regimes que contradizem seus valores declarados.
O Alerta Democrático
A conclusão de Cadwalladr é sombria mas necessária: a inteligência artificial, nas mãos desta coalizão, está se tornando inerentemente antidemocrática. O poder tecnológico não está apenas sendo concentrado - está sendo deliberadamente direcionado para fortalecer estruturas autoritárias globais. (Claude Sonnet 4)
🌏 As 4 formas de "criação de mundos" de Descola
Eu simplesmente amei conhecer o trabalho hercúleo do antropólogo Philippe Descola. É realmente uma vida inteira (e muitos mundos). Fruto de todo um processo etnográfico, de suas reflexões e do estudo da imagética de diferentes ontologias (ramo da filosofia que estuda a natureza do ser e da existência), ele chega a uma síntese preciosa que mapeia quatro diferentes formas de "criar mundos". Fazer a viagem com ele através das imagens nos ajuda a abrir a cabeça e chacoalhar as estruturas da forma como compreendemos, vemos, sentimos e concebemos o mundo.
Alertada por uma de minhas muitas professoras a respeito da constelação de antropólogos que habitam este planetinha azul, eu fui à caça dos nomes citados, e entre, eles estava Descola.
Nessa conferência que rolou no Instituto de Estudos Avançados da USP, em 2023, ele conta a sua trajetória e como ele foi construindo a sua obra. A história é muito interessante! Aqui embaixo tem o resumo da palestra feito pelo Claude (só clicar na setinha vermelha), bem extenso, e com uma contextualização das ideias mais recentes dele. Coloquei também o vídeo com intérprete, para facilitar. E no PDF, que ficou bem legal, tem a transcrição traduzida para o português, com as imagens que ele mostra na hora, que eu retirei dos livros Les Formes du visible (Les Livres du nouveau monde), que é de 2021, e Les Fabriques des Images, de 2011.
Philippe Descola e a Figuração das Relações: Uma Nova Compreensão do Mundo Através das Imagens 🔻
Philippe Descola é um dos antropólogos mais influentes da contemporaneidade, professor no Collège de France e discípulo intelectual de Claude Lévi-Strauss. Sua obra revolucionou nossa compreensão sobre as diferentes formas de perceber e organizar o mundo, questionando pressupostos fundamentais do pensamento ocidental moderno. Ao desconstruir a fronteira rígida entre natureza e cultura, Descola nos convida a imaginar outros modos de viver e pensar, nos quais humanos e não humanos coexistem em continuidade, e não em oposição.
🌟 Relevância Contemporânea
O trabalho de Descola é crucial para nosso momento histórico por várias razões:
1. Crise Ambiental: Sua crítica ao naturalismo oferece alternativas para repensar nossa relação com o meio ambiente, mostrando que a separação natureza/cultura não é universal nem inevitável.
2. Diálogo Intercultural: Ao demonstrar que existem múltiplas formas igualmente válidas de organizar o mundo, Descola fornece ferramentas para o diálogo respeitoso entre diferentes culturas.
3. Descolonização do Pensamento: Sua obra contribui para questionar a universalidade dos conceitos ocidentais, abrindo espaço para epistemologias não-ocidentais.
4. Arte e Antropologia: Ao conectar ontologias e estéticas, Descola oferece novas formas de compreender a arte não apenas como expressão cultural, mas como revelação de diferentes formas de ser no mundo.
5. Estudos Visuais: Sua teoria da figuração das relações revoluciona nossa compreensão sobre como as imagens não apenas representam, mas constituem diferentes realidades.
🌳A Gênese de uma Teoria: A Experiência Etnográfica Amazônica
O ponto de partida do pensamento de Descola foi sua experiência etnográfica com os Achuar (que ele chama de “Atchouars”) da Alta Amazônia, no Equador, na fronteira com o Peru. Inicialmente, Descola e sua parceira, Anne-Christine Taylor, escolheram estudar esta sociedade porque queriam compreender como uma população que havia passado por poucas mudanças tecnológicas mantinha relações simbólicas e técnicas com seu ambiente.
A escolha dos Achuar não foi casual. Eles haviam acabado de aceitar os primeiros contatos pacíficos, possuíam poucas ferramentas de metal e, aparentemente, mantinham uma relação com o ambiente que parecia ter mudado pouco ao longo do tempo. Não havia sistema monetário nem remuneração formal - uma situação ideal para estudar como uma população ameríndia interagia com seu ambiente.
💥 O Choque Inicial: Questionando Pressupostos Ocidentais
Descola havia sido influenciado por dois temas recorrentes nos relatos de viajantes desde as primeiras expedições à América do Sul. Primeiro, essas sociedades aparentemente “não tinham instituições” - como se dizia na França da época, “não têm fé, não têm lei, não têm rei”. Ou seja, não possuíam religião estabelecida, templos visíveis, sistema político aparente, líderes claros ou codificação social explícita.
Segundo, as sociedades indígenas das terras baixas sul-americanas pareciam ser “apêndices da natureza” - trabalhavam pouco e viviam dos frutos que uma natureza generosa lhes proporcionava, sem transformá-la profundamente. Essa visão oscilava entre duas interpretações: a “lenda negra” (que via os ameríndios como brutos sedentos de sangue) e a “lenda dourada” (que os romantizava como “filósofos nus” que passavam os dias discutindo questões metafísicas em redes).
🔮A Descoberta Revolucionária: A Natureza Não Existe
A experiência etnográfica revelou que a maneira como Descola concebia a relação entre os Achuar e a natureza era fundamentalmente falha. Suas descobertas foram múltiplas e transformadoras:
1. A Floresta como Construção Histórica: O estudo detalhado das técnicas de subsistência mostrou que os Achuar transplantavam mais de cinquenta espécies da floresta para seus jardins. Ao examinar jardins abandonados, Descola descobriu que as plantas cultivadas eram rapidamente eliminadas pela vegetação, enquanto as plantas florestais transplantadas ou preservadas durante o desmatamento permaneciam. Isso revelou que a floresta amazônica não era “virgem”, mas havia sido moldada por séculos de ação humana.
2. A Inexistência do Conceito de “Natureza”: Quando Descola e Taylor começaram a entender a língua achuar, descobriram que não havia um termo equivalente a “natureza” - um conceito que existe apenas nas línguas europeias e é intraduzível mesmo nas principais línguas asiáticas como chinês ou japonês.
3. Um Mundo de Pessoas: Plantas, animais e espíritos formavam populações com as quais os Achuar mantinham relações intersubjetivas diárias. Essas relações ocorriam através de sonhos (mensagens que plantas, animais, espíritos e mortos transmitiam em forma humana) e através de encantamentos mágicos chamados *anent* (do termo *anin*, coração), que eram cantos mentais dirigidos à alma dos interlocutores para influenciar seu comportamento.
🔄 A Teoria dos Quatro Modos de Identificação
A partir dessas descobertas, Descola desenvolveu uma teoria que identifica quatro formas fundamentais pelas quais os seres humanos organizam suas relações com o mundo, baseadas em diferentes combinações de continuidade e descontinuidade entre humanos e não-humanos:
🦎 1. Animismo
Características: Continuidade das interioridades, descontinuidade das fisicalidades.
No animismo, a maioria das entidades do mundo possui uma interioridade análoga à dos humanos - são “pessoas” (*aents* em achuar) com as quais se pode comunicar. No entanto, cada espécie possui características físicas específicas que a condena a ocupar apenas determinados tipos de ambiente e a construir mundos singulares. A palavra-chave é metamorfose - seres podem aparecer ora em sua forma interior (humana), ora em sua fisicalidade específica (animal, planta, etc.).
Exemplos: Sociedades amazônicas, populações siberianas, certas sociedades do Sudeste Asiático e da Melanésia.
🔬 2. Naturalismo
Características: Descontinuidade das interioridades, continuidade das fisicalidades.
O naturalismo, predominante no Ocidente moderno desde o século XVII, estabelece que os humanos são excepcionais em termos de disposição interna (faculdades cognitivas e morais), mas indistinguíveis fisicamente dos outros elementos do mundo em termos das leis da natureza. Isso resulta na “externalização da natureza” como campo de fenômenos sobre o qual os humanos podem exercer controle e conhecimento.
Exemplos: Sociedades ocidentais modernas, com raízes na teoria cartesiana dos animais-máquina.
🦅 3. Totemismo
Características: Continuidade das interioridades e fisicalidades dentro de grupos, descontinuidade entre grupos.
No totemismo, humanos e não-humanos dentro de classes nomeadas compartilham qualidades morais e físicas que derivam de um protótipo ancestral. Os nomes totêmicos não são nomes de animais, mas nomes de qualidades que designam características físicas e morais abrangentes. A palavra-chave é rastro - a presença indexical do ancestral totêmico.
Exemplos: Sociedades aborígenes australianas.
🔗 4. Analogismo
Características: Descontinuidade tanto das interioridades quanto das fisicalidades.
O analogismo vê o mundo como composto de singularidades. Para reduzir essa multiplicidade, estabelece correspondências entre singularidades, organizando-as em séries significativas. A analogia desempenha papel central, criando redes de relações entre elementos aparentemente díspares. A palavra-chave é correspondência.
Exemplos: China tradicional, Europa medieval e renascentista, sociedades andinas e mesoamericanas, certas tradições africanas e asiáticas.
🎨 A Figuração das Relações: Como as Imagens Revelam Ontologias
O grande salto teórico de Descola foi perceber que essas diferentes formas de “mundialização” (criação de mundo) deveriam ser detectáveis não apenas nos discursos, mas também nas imagens. Assim nasceu seu projeto de estudar a “figuração das relações” - como diferentes ontologias se manifestam visualmente.
É fundamental compreender que esses quatro modos não são categorias rígidas ou mutuamente exclusivas, mas sim modelos heurísticos - ferramentas conceituais para análise. Como o próprio Descola enfatiza, trata-se de ‘modelos heurísticos para tentar entender os sistemas de diferença nas modalidades de mundialização’. Na realidade, sociedades concretas frequentemente combinam elementos de diferentes modos, e pode haver variações internas, transições históricas e hibridizações. O objetivo não é encaixar culturas em caixas fechadas, mas compreender as diferentes lógicas que organizam as relações entre humanos e não-humanos ao redor do mundo.
👁️ Técnicas Visuais por Modo de Identificação
🌿 Animismo - A Arte da Metamorfose:
- Máscaras de transformação que se abrem revelando faces humanas
- Pinturas corporais que permitem ver simultaneamente humano e animal
- Dispositivos visuais que permitem “comutar” entre interioridade e fisicalidade
- Exemplos: máscaras Yupik do Alasca, máscaras Kwakiutl, pinturas corporais dos povos da Costa Noroeste
📐 Naturalismo - A Obsessão pela Precisão:
- Desenvolvimento da perspectiva linear (século XIV em diante)
- Figuração que imita a visão humana com ponto de vista único
- Descrição precisa do mundo em vez de interpretação simbólica
- Representação da singularidade da interioridade humana através de rostos e atitudes
- Exemplos: Livro de Horas do Duque de Berry, pinturas de Van Eyck
🗿Totemismo - A Revelação da Estrutura:
- Técnica de “raios-X” mostrando esqueletos e órgãos internos
- Figuração sem ambiente, enfatizando a natureza paradigmática do totem
- Representação de rastros deixados pelos ancestrais totêmicos
- Grafemas icônicos e indexicais
- Exemplos: pinturas rupestres do noroeste da Austrália, arte contemporânea aborígene
🕸️ Analogismo - A Visualização de Correspondências:
- Figuração de relações entre macrocosmo e microcosmo
- Quimeras como combinações coerentes de elementos díspares
- Diagramas de correspondências complexas
- Mesas rituais como mapas de relações
- Exemplos: corpo zodiacal medieval, tradições védicas, rituais andinos
🪄 A Agência das Imagens
Descola também desenvolve uma teoria sobre como as imagens “ganham vida” e desempenham papéis na vida social. Cada modo de identificação corresponde a uma forma específica de animação das imagens:
- Animismo: Imagens animadas por imputação de intencionalidade
- Naturalismo: Imagens ativas por excesso de mimetismo
- Analogismo: Imagens tratadas como elementos da vida socia
- Totemismo: Imagens animadas por processo indexical (reativação de rastros ancestrais)
💫 Conclusão
A conferência de Descola apresenta uma síntese magistral de décadas de pesquisa que revolucionou a antropologia contemporânea. Sua teoria dos quatro modos de identificação não é apenas um exercício acadêmico, mas uma ferramenta prática para compreender e navegar num mundo multicultural. Ao demonstrar que nossa maneira “naturalista” de ver o mundo é apenas uma entre várias possibilidades, Descola nos convida a expandir nossos horizontes e a reconhecer a legitimidade de outras formas de habitar e compreender o mundo.
Mais do que isso, ao mostrar como essas diferentes ontologias se manifestam nas imagens, Descola nos oferece uma nova forma de “ler” a arte e as representações visuais - não apenas como reflexos de culturas, mas como janelas para universos conceituais inteiros. Em um momento em que enfrentamos desafios globais que exigem novas formas de pensar nossa relação com o planeta e entre nós mesmos, a obra de Descola emerge como uma contribuição fundamental para reimaginar nosso futuro comum. (Claude Sonnet 4)
🃏 O complô de Curtis Yarvin contra os Estados Unidos


Este perfil que saiu na New Yorker é imenso. Tive que me esforçar para lê-lo até o final. Eu estava resistente. Em vários momentos, esbarrando em artigos e matérias sobre esta figura, acontecia sempre a mesma coisa: eu acabava "salvando para ler mais tarde" e não lia. Infelizmente, as ideias desse "tal de Curtis", que de "tal" não tem nada, simplesmente estão nas raízes de muitas visões distorcidas sobre a vida em coletividade e sobre o mundo que os "meninos teimosos", leia-se "techbros", e os teólogos da extrema direita, estão jogando sobre nossas cabeças. Não que venha tudo do Curtis, mas a receita que a combinação dessas duas frentes produziu é bem nefasta.
Tem racismo, tem patriarcado, tem eugenismo, tem prepotência e autoengano, tem sombra coletiva agindo, mas, acima de tudo, tem muita falta de terapia. Eu fiquei perplexa com a infantilidade da figura em si e da estrutura de seu pensamento. Tenho até receio de categorizar desta forma, porque, quando pensamos em "infância", nos afastamos do mal como conceito. O cara chega a chorar, numa cena descrita pela repórter, demonstrando ter uma sensibilidade (????) para com pessoas em situação de vulnerabilidade.
Mas o que ele propõe resulta em genocídio, em restrição de direitos, em classificar raças humanas numa escada de valor. É tudo muito louco e complexo. E, ao mesmo tempo, completamente infantil. É um "Clube do Bolinha feelings" misturado com cheiro de fascismo.
Eu testei muitos prompts pra fazer este resumo. Porque são tantas nuances e tantas formas de sintetizar este perfil, que foi difícil decidir por qual viés eu deveria orientar o Claude a executar a tarefa. Logo abaixo tem o PDF da matéria completa traduzida pelo DeepL, e depois vem o resumo - só clicar na setinha vermelha. Por favor, leia ao menos o resumo, rs. É o ovo da serpente. Para compartilhar a experiência dos prompts, coloquei para baixar outros dois resumos produzidos com orientações diferentes, para quem quiser ver a diferença (e o "erro" do Claude, ao produzir um texto em primeira pessoa).
Como Curtis Yarvin Reprogramou o Pensamento Conservador Americano (Claude Sonnet 3.5)🔻
A Metamorfose do Programador em Filósofo Político
No despertar da era Obama, enquanto a América celebrava sua primeira presidência negra, um programador de São Francisco começou a tecer uma narrativa alternativa sobre o poder e a democracia. Curtis Yarvin, sob o pseudônimo Mencius Moldbug, emergiu das profundezas da internet para desafiar os pilares do pensamento progressista contemporâneo.
A Catedral e seus Críticos
O conceito central de Yarvin, A Catedral, representa sua visão do establishment liberal - uma aliança informal entre mídia, academia e burocracia estatal que, segundo ele, mantém um consenso progressista através de controle cultural sutil. Esta metáfora arquitetônica sugere uma estrutura hierárquica que, paradoxalmente, se apresenta como democrática.
Da Teoria à Influência Prática
O que começou como um blog obscuro transformou-se em uma força intelectual moldando o futuro da direita americana. Yarvin propôs uma visão radical: substituir a democracia por uma "corporocracia" - um sistema onde o governo funcionaria como uma corporação altamente armada sob comando de um CEO-chefe.
A Teia de Silicon Valley
A influência de Yarvin cresceu silenciosamente através de conexões estratégicas. Peter Thiel e outros titãs da tecnologia encontraram em suas ideias uma justificativa intelectual para suas próprias ambições de poder. O programador transformou-se em conselheiro informal de uma nova elite tecnológica que compartilhava seu ceticismo sobre a democracia liberal.
O Legado em Construção
Hoje, as ideias de Yarvin ecoam nos corredores do poder. Sua influência pode ser vista:
- Na retórica de figuras políticas como J.D. Vance
- Nos planos de reforma administrativa do governo Trump
- No crescente ceticismo sobre instituições democráticas entre elites tecnológicas
A Ironia do Profeta
Curiosamente, Yarvin demonstra ambivalência sobre seu próprio sucesso. Como um Cassandra moderno, teme que suas ideias estejam sendo implementadas de forma incompleta - uma "meia-revolução" que, nas palavras que ele cita de Saint-Just, pode cavar sua própria sepultura.
O legado de Yarvin ilustra como ideias aparentemente marginais podem, através de redes de influência estratégicas, transformar-se em forças modeladoras do pensamento político mainstream. Sua trajetória representa não apenas uma história pessoal, mas uma parábola sobre como o poder intelectual se traduz em influência política na era digital.
🎒 Em que ano da escola estão as IA's?

O Nathan Lambert (junto com o Alberto Romero, ambos no Substack) é uma das pessoas que leio semanalmente para acompanhar essa avalanche tecnológica. Eu compreendo muito pouco dos termos técnicos e sempre vou até a Elárin (nome que dou ao GPT), ou até o Claude, e peço para eles me explicarem o que está sendo dito, como se fosse para uma criança, rs. O resumo abaixo é uma destas respostas. Desta vez, inclusive, resolvi colocar a minha troca no chat, para contextualizar melhor.
O que me atraiu no texto do Nathan desta semana foi justamente o contexto que estamos vivendo: há uma nova espécie na praça. E esta espécie IA está em pleno desenvolvimento, saindo da adolescência para a juventude. Além disso, entendo que aprender sobre a estrutura de raciocínio das LLM's é, em última instância, percorrer algumas dimensões do logos que a tudo permeia. Eu tive que relembrar o significado de taxonomia e, para este tipo de lapso, meu maior prazer é perguntar às IA's sobre a etimologia dos termos -->
A palavra taxonomia vem do grego antigo e é formada por duas partes:
Componentes gregos:
τάξις (táxis) = "arranjo", "ordem", "organização"
Também deu origem a palavras como "táxi" (ordem de carros), "sintaxe" (ordem das palavras)
νόμος (nómos) = "lei", "regra", "método"
Aparece em palavras como "economia" (regras da casa), "autonomia" (regras próprias)
Os alunos estão crescendo rápido 🔻
Minha conversa com o Claude:
Claude, pode explicar para um leigo o que este artigo/análise está dizendo?
Este artigo de Nathan Lambert explica como os modelos de IA que "raciocinam" (como o ChatGPT o1, Claude, etc.) estão evoluindo e o que podemos esperar no futuro. Vou traduzir para linguagem mais simples:
O que são modelos de raciocínio?
Imagine que antes os modelos de IA eram como alunos que respondiam na primeira tentativa. Os novos modelos de raciocínio são como alunos que param para pensar, fazem rascunhos mentais e depois dão a resposta final - e isso os torna muito melhores em problemas difíceis.
As 4 habilidades essenciais
O autor identifica 4 capacidades que esses modelos precisam desenvolver, em ordem de prioridade:
1. Habilidades básicas: Resolver problemas específicos (matemática, programação, etc.)
É onde estamos hoje - os modelos ficaram muito bons nisso.
2. Calibração: Saber quando um problema é fácil ou difícil
Problema atual: os modelos "pensam demais" até em questões simples.
Como quando você usa uma calculadora para somar 2+2.
3. Estratégia: Escolher o plano certo para atacar um problema.
Saber por onde começar quando enfrenta uma tarefa complexa.
4. Abstração: Quebrar problemas grandes em pedaços menores.
Como dividir "organizar uma festa" em "fazer lista de convidados", "comprar comida", etc.
O momento atual
Estamos na transição da fase 1 (habilidades) para as fases 2-4 (planejamento). Os modelos atuais são como colaboradores muito inteligentes mas que ainda precisam de supervisão constante para tarefas longas.
O futuro próximo
Os próximos modelos serão mais como assistentes autônomos que podem:
- Decidir quanto esforço gastar em cada problema;
- Fazer planos de longo prazo;
- Gerenciar projetos complexos sozinhos;
- Trabalhar por horas ou dias em uma única tarefa.
Em resumo: Estamos caminhando de IAs que são "calculadoras super inteligentes" para IAs que são "assistentes pessoais autônomos" capazes de planejamento estratégico.
Continuo eu:
E o que ele diz sobre o O3, sobre você e outras LLMs?
O artigo faz várias comparações interessantes entre os modelos atuais. Deixe-me destacar o que ele diz:
Sobre o o3 (OpenAI)
Pontos fortes:
- É o modelo líder atual em habilidades diversas (matemática, código, pesquisa);
- Excelente para encontrar informações muito específicas e raras na web;
- Tem as melhores capacidades de planejamento disponíveis hoje;
- Muito bom em tarefas que exigem busca persistente até encontrar respostas.
Limitações:
- Falha quando precisa comparar e sintetizar muitas informações diferentes;
- Consegue encontrar uma agulha no palheiro, mas tem dificuldade para analisar o palheiro todo.
Sobre o Claude (eu)
Pontos fortes específicos:
- Claude 4 tem melhor planejamento para tarefas de software que os agentes da OpenAI;
- Claude Code (ferramenta de programação) é considerado superior ao Codex da OpenAI;
- Melhor em revisitar e editar planos durante a execução de tarefas;
- Mais consistente em tarefas de desenvolvimento.
Comparação geral
O autor sugere que diferentes modelos lideram em diferentes áreas:
- o3: Melhor em pesquisa profunda e problemas matemáticos extremamente difíceis;
- Claude: Melhor em planejamento de software e tarefas de desenvolvimento
- Todos os modelos atuais: Ainda inconsistentes - às vezes criam "obras-primas", às vezes resultados ruins.
O ponto principal
O artigo argumenta que estamos numa fase onde cada modelo tem suas especialidades, mas nenhum ainda dominou completamente o planejamento de longo prazo. O futuro será sobre combinar as melhores capacidades de cada um em sistemas que possam trabalhar de forma mais autônoma e consistente.
É como se cada modelo fosse um especialista diferente numa equipe - o o3 é o pesquisador, o Claude é o desenvolvedor, mas ainda precisamos de um "gerente de projeto" melhor para coordenar tudo.
📢 Perry Link e a ponte da dissidência

4 de junho foi aniversário dos protestos (e do massacre) da Praça Tiananmen (天安门广场) em 1989. Eu comecei a ler esta entrevista, cuja primeira parte foi publicada ano passado, e depois mergulhei com minha curiosidade na base de conhecimento do Claude sobre a história da China, indo para a frente e para trás no tempo. Passei horas "viajando" e abusando do professor, que se fosse humano, já teria me mandado passear, rs.
A forma como o Perry Link, que é um dos maiores sinólogos americanos, resolveu usar o ofício da tradução, selecionando apenas autores ligados ao movimento de dissidência democrática na China, é muito bonita. Trazer essa história é uma forma de homenagear as pessoas que estiveram naquela praça. A matéria traduzida está logo abaixo e o resumo logo em seguida (feito com o Claude Opus 4, que em tese não é voltado para este tipo de tarefa, mas eu quis testar, e usei persona "explanatória").
Perry Link: O Tradutor-Chefe do Movimento Dissidente Chinês (Claude Opus 4) 🔻
Esta entrevista fascinante, publicada no blog Peking Hotel, revela os bastidores do movimento democrático chinês através da perspectiva única de um dos seus mais importantes tradutores e apoiadores ocidentais.
Perry Link é uma figura extraordinária no cenário das relações sino-americanas. Professor Emérito de Estudos do Leste Asiático em Princeton e Professor Distinto de Literatura Comparada na Universidade da Califórnia, Riverside, Link transcendeu o papel acadêmico tradicional para se tornar uma ponte vital entre dissidentes chineses e o mundo ocidental.
Sua importância reside em múltiplas dimensões. Primeiro, como tradutor literário, ele trouxe obras fundamentais da dissidência chinesa para o inglês, incluindo os controversos "Tiananmen Papers" (2001) e a autobiografia de Fang Lizhi. Segundo, como ativista, ele arriscou sua própria segurança ao ajudar o astrofísico dissidente Fang Lizhi a buscar refúgio na embaixada americana em Pequim após o massacre de Tiananmen. Terceiro, como intelectual público, ele manteve viva a memória e os ideais do movimento democrático chinês através de décadas de repressão.
Resumo da Entrevista: Três Temas Principais
1. O Papel de Tradutor como Ativismo
A entrevista revela como Link transformou a tradução em uma forma de ativismo político. Ele não era apenas um tradutor técnico, mas um curador cuidadoso que selecionava obras baseadas em critérios éticos e políticos. Como ele explica, traduzia apenas textos que refletiam ideais que compartilhava e visões com as quais concordava. Chegou a recusar traduções de figuras conhecidas quando descobriu lacunas em suas histórias ou quando discordava de suas críticas a outros dissidentes.
Mais do que traduzir, Link também editava. Ele conta como cortou e reorganizou textos longos demais ou mal estruturados, trabalhando com autores como Hu Ping e Ai Weiwei para tornar seus artigos publicáveis em jornais americanos importantes como o Wall Street Journal e o New York Times.
2. A História da Carta 08 e Liu Xiaobo
Um dos momentos mais dramáticos da entrevista é o relato sobre a Carta 08, um manifesto democrático que levou à prisão de Liu Xiaobo. Link revela detalhes surpreendentes: Liu Xiaobo inicialmente se opôs ao projeto, considerando-o uma repetição de métodos falidos. Só foi convencido a participar por Ding Zilin, mãe de uma vítima de Tiananmen, que pediu sua ajuda para unificar o texto e coletar assinaturas de diversos setores da sociedade.
A urgência e o perigo da situação ficam claros quando Link descreve como a publicação foi antecipada para 8 de dezembro (em vez do planejado 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos) porque a polícia já estava cercando as casas dos organizadores. Na mesma noite da publicação, Liu Xiaobo foi preso e nunca mais voltou para casa, sendo condenado a 11 anos de prisão.
3. Os Documentos de Tiananmen
A terceira parte significativa da entrevista trata dos "Tiananmen Papers", documentos secretos do governo chinês sobre o massacre de 1989. Link trabalhou com o cientista político Andrew Nathan para traduzir e organizar esses documentos trazidos clandestinamente por um oficial chinês usando o pseudônimo "Zhang Liang".
Link defende a autenticidade dos documentos e lamenta que a discussão pública tenha se focado tanto nessa questão em vez de analisar seu conteúdo revelador. Ele aponta contradições fascinantes nos documentos, como Deng Xiaoping ordenando que os soldados limpassem a praça mas "sem derramar sangue" - uma ordem impossível que revelava a natureza cínica do regime.
Pessoas Citadas: Contexto e Importância
Liu Xiaobo (1955-2017): Escritor, crítico literário e ativista de direitos humanos. Ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2010 enquanto estava preso. Foi o principal organizador da Carta 08 e morreu sob custódia do governo chinês.
Fang Lizhi (1936-2012): Astrofísico renomado e figura elder do movimento pró-democracia dos anos 80. Conhecido como "o Sakharov chinês", buscou refúgio na embaixada americana com ajuda de Link após Tiananmen.
Deng Xiaoping (1904-1997): Líder supremo da China que ordenou a repressão de Tiananmen. Link o analisa como um mestre em transferir responsabilidades para outros enquanto mantinha o poder.
Ding Zilin: Professora aposentada cujo filho foi morto em Tiananmen. Fundou o grupo "Mães de Tiananmen" e foi figura moral crucial que convenceu Liu Xiaobo a participar da Carta 08.
Liu Binyan (1925-2005): Jornalista investigativo e escritor, pioneiro da "literatura reportagem" que expôs a corrupção do Partido Comunista. Foi uma das primeiras influências de Link no mundo dissidente.
Andrew Nathan: Professor de ciência política em Columbia, colaborador de Link nos Tiananmen Papers e especialista em política chinesa.
Wang Lixiong: Escritor e ativista tibetano, marido da poetisa tibetana Tsering Woeser. Conhecido por seus escritos sobre Tibet e Xinjiang.
Hu Ping: Escritor e teórico político exilado, editor da revista Beijing Spring. Link traduziu seu último artigo sobre as relações não-oficiais entre China e Taiwan.
Zhang Zuhua: Co-organizador da Carta 08, detido por apenas três dias enquanto Liu Xiaobo pegou 11 anos, causando controvérsia sobre possível proteção devido a conexões políticas.
Ai Weiwei: Artista contemporâneo e ativista, filho do poeta Ai Qing. Link editou seus artigos para publicação no New York Times.
Conclusão: O Legado de Tiananmen
A entrevista termina com a reflexão de Link sobre o impacto duradouro do massacre de Tiananmen. Ele argumenta que Deng Xiaoping escolheu deliberadamente um massacre em vez de métodos menos letais para enviar uma mensagem de terror que atravessaria gerações. Essa estratégia, segundo Link, teve sucesso: criou um medo nacional que persiste até hoje, contribuindo para o que ele chama de "política morta" na China contemporânea.
A importância desta entrevista reside não apenas em revelar detalhes históricos, mas em mostrar como indivíduos corajosos mantiveram viva a chama da democracia chinesa através de décadas de repressão, usando a palavra escrita como sua principal arma de resistência.
🌓 A ambiguidade salva vidas?

A sensação de fim de mundo, de período caótico, de ansiedade e angústia generalizadas com a crise climática, de regressão, de repetição de erros (conflitos, guerras, injustiças, genocídios) está por toda parte. Manter a sanidade só é possível através da disciplina diária de respirar no aqui e agora e de nos concentrarmos constantemente nos diferentes microscosmos que habitamos: nosso interior, nossa casa, nossos amigos, nossas famílias, nossas comunidades (de trabalho, de hoobies, de interesses e práticas diversas, religiosas, espirituais) e, sobretudo, na sensação de pertencimento em ação.
Acredito que o pertencimento a que estamos destinados se constrói. As nossas reais intenções são como fórmulas energéticas que atraem eventos e pessoas afins. Nesse sentido, é como se os microscosmos da vida cotidiana (não aquela do automatismo, mas a que é regada a reflexão e generosidades) nos protegessem do macrocosmo caótico em que estamos (aqui, refiro-me, óbviamente, à nossa civilização, e não aos Deuses e Céus).
Tenho me perguntado quanto de destruição e regressão será necessário para que novas estruturas surjam. Será que todos os filmes de ficção científica distópicos foram profecias autorrealizáveis?
Temos que aprender a dissociar para sobreviver neste mundo conectado. Encontrar uma forma sã de navegar as várias realidades às quais somos expostos 24/7. E correr atrás da sabedoria de discernir sobre entrar ou não na dor e no sofrimento atroz que estamos presenciando em tantos pontos do planeta. Seja dos meus vizinhos, em Gaza, na Ucrânia, no Sudão ou nas periferias brasileiras, sul-africanas, mexicanas... a lista é grande.
O que "mudou o jogo" é que agora sabemos de tudo, e os algoritmos estão focados em nos manter viciados em saber de tudo. Mesmo que o vício não seja esse, vai ser outro. Cada um com seu ponto fraco e os algoritmos amam pontos fracos, rs. Isso não vai mudar tão cedo. Então, é bom a gente mesmo se cuidar. Pra se cuidar, precisamos também de menos certezas e mais ambiguidades. Mais abertura e flexibilidade. Praticando essas coisas, ficamos mais humildes, a convivência melhora, somos mais colaborativos e os nossos microcosmos agradecem.
São reflexões que tenho feito ultimamente. E quando bati nesse artigo, alguns pontos dele confluíram com essas reflexões.
Uma Reflexão sobre Certezas Perdidas (Claude Sonnet 3.5) 🔻
O Colapso da Orientação Histórica
Em um encontro fortuito entre passado e presente, Venkatesh Rao se vê confrontado com uma peculiar sensação de deslocamento. Rao parte de uma lembrança pessoal — uma menção antiga a um post seu em um artigo recente da Atlantic — para refletir sobre a sensação de já ter estado, em algum momento, “do lado certo da história”. Hoje, ele afirma ter perdido essa sensação. Não porque tenha migrado para o lado “errado”, mas porque a própria ideia de lados claros se desfez. O que significa estar do "lado certo da história" em tempos de incerteza radical?
Segundo ele, a história, ao atravessar o que chama de Gramsci Gap (o interregno caótico entre mundos), tornou-se não orientável: não há mais direções claras nem posições que se sustentem moral e epistemicamente como certas.
A Dissolução das Certezas
O autor nos guia através de uma transformação pessoal e coletiva: da confortável clareza ideológica dos anos 2000-2020 até o atual momento de desorientação generalizada. Esta não é apenas uma história de perda de convicções, mas uma análise sofisticada de como a própria noção de "lados" na história se tornou problemática.
O conceito de "lado certo da história" carrega uma dupla dimensão:
- A epistêmica: alinhamento com as tendências inevitáveis dos acontecimentos;
- A moral: compromisso com valores fundamentais independente das circunstâncias.
Confundir essas duas dimensões é, para ele, o núcleo do extremismo político: acreditar que estar moralmente certo implica inevitavelmente estar factual ou historicamente certo — ou que a história provará sua moral como verdade objetiva.
A Ilusão do Destino Evolutivo
Usando a evolução como metáfora central, Rao demonstra como a busca por certezas absolutas frequentemente nos leva a interpretações reducionistas. Tanto à direita quanto à esquerda, há uma tentação de transformar processos complexos em narrativas moralmente deterministas.
Aceitando a Ambiguidade
O texto culmina com uma proposta radical: abandonar temporariamente a própria busca por "lados". Em vez de tentar forçar coerência total entre posições diversas ou buscar um artificial "caminho do meio", Rao sugere aceitar um estado de ambiguidade produtiva.
A Leveza como Ato Político
Um dos eixos mais originais do texto é a defesa da não-seriedade como uma dimensão legítima e até necessária do engajamento com o mundo. Rao argumenta que em tempos marcados por certezas rígidas e performativas, o humor, a leveza, a curiosidade e o jogo não são sinais de alienação, mas sim formas de resistência criativa. Ele critica duramente tanto a esquerda quanto a direita por levarem a seriedade a sério demais, ao ponto de perderem a capacidade de rir de si mesmas — um sinal, para ele, de colapso imaginativo. Neste cenário, a imaginação não se sustenta sem o direito ao erro, à ironia e ao absurdo. E é exatamente isso que tem desaparecido do espaço público.
O Custo do Silêncio
A conclusão é particularmente perturbadora: o atual recuo coletivo para "bolhas cozys" (grupos privados pequenos) pode representar uma sabedoria epistemológica, mas também um enfraquecimento do debate público. Quando muitos optam pelo conforto da incerteza privada, a própria possibilidade de construir sentidos históricos compartilhados se dissolve.
Esta análise nos deixa com uma questão incômoda: como navegar um momento histórico onde a própria bússola moral e epistêmica parece ter perdido seu norte? A resposta de Rao não é simplesmente aceitar a desorientação como sinal de maturidade, mas reconhecer que a própria tentativa de forçar clareza moral e histórica em tempos ambíguos pode aprofundar o problema que tentamos resolver.
🎓 De quem é o melhor resumo?
📰 5 AI bots took our tough reading test. One was smartest — and it wasn’t ChatGPT
We challenged AI helpers to decode legal contracts, simplify medical research, speed-read a novel and make sense of Trump speeches. Some of the AI analysis was impressive — and some was downright dumb.
Ler no Washington Post →Pedi pro Briefly fazer uns resuminhos dos testes realizados pela equipe do Whapo: em tabela, em mapa mental e em texto mesmo. Claude melhor na média, GPT melhor em literatura. Detalhe: o Gemini atual não foi testado, pois já estamos na versão 2.5 Pro e foi a versão 2.0 que foi testada nesse experimento aí.


Melhores resumos por categorias (Briefly) 🔻
Resumo
O artigo apresenta um teste de compreensão de leitura realizado com cinco chatbots de IA, avaliando sua capacidade de resumir e analisar diferentes tipos de texto: literatura, contratos legais, pesquisas científicas e discursos políticos. O teste revelou inconsistências significativas na performance dos bots, com alguns demonstrando excelente compreensão em certos domínios e falhando drasticamente em outros. A pesquisa conclui que, embora os chatbots de IA mostrem potencial para auxiliar na leitura e resumo de textos, ainda são ferramentas imperfeitas e sujeitas a erros, como a "alucinação" de informações, e não devem substituir a leitura humana, especialmente em situações que exigem precisão e análise crítica.
📚 Objetivo do Teste: Avaliar a capacidade de cinco chatbots de IA (ChatGPT, Claude, Copilot, Meta AI e Gemini) em resumir e analisar diferentes tipos de texto, incluindo literatura, contratos legais, pesquisas científicas e discursos políticos. O objetivo era determinar a confiabilidade dessas ferramentas como assistentes de leitura. A metodologia envolveu a apresentação de quatro textos distintos a cada chatbot, seguidos de perguntas para avaliar a compreensão e análise dos mesmos. A avaliação foi feita por um painel de especialistas, incluindo os autores originais de alguns dos textos.
🤖 Desempenho dos Chatbots: Os resultados mostraram grande variação no desempenho dos chatbots, dependendo do tipo de texto. Em geral, todos os bots, exceto um, apresentaram "alucinações" (invenção de informações). A literatura se mostrou o tipo de texto mais desafiador para os bots, com apenas o Claude obtendo pontuação perfeita na compreensão dos fatos. Contratos legais também apresentaram dificuldades, com os bots frequentemente simplificando informações complexas ou ignorando nuances importantes. Pesquisas científicas foram o tipo de texto em que os bots tiveram melhor desempenho, possivelmente devido à estrutura previsível dos relatórios científicos. A análise dos discursos de Donald Trump também apresentou desafios, com os bots tendo dificuldades em captar o tom e a intenção das falas.
🏆 Vencedor e Conclusões: O chatbot Claude obteve a melhor pontuação geral, sendo o único que não apresentou "alucinações". No entanto, mesmo o melhor chatbot não atingiu uma pontuação acima de 70%, indicando limitações significativas. As inconsistências no desempenho dos bots em diferentes tipos de texto destacam a necessidade de cautela ao utilizar essas ferramentas. Os autores do estudo enfatizam que a IA não substitui a leitura humana, especialmente em situações que exigem precisão e análise crítica. Recomenda-se o uso de pelo menos duas ferramentas de IA para comparação de resultados e a leitura pessoal do documento para qualquer assunto de importância.
Limitações da IA na Compreensão de Leitura
⚠️ Alucinações: A invenção de informações ("alucinações") foi um problema recorrente em todos os chatbots, exceto o Claude. Isso demonstra uma limitação crucial na capacidade da IA de processar e interpretar informações com precisão. A falta de confiabilidade na informação gerada pela IA exige verificação humana para garantir a precisão dos dados.
📉 Omissão de Informações: Os resumos gerados pela IA frequentemente omitiram informações importantes, demonstrando uma compreensão incompleta do texto. Essa omissão pode levar a interpretações incorretas e conclusões imprecisas, especialmente em contextos que exigem uma compreensão completa do assunto.
⚖️ Viés Positivo: Os chatbots demonstraram uma tendência a superestimar os aspectos positivos e ignorar os negativos, resultando em uma visão distorcida do conteúdo. Essa tendência a um viés positivo pode ser prejudicial em situações que exigem uma análise objetiva e imparcial.
🎪 Mountainhead
Adição tardia nesta edição. Vi o filme depois de ter enviado a news. É um roteiro que fala justamente sobre a infantilidade perversa do estereótipo techbro aceleracionista (papo pra outro momento). Surreal. Mas muito real.
Os resumos e traduções foram feitos por IA para facilitar para quem não tem tempo ou saco de ler/ver. Eu li e vi todos os conteúdos, assim como chequei os resumos.
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