Solventes
Forças e operações que dissolvem aspectos cristalizados. Permitem transformação e fluidez. O tempo, o amor, a conexão, a reflexão, o exame de consciência.
Que abacaxi
💭 Presta pensante
A vida continua, apesar de tudo.
Tenho observado a angústia e a desesperança. A impotência e a indignação.
A obsessão com os assuntos, que são vários e se reproduzem como coelhos.
Aqueles, que nos deixam mais encalacrados e nos consomem por dentro.
Fugir, não pensar neles, seria uma forma de abandono.
"Ao menos minha atenção essas pessoas merecem."
Os dias passam e as notícias não mudam, mas variam em seus detalhes.
A obsessão continua. Alguns com Gaza. Outros com a crise climática.
Eu, até com o Sudão. Outros com a política da própria terra: a ameaça da volta dos que nunca foram.
Não há necessidade de enumerar, cada um com sua própria lista obsessiva, pois não. Nela também entram fugas, refugos e a morte.
O amanhã parece não ter jeito.
Eu passei dias pensando na Juliana, lá no vulcão da Indonésia.
Cheguei a acordar, no meio da noite, sobressaltada.
Um medo, uma preocupação, um pânico com toda sorte de sofrimento possível.
No meio, um balão em fogo caindo, uma família morrendo abraçada.
Por que me concentrar nisso mesmo?
Medo chama medo. Uma rede que se forma, monta barraca, e fica.
Todo o resto passa a vibrar nesse diapasão e a visão modifica.
Passo a olhar o mundo sob outra perspectiva. E é aí que mora o perigo.
Paro, respiro, realinho meus fios mentais. Ao menos para lembrar que minha cabeça não controla o mundo, o universo, e não é capaz de saber exatamente como as pessoas sentem, como as pessoas morrem.
São perspectivas. Somente possibilidades, entre infinitas.
Minhas necessidades estão roubando a liberdade da existência. Cuidado.
Isso não é o Mundo. Ele é muito mais que isso.
Eu não sei como foi a morte de Juliana, não sei como foi a morte da família abraçada. Não sei. Não dá para saber. Tá, dá para imaginar..., mas, com qual intenção? O que está por trás desse movimento incontrolável de fazer o peito apertar e se fragilizar com uma situação que pertence à vida, ao destino de outra pessoa?
A necessidade de controle, a prepotência de achar que sabe exatamente, ou precisa saber, como tudo aconteceu, acontece e pode acontecer. Mas a gente NÃO SABE. Eu preciso sempre lembrar: minha cabeça, minhas lentes. O jogo é não deixar meu lado hiena (ó vida, ó céus) pintar o mundo. Não importa quão louco, caótico, ou sofrido, ele esteja. Porque a vida continua, apesar de tudo.
Aceitar isso, dói. Porque parece abandono. Tenho direito de continuar a vida, aprendendo e me conectando com o lado luminoso dela, com tanta gente sofrendo?
Eu me relaciono com a misericórdia divina. Sim, eu acredito nela. Me chamem de viajandona, crente, inocente, esotérica. O que for. Já liguei muito pra isso, mas hoje, I don’t care anymore.
Então eu abro, imagino as estrelas, os universos, me distancio da linha do tempo. E me conecto com o processo. Me lembro exatamente da época (acho que foi 2018/2019) em que as aulas de Saat Maet pousaram sobre este tema: mais do que o resultado, o objetivo, o que importa, é o processo. Foi uma descoberta passar a viver com a semente deste discernimento dentro de mim. Porque muda bastante. Envolve tanta coisa.
E eis que por estes dias, algo decantou. E eu desencanei de me fiar num futuro melhor. De me prender à necessidade de uma realidade concreta de uma humanidade mais madura. São muitos planetas dentro de um só planeta. Oito bilhões de pessoas. Vai demorar muito ainda para qualquer vislumbre.
Estamos vivendo o que precisamos viver. O que escolhemos viver.
Culpamos os sistemas, cravamos os “ismos”, como demônios antigos. Mas os “ismos” são reflexos nossos, da forma como tratamos os nossos outros internos.
Os “ismos” não são top down. São bottom up. Vem de dentro. Não são culpa das elites, dos ignorantes, dos zumbis, da doença que for.
Nós exteriorizamos nossos movimentos interiores, nossos reais valores, nossos desejos não dissecados, queimados, dissolvidos, purificados.
Enquanto não elegermos o trabalho interior como o ponto de partida, a base, o valor mais querido possível, a educação básica para a alma, vamos continuar obcecando com os “ismos”, os demônios culpados de sempre.
Faz o teu primeiro. A necessidade de culpar o outro vai diminuir bastante, garanto.
Olhando para as montanhas de longe, dá para localizar. É este o processo. Faz parte. É o caminho de aprendizado da humanidade.
Tá foda. Dói. Fica insuportável, tem dia. Enlouquecedor.
Mas é o processo, e temos muito o que aprender nele, com ele. Asperamente. Veludo. Queimando. Apertando. Amando. Mas com ele. É o que dá sentido.
Prega nesse rolê. A vida continua, apesar de tudo.
“A vaidade era isso: tomar voo a cada dia, ao menos por um instante — que pode ser breve, desde que seja intenso. A cada dia, um exercício espiritual, sozinho ou na companhia de um homem que também deseje se aprimorar. Exercício espiritual: sair da temporalidade, esforçar-se por despir-se das próprias paixões, das vaidades, do prurido de ruído em torno do seu nome — que, de tempos em tempos, coça como uma enfermidade crônica.
Fugir da maledicência, despir-se da piedade e do ódio, amar todos os homens livres, eternizar-se ao superar-se. Esse esforço sobre si é necessário, essa ambição, justa. Numerosos são os que se absorvem inteiramente na política militante, na preparação da revolução social. Raros, muito raros, os que, para preparar a revolução, querem tornar-se dignos dela.”
Georges Friedmann, La Puissance et la Sagesse (Gallimard, 1970)

🪨 Sísifo feliz

Eu adoro o jeito da Vanessa Guedes escrever 💎
"Enquanto rolo minha pedra sisífica no escritório, as notícias de guerras (nem tão) distantes descem como enxurradas. E eu lá, empurrando a pedra. Gente morrendo lá para além do pé da montanha, mas eu focada. Minha pedra, my business. Vida que segue."
O substack está cheio de gente como a gente que escreve bem e compartilha a vida, os achados, as agruras, as perturbações, sem (muitas) ambições aparentes. Um exército escrevente. A criatividade é uma forma de solvência.
Este texto da Vanessa acho que vai fazer sentido pra muitos 🎯
"Na inabilidade de fazer qualquer coisa a respeito da guerra, sinto pena. Não só pelo desamparo das pessoas que morrem nela, mas também pena de mim e dos outros que estão longe e não sabem o que fazer para intervir. Passividade forçada por circunstâncias também é uma forma de agressão. Muito discreta, muito silenciosa, mas extremamente efetiva em nos mostrar o nosso lugar. Inúteis."
E é doido porque tá todo mundo tentando elaborar, para não enlouquecer.
Eu digo todo mundo que tem espaço pra isso. Porque tem muita gente, com todo o seu direito, que segue a vida, sem pensar no que nos ronda. Tem gente que não está na idade de ter que carregar esse fardo. Não é justo. Tem gente que não pode pensar, porque se não, quebra. Tem gente que precisa cuidar dos outros, dos filhos, da lida. Então, para quem pode, para que não consegue não pensar, para quem está fodido, aqui vai a dica: É preciso imaginar Sísifo feliz.
Leia o artigo dela todinho. É muito bom.

🌿 O jardim e a vida

A Gisela Gueiros, que faz esse Hottest Takes no Substack (Artes, poesia, música e curiosidades...) fez um apanhado pessoal nesse post que eu achei sincrônico (assim como o da Vanessa) com o tema da semana, no sentido dos highlights solventes (aqueles que podem nos salvar diariamente).
- Um livro que ela ganhou: “The Backyard Bird Chronicles”:
Já fomos, muitos de nós, em outras idas, Bird Watchers.
Cada espécie, cada canto, uma mudança no calendário.
E, hoje em dia, o birdwatching permanece uma paixão.
Claro que tem até app para saber que pássaro é aquele.
- Um trecho de um artigo de uma jornalista do NYTimes que ela selecionou:
"Tenho me sentido um pouco sobrecarregada ultimamente, tanto pelas notícias quanto por alguns problemas da vida. Gostaria de me refugiar no topo de uma montanha, mas meu plano mais realista é buscar as menores coisas possíveis que posso fazer todos os dias para me animar. Todas as manhãs, por exemplo, abro meu aplicativo Merlin Bird ID para ver se algum pássaro novo apareceu no meu quintal. (Esta manhã, descobri um pica-pau-do-norte, que eu nem sabia que existia.) Micromomentos de positividade como este podem melhorar seu bem-estar.
No resto do post, tem banalidades, dicas, e mais um solvente:
Outro dia estava cuidando do jardim e tive dois insights (meio óbvios), mas que queria compartilhar aqui. Dia sim e outro também, é preciso remover ervas daninhas. O jardim e a vida têm muito em comum. Livrar-se de ervas daninhas é exercício repetitivo, sem fim — e serve de analogia para pensamentos negativos, burocracias da vida adulta, manutenções (do corpo, do armário, da geladeira, da casa, da vida) às quais precisamos dar atenção constante — escovar os dentes, lavar roupas, regar plantas, pagar impostos, etc.
Por outro lado, mas também de forma insistente, me deparei com a dificuldade de remover uma árvore. Raiz é coisa profunda, bem espalhada, emaranhada na terra… Ao tentar, sem sucesso, cortar “o mal pela raiz” me lembrei de que Bob Marley já tinha avisado: you can’t run away from yourself. Raiz é raiz — informa e impregna tudo o que parte dela.
🏛️ Vamos reavivar a Filosofia?
Suas obras principais, como Exercices spirituels et philosophie antique (1981), influenciaram pensadores como Michel Foucault e inspiraram o renascimento contemporâneo do interesse pela filosofia como prática de vida integrada ao cotidiano, não apenas como disciplina acadêmica.
Eu descobri Pierre Hadot (1922 - 2010) na pesquisa bibilográfica da minha monografia de conclusão da pós em Psicologia Analítica que finalizei este ano. Não tive tempo de lê-lo na época e agora, entre minhas andanças, comecei a buscá-lo. Encontrei esta entrevista que ele concedeu à Rádio France Culture em 2003.
Ele é daqueles que propõe a reconexão da prática com a teoria. E a filosofia, portanto, como cuidado de si, como um modo de vida. A ressignificação dos filósofos antigos como praticantes e não somente "pensadores" muda bastante a forma de "ler" o que diziam. Os exercícios espirituais de Hadot são um exército de solventes. Que trabalho bonito ele fez de trazer isso para a contemporaneidade.
Achei lindo um trecho em que ele recupera uma passagem de Goethe, para reforçar uma reflexão sua sobre o exercício de ler:
"Temos de aprender a ler, o que significa parar, libertar-nos de nossas preocupações, voltar a nós mesmos, deixar de lado nossa busca por originalidade e sutileza, meditar com calma, ruminar, deixar que os textos falem conosco"
E então Hadot complementa citando Goethe:
"Goethe disse que não há nada mais difícil do que aprender a ler", porque ele disse: 'Tenho 80 anos e ainda não consigo ler de verdade'. As pessoas não sabem quanto tempo e esforço são necessários para aprender a ler".
Tem um outro trecho em que ele explica o que seriam os exercícios espirituais: "atividades práticas, trabalho sobre si mesmo, um cessar de si".
Me lembrou muito o "tirar o ego da frente" de Saat Maet (entendedores, entendederão).
Bem, para quem não tiver saco de assistir com as legendas automáticas do Youtube, segue o resumo aqui embaixo e a transcrição traduzida da entrevista para download (depois do resumo expansível).
Filosofia como Cuidado de Si
Esta entrevista radiofônica de 2003 revela o pensamento de Pierre Hadot sobre os exercícios espirituais na filosofia antiga, apresentando uma visão da filosofia como transformação existencial, não apenas como teoria abstrata.
A Descoberta dos Exercícios Espirituais
Hadot explica que sua descoberta nasceu de uma observação literária: as aparentes contradições nos textos antigos não eram falhas, mas convites à transformação.
Como disse Henri-Irénée Marrou sobre Santo Agostinho: "ele não expressa uma teoria para informar as pessoas, mas as obriga a fazer um exercício espiritual".
"Os diálogos não se destinam a informá-los, mas a formá-los" - Victor Goldschmidt sobre Platão.
O que são os Exercícios Espirituais
Para Hadot, são "atividades práticas, trabalho sobre si mesmo, um cessar de si".
O termo não tem conotação religiosa obrigatória - Georges Friedmann escrevia sobre fazer de cada dia um exercício espiritual: "sair da temporalidade, esforçar-se por despir-se das próprias paixões, das vaidades".
Duas Categorias de Exercícios:
- Exercícios de formação interior (preparação e cultivo da atenção)
- Exercícios de aplicação prática (práxis - levar o conhecimento filosófico para a vida cotidiana, integrar teoria e existência)
As escolas filosóficas como terapias
Estoicismo: A Filosofia da Tensão
- Princípio fundamental: Distinguir o que depende de nós do que não depende
- Exercício da premeditação: Cultivar a reflexão antes da palavra, preparar-se mentalmente para adversidades
- Máxima de Epiteto: "Não são as coisas que nos incomodam, são nossos julgamentos sobre as coisas"
- Conversão do olhar: Reconhecer que nossa liberdade reside na escolha de nossa atitude moral diante dos acontecimentos. A morte, exílio, tortura são "indiferentes" porque não dependem de nossa vontade - o que importa é não cometermos injustiça, exercermos nossa responsabilidade moral
Epicurismo: A Filosofia do Relaxamento
- Objetivo: Paz da alma através da física atomista
Epicuro considerava que os homens viviam aterrorizados pelos deuses (que podiam intervir violentamente) e pelo medo da morte/tormentos futuros.
A física atomista demonstrava que o universo é eterno, os mundos se formam pelo entrechoque de átomos eternos, libertando assim dessas duas angústias fundamentais.
- Tetrapharmakos (quádruplo remédio):
Os deuses não devem ser temidos: existem, mas não interferem nos assuntos humanos
A morte não é um mal: "quando ela está presente, não estamos mais lá, e quando estamos, não está lá"
O bem é fácil de adquirir: através da amizade, contemplação do universo, satisfação moderada dos desejos naturais
O mal é fácil de suportar: se for intenso, não durará muito; se durar, não será insuportável
Diferença crucial: Onde os estoicos cultivam tensão e esforço, os epicuristas buscam relaxamento e prazer estável
A Atenção ao Momento Presente
Hadot explica que o presente tem "uma espessura, uma largura" (os estoicos usavam o termo grego plátos).
Bergson: o presente "corresponde à duração da nossa atenção e da ação que estamos realizando" - não é um instante matemático, mas tem densidade existencial.
O segredo é libertar-se da paixão provocada pelo passado (que só gera remorsos inúteis) e pelo futuro (preocupação com o que ainda não aconteceu).
Essa conversão exige "um grande esforço", especialmente para não pensar no futuro.
O Conhecimento de Si em Sócrates
Hadot oferece três interpretações do "conhece-te a ti mesmo":
· Conhecer-se como ignorante: A máxima délfica original significava "conhece os teus limites" em relação aos deuses e forças que não se pode dominar. Em Sócrates, significa tomar consciência das próprias fraquezas - ponto de partida de toda filosofia antiga
· Conhecer-se em seu ser essencial: Desenvolvido por metafísicos como Plotino - "conhece-te como espírito", descobre toda a transcendência que há em ti, conecta-se ao daimon socrático (o eu superior)
· Conhecer-se em seu verdadeiro estado moral: Exame de consciência sobre o próprio caráter, como Marco Aurélio que tomou consciência do "estado lamentável de seu caráter" - base para a terapia filosófica
O Diálogo Como Exercício Espiritual
O diálogo socrático visa "fazer com que o indivíduo duvide de si mesmo, perceba que não é coerente consigo mesmo". Mas dialogar verdadeiramente exige:
- Submeter-se às regras do logos (razão/discurso)
- Abrir mão da individualidade
- Permitir que outros se expressem
"É uma escola muito, muito difícil"
Aprender a Morrer
Em Platão: separação da alma do corpo, morte para as paixões e evidências sensíveis
Em Epicuro: aproveitamento pleno da vida (carpe diem)
Em Sêneca: libertação do medo dos tiranos (“aquele que aprendeu a morrer não é mais um escravo... pois conquistou a força da alma... a verdadeira liberdade está na escolha da atitude moral ")
Em Heidegger: consciência do fato bruto da existência (significa confrontar-se com a finitude radical e a contingência da nossa existência - não como teoria, mas como experiência vivida que transforma nossa relação com o ser. É despertar para a estranheza fundamental de simplesmente existir, saindo da banalidade cotidiana.
A perda da Filosofia como modo de vida
Hadot localiza a ruptura não em Descartes (como Foucault), mas no cristianismo medieval: os exercícios espirituais migraram da filosofia para a teologia, e a filosofia tornou-se "instrumento puramente abstrato para resolver problemas dogmáticos".
Crítica à "Estética da Existência" de Foucault
Para Hadot, a proposta foucaultiana é "uma atitude de dândi", enquanto os exercícios espirituais antigos visavam transformação e transcendência, não elegância. Falta em Foucault a relação com a natureza - dimensão essencial da consciência cósmica.
Consciência Cósmica Hoje
Hadot vê na ciência moderna uma via para a consciência cósmica. Cita Hubert Reeves sobre a emoção de ver Saturno pelo telescópio, e Einstein com sua "religiosidade cósmica" - um Deus que "se confunde com a própria natureza".
Ensinamento Central
A filosofia antiga não era conhecimento teórico, mas arte de viver. Os exercícios espirituais podem ser praticados hoje, separados de seus contextos doutrinais, oferecendo paz da alma, consciência cósmica e liberdade interior - não como fuga do mundo, mas como transformação radical da nossa relação com a existência.

⚖️ Hanna, ainda, mas por ela mesma
Esta "editoria" da Hanna ainda vai ficar por um bom tempo rolando por aqui. Esta entrevista está toda legendada, bem bonitinha. Então, como venho dizendo: perca seu tempo, porque, com ela, sempre vale a pena.
Eu fico muito empolgada com pessoas pensantes. E a Hanna foi mais do que isso. Foi atuante. A história de vida dela é uma atividade intensa. E vai ser corajosa de colocar a boca no trombone assim lá na...
A história e a filosofia de Hannah Arendt, por ela mesma
Identidade Intelectual e Método
Arendt faz questão de distinguir-se como teórica política, não filósofa. Para ela, existe uma tensão fundamental entre filosofia e política - enquanto o filósofo contempla, o ser político age. Ela busca "ver a política com olhos que não estejam encobertos pela filosofia", mantendo-se fiel à experiência concreta da ação humana.
A Primazia da Compreensão
O motor de seu trabalho é a necessidade de compreender: "Para mim, essa compreensão também inclui a escrita. A escrita ainda faz parte do processo de compreensão." Ela trabalha não pelo impacto, mas pela satisfação pessoal de entender e expressar adequadamente o que pensa.
Despertar Político: 1933 como Marco
O incêndio do Reichstag em 27 de fevereiro de 1933 marca seu "despertar político". Arendt articula um princípio fundamental: "Se você for atacado como judeu, terá de se defender como judeu" - não como alemão ou cidadão do mundo, mas especificamente. Isso representa sua rejeição à assimilação e aceitação da realidade política concreta.
Crítica aos Intelectuais
A experiência de 1933 gerou uma profunda desconfiança nos intelectuais, que se "sincronizaram" voluntariamente com o nazismo. Isso a levou temporariamente a abandonar o trabalho acadêmico em favor da ação social prática, trabalhando com refugiados judeus.
A Língua Materna como Último Refúgio
Uma das declarações mais tocantes: "O que permaneceu foi o idioma". Arendt conscientemente manteve o alemão como língua de pensamento, mesmo escrevendo em inglês: "Não é o idioma alemão que é louco... não há substituto para a língua materna."
O Abismo de Auschwitz
Distingue claramente entre a perseguição política ("tudo isso poderia ter se tornado bom novamente") e o Holocausto: "Isso nunca deveria ter acontecido". Auschwitz representa para ela uma ruptura fundamental na experiência humana, algo qualitativamente diferente de todas as outras formas de violência política.
Teoria Política: Ação vs. Trabalho/Consumo
Sua crítica à modernidade centra-se na substituição da ação política (orientada para o mundo público) pelo ciclo de trabalho e consumo (voltado para o biológico e o privado). Isso gera "abandono" - o ser humano se volta para si mesmo, perdendo o senso de mundo comum.
Conceito de "Mundo"
O "mundo" para Arendt é o espaço público onde as coisas se tornam visíveis, onde a política acontece, onde a arte aparece. A perda desse mundo comum é o grande perigo da modernidade.
Política como Capacidade Humana Universal
Contrariando interpretações elitistas, afirma que "onde quer que as pessoas estejam juntas... os interesses públicos são formados". A capacidade de ação política não se limita a poucos, mas pode emergir em qualquer escala - de um bairro a uma nação.
Amor vs. Política
Uma distinção crucial: "Eu só amo meus amigos". Rejeita o "amor pelos judeus" ou qualquer coletivo, argumentando que amor e política são esferas distintas. O amor é direto e pessoal; a política é mediada pelo mundo comum e pelos interesses compartilhados.
Verdade Factual vs. Opinião
Defende intransigentemente o direito à verdade factual contra interesses políticos: "as ciências históricas são as guardiãs dessas verdades factuais". Mesmo reconhecendo possíveis danos, ela escolheria a verdade sobre a conveniência política.
O Risco da Esfera Pública
Toda ação política implica risco - "começamos algo, tecemos nosso fio em uma rede de relacionamentos. Não sabemos o que resultará disso". Esse risco só é possível através de uma "confiança fundamental e indescritível na humanidade de todas as pessoas."
Filosofia de Vida: Dignidade e Responsabilidade
Sua mãe lhe ensinou um princípio vital: "você não pode se esquivar, tem de revidar" - sempre manter a dignidade e não aceitar passivamente a humilhação. Isso moldou sua postura de enfrentamento intelectual e político ao longo da vida.
O Princípio Fundamental: O que a mãe ensinou não era "revidar com qualquer coisa", mas sim manter a dignidade através de respostas apropriadas ao contexto:
- Com adultos: usar a autoridade institucional e a formalidade
- Com crianças: defender-se diretamente, mas sem escalar para os adultos
Esses pontos revelam uma pensadora que combina rigor intelectual com coragem política, sempre priorizando a compreensão autêntica sobre o sucesso ou a aceitação social.
🌍 Uma historiadora sensível no Sudão
Em sua trajetória intelectual, se interessou pelos Estudos Negros e pela interseção entre África e Oriente Médio, levando-a a estudar as dinâmicas raciais do Sudão através de metodologias inovadoras que combinam pesquisa arquivística em 12 arquivos globais com histórias orais de veteranos de guerra.
Dividindo seu tempo entre a África do Sul e os Estados Unidos, ela exemplifica como o treinamento histórico pode ser aplicado além da academia, dedicando-se a projetos de justiça racial e defesa pública que conectam financiadores governamentais, setor privado e sociedade civil em iniciativas transformadoras.
Eu não sei se esta aula vai interessar a alguém. Como venho compartilhando recentemente, tenho feito o movimento proposital de buscar outros eixos. Sair do Ocidente, da branquitude e de suas narrativas. Aprender sobre outras terras e outras histórias.
O trabalho da Sebabatso Manoeli é muito legal. Ela foi atrás dos cinquentões ainda vivos, remanescentes dos grupos e forças rebeldes do Sudão nos anos 80. Meninos adolescentes ainda, que foram recrutados para a guerra. A pesquisa que ela fez articulou a pesquisa histórica tradicional com entrevistas pessoais, introduzindo uma dimensão de subjetividades que não é muito comum nesse tipo de trabalho.
O trabalho de Sebabatso Manoeli: narrativas, memórias e a Guerra Civil do Sudão
Sobre a Pesquisadora e sua Trajetória
A Dra. Sebabatso Manoeli é uma historiadora sul-africana que atualmente trabalha como diretora executiva sênior da Atlantic Fellows for Racial Equality na Universidade de Columbia, em Nova York. Sua trajetória acadêmica começou quando era estudante de graduação nos Estados Unidos, onde se interessou pelos Estudos Negros (Black Studies) e pela história do Oriente Médio moderno.
O interesse pelo Sudão surgiu durante um período de estudos no Egito, onde frequentemente era confundida com sudanesa devido à sua aparência. Essa experiência a levou a questionar as dinâmicas raciais fora do contexto da supremacia branca ocidental, especialmente nas regiões do Saara, Mediterrâneo e Oceano Índico.
A Pesquisa: "Sudan's Southern Problem"
Seu livro, "Sudan's Southern Problem: Race, Rhetoric, and International Relations, 1961 to 1991", examina um período crucial da história sudanesa através de uma lente pouco explorada: a questão racial. Enquanto a maioria das análises anteriores focava em religião e etnia como principais pontos de conflito no país, Manoeli investigou os processos de racialização e como diferentes atores políticos usavam narrativas sobre raça para ganhar legitimidade internacional.
Metodologia: Arquivos e Vozes
A pesquisa combinou dois métodos principais:
Pesquisa Arquivística: Manoeli consultou 12 arquivos ao redor do mundo, incluindo:
· Arquivos do Sudão em Durham, Reino Unido
· Arquivos Nacionais da Etiópia
· Arquivos do Congresso Nacional Africano em Alice, África do Sul
· Coleções pessoais de especialistas em Sudão
História Oral: Realizou 21 entrevistas em profundidade com veteranos do SPLA (Exército de Libertação do Povo do Sudão) na Etiópia, Uganda e Reino Unido.
A importância da abordagem subjetiva
Além dos Documentos Oficiais
A abordagem de Manoeli representa uma contribuição fundamental para a historiografia africana por várias razões:
- Vozes Marginalizadas: Os soldados rasos raramente aparecem nos arquivos oficiais. Suas histórias revelam como as ideologias do movimento eram vividas no dia a dia.
- Memória como História: As narrativas pessoais não são valorizadas apenas por sua "objetividade", mas precisamente por sua subjetividade - elas revelam como os combatentes davam sentido à sua luta.
- Transformação Pessoal: Os relatos mostram um padrão comum: jovens que entraram no movimento sem consciência política clara e foram transformados pela experiência no exílio.
Exemplos Reveladores
Os depoimentos coletados revelam aspectos únicos:
- Gabriel, 16 anos quando se juntou ao SPLA, admitiu que ele e seus amigos queriam "ter uma arma" sem realmente entender o que isso significava
- Wall relatou o choque de seu amigo separatista ao encontrar soldados árabes nas fileiras do SPLA
- George, após 30 anos de serviço, descreveu o SPLA como "sangue em minhas veias"
Por que Essa Pesquisa Importa
O trabalho de Manoeli é fundamental porque:
- Narrativas como Armas: Mostra como a construção de narrativas é uma forma de poder político
- História de Baixo para Cima: Dá voz aos soldados comuns, não apenas aos líderes
- Complexidade Humana: Revela as motivações complexas e transformações pessoais dos combatentes
- Lições para o Presente: Ajuda a entender os conflitos atuais através de seus antecedentes históricos
O SPLA e a "nova visão do Sudão"
O SPLA (Sudan People's Liberation Army), fundado em 1983 sob a liderança de John Garang, representou uma mudança fundamental na luta do sul. Diferentemente dos movimentos anteriores que buscavam a secessão, o SPLA propunha a "Nova Visão do Sudão" (New Sudan Vision):
- Objetivo: Não a separação, mas a transformação de todo o Sudão
- Ideologia: Libertação de todos os sudaneses oprimidos pelas elites do centro
- Inclusão: Aceitava árabes e nortistas em suas fileiras, algo revolucionário para a época
Os "Anos Dourados" na Etiópia (1983-1991)
Durante esse período, a Etiópia serviu como base principal do SPLA:
- Cerca de 500.000 sul-sudaneses viviam na fronteira etíope
- Campos de treinamento estabelecidos, especialmente em Itang e Gambela
- Treinamento político sistemático ministrado por professores universitários
- Um "laboratório" de multiculturalismo onde a Nova Visão era praticada
O Fim de uma Era
Em 1991, mudanças dramáticas alteraram tudo:
- Queda do governo de Mengistu na Etiópia
- Expulsão do SPLA da Etiópia
- Divisão interna liderada por Riek Machar
- Início de conflitos étnicos entre Dinka e Nuer (etnias)
Contexto histórico: o Sudão e seus conflitos
O País e suas Divisões
O Sudão, antes de sua divisão em 2011, era o maior país da África. Historicamente, o país foi marcado por profundas divisões:
- Norte: Predominantemente árabe e muçulmano, controlava o governo central em Cartum
- Sul: Majoritariamente negro africano, cristão e animista, marginalizado politicamente
As Guerras Civis
O Sudão viveu duas grandes guerras civis antes da independência do Sudão do Sul:
- Primeira Guerra Civil (1955-1972): Iniciada antes mesmo da independência do Sudão do domínio britânico-egípcio
- Segunda Guerra Civil (1983-2005): Uma das mais longas guerras civis da África
A situação atual: legados de uma história não resolvida
Independência e Nova Guerra Civil
Em 2011, após um referendo, o Sudão do Sul tornou-se independente. No entanto, a paz durou pouco:
- 2013: Nova guerra civil eclode, ironicamente entre as mesmas facções de 1991
- Protagonistas: Salva Kiir (Dinka) vs. Riek Machar (Nuer) - os mesmos atores da divisão de 1991
- Padrão Cíclico: A pesquisa de Manoeli mostra como os conflitos atuais repetem padrões históricos
Sudão Hoje
Enquanto isso, o Sudão (norte) enfrenta sua própria crise:
- 2019: Queda de Omar al-Bashir após 30 anos no poder
- 2023-presente: Nova guerra civil entre o exército regular e as Forças de Apoio Rápido (RSF)
- Crise Humanitária: Milhões de deslocados e refugiados
A tragédia é que muitas das questões que levaram às guerras civis - marginalização, racismo, distribuição desigual de recursos - permanecem não resolvidas. O sonho de John Garang de um "Novo Sudão" unido e inclusivo continua sendo apenas isso: um sonho não realizado, enquanto ambos os Sudões continuam mergulhados em conflitos que ecoam as divisões do passado.

👁️ O poder paranoico

Professora no Instituto de Filosofia da Academia Eslovena de Ciências e Artes, Zupančič é reconhecida internacionalmente por aplicar conceitos psicanalíticos à análise da cultura, política e sociedade contemporâneas.
Seus trabalhos mais conhecidos incluem "A Ética do Real" e "O que É Sexo?", onde explora como os mecanismos do inconsciente operam no mundo social e político.
Eu achei este texto muito instrutivo. Todo versado em termos lacanianos, eu tive que ir buscando os conceitos para poder compreender o que a filósofa eslovena Alenka Zupančič propõe. Por isto, na tradução completa da matéria, vocês verão várias notas de rodapé para ajudar a entender os termos. Eu fiz isso pra mim mesmo 💛
Tiremos algumas lições políticas, em termos de atuação e interação com o exército de humanos apaixonados por seus líderes paranóicos. Não adianta denunciar (no sentido de conseguir demovê-los). Não adianta apelar para a razão. É preciso ajudar estar pessoas a recuperar o aspecto simbólico e ritualístico da vida.
Elas estão vivendo seus aprendizados na literalidade da concretude, na facilidade dos bodes espiatórios, na crueldade da perversão, mas a maioria, à distância, sem presenciar as consequências do que estão ajudando a criar. Nenhum deles está lá dentro da cela no Ecuador (junto com os injustamente deportados por Trump), nos destroços das muitas guerras atuais, ou na dizimação em massa de Gaza...
É triste. Eu quero acreditar que a grande maioria não sabe o que faz, porque o gozo com o sofrimento alheio, no teti a teti mesmo, é para poucos.
Inocente eu? Ou a banalidade do mal, de fato, está entranhada nos fios da psique normótica, que nos assola?
Ps: no resumo abaixo, pedi ao Claude para não usar nenhum conceito psicanalítico mais técnico a fim de expor as ideias de uma forma mais acessível.
Como o autoritarismo moderno manipula medos e desejos
Alenka Zupančič explora as novas formas de autoritarismo através da perspectiva psicanalítica da paranoia. Ela demonstra como líderes como Trump enquadram crises sociais através do "tropo da castração" - perdas apresentadas como emasculação física e humilhação. Esse enquadramento bloqueia o registro simbólico, mantendo as pessoas na impotência imaginária em vez da elaboração política.
A autora revela como a "castração como vírus contagioso" justifica ataques aos mais vulneráveis, e como o poder paranoico combina paranoia com perversão - tentando forçar a realidade a produzir significantes através da violência.
Termina analisando o "amor perverso" dos seguidores - baseado não no respeito, mas na fascinação pelo gozo do líder, criando um vínculo que combina desconfiança total nas instituições com devoção cega ao autoritário.
O contexto: vivendo em tempos de crise permanente
Zupančič parte de uma observação simples mas perturbadora: assim como no período pós-11 de setembro, vivemos hoje uma sensação de que "o mundo nunca mais será o mesmo". Crises econômicas, guerras, mudanças climáticas e instabilidade social se sucedem numa velocidade vertiginosa, criando um ambiente de constante incerteza e precariedade.
Nesse cenário, a filósofa identifica o ressurgimento de algo que lembra o fascismo dos anos 1930, mas com características próprias do século XXI. Seu foco não está nas causas econômicas ou geopolíticas desses fenômenos, mas em compreender os mecanismos psicológicos que permitem a certos líderes autoritários conquistar e manter poder popular.
A armadilha da "castração coletiva"
O conceito central do artigo é como problemas sociais reais são deliberadamente enquadrados como "castração" - uma perda de poder, virilidade e prazer. Zupančič explica que isso não é casual: é uma estratégia consciente, mesmo que nem sempre os próprios líderes compreendam completamente os mecanismos que empregam.
Como Funciona Esse Enquadramento:
1. Transformação de Problemas em Humilhação Pessoal
- Questões econômicas e sociais são apresentadas como ataques diretos à masculinidade e ao orgulho
- "Liberdade de expressão" vira "direito de ofender e insultar livremente"
- Críticas ou mudanças sociais são vistas como tentativas de "nos castrar"
2. A Lógica do "Contágio da Fraqueza"
- A "fraqueza" é apresentada como algo contagioso, como um vírus
- Pessoas vulneráveis (imigrantes, LGBTQ+, minorias) são vistas como ameaças não pelo que têm, mas pelo que "são": fracos
- O medo não é de serem dominados pelos fortes, mas de serem "infectados" pelos fracos
3. O Espetáculo da Humilhação
- Violência contra os vulneráveis não é mais escondida, mas exibida publicamente
- O líder demonstra "força" atacando quem já está derrotado
- Isso serve como "prova" de virilidade para os seguidores
O paradoxo do poder paranoico
Zupančič identifica uma contradição fundamental nesses líderes: eles se apresentam como "todopoderosos" mas permanecem fundamentalmente paranoicos. Essa combinação aparentemente impossível é, na verdade, a essência de seu poder.
Características do Poder Paranoico:
1. Autoridade Sem Legitimidade Simbólica
- Diferente da autoridade tradicional, que se baseia no respeito e na distância, o poder paranoico se baseia na força bruta e na exibição de prazer
- Precisa constantemente "provar" seu poder através de demonstrações de força
- Não consegue tolerar críticas porque não tem legitimidade simbólica real
2. A Obsessão com a "Realização"
- Multiplicação de decretos e ações para compensar a falta de autoridade genuína
- A necessidade compulsiva de "fazer acontecer" esconde a insegurança fundamental
- Cada ação deve ser mais espetacular que a anterior
3. Definição Biológica vs. Simbólica
- Obsessão em definir biologicamente o que é "mulher" ou "homem"
- Tentativa de eliminar qualquer ambiguidade ou complexidade nas identidades
- A perseguição a pessoas trans e o controle sobre mulheres fazem parte da mesma agenda: criar categorias fixas e inquestionáveis
A relação com os seguidores: amor, não respeito
O contexto: vivendo em tempos de crise permanente
Uma das observações mais penetrantes de Zupančič é sobre por que as pessoas seguem esses líderes mesmo quando suas contradições são óbvias. A resposta está na diferença entre respeito e amor.
O Amor Perverso pelo Líder:
1. Baseado no Prazer, Não na Competência
- Os seguidores não respeitam o líder por sua sabedoria política
- Eles o "amam" porque ele demonstra prazer: pode fazer e dizer o que quer
- Há uma fantasia de que ele "sabe como gozar" e pode garantir o prazer dos outros (o gozo do líder)
2. A Fascinação com o Excesso
- Quanto mais o líder transgride normas sociais, mais forte parece
- Suas contradições e mentiras não o enfraquecem, mas o reforçam
- A exposição de seus excessos funciona como propaganda, não como crítica
3. Desconfiança Total + Confiança Cega
- Os seguidores desconfiam de todas as instituições e autoridades tradicionais
- Ao mesmo tempo, confiam cegamente no líder
- Essa contradição aparente é, na verdade, um único mecanismo: amar o líder É desconfiar de todo o resto
O mecanismo da exclusão: quando "a mulher precisa existir"
Zupančič dedica atenção especial à obsessão autoritária em definir rigidamente o que é "ser mulher". Ela explica que isso reflete um mecanismo psicológico profundo:
1. O Problema da Definição
- Na psicanálise, "a mulher não existe" como categoria universal e fixa
- Isso gera ansiedade em quem precisa de categorias claras e imutáveis
- A solução autoritária é forçar uma definição biológica
2. A Violência da Categorização
- Historicamente, mulheres foram oprimidas não por terem sua identidade apagada, mas por terem uma identidade imposta
- O conteúdo cultural (o que significa "ser mulher") deve funcionar como se fosse uma lei natural
- Pessoas trans são perseguidas porque tornam visível que essas categorias não são fixas
As consequências: cruzadas modernas
O artigo termina com um alerta sombrio. Zupančič cita Lacan sobre as Cruzadas medievais, lembrando que "Bizâncio nunca ressurgiu das cinzas das cruzadas" e alertando que "esses jogos podem ser jogados novamente, mesmo agora, em nome de outras cruzadas."
O poder paranoico não é apenas uma questão de psicologia individual, mas um mecanismo social que pode levar a consequências devastadoras. Ele não liberta nem fortalece realmente as pessoas - apenas as mobiliza para "expurgos" contínuos contra os "inimigos" internos e externos.
Compreendendo para resistir
A análise de Zupančič não oferece soluções fáceis, mas fornece ferramentas cruciais para entender o momento atual. Ela mostra que:
- A resposta às crises não é automática - a forma como os problemas são enquadrados narrativamente é decisiva
- O poder autoritário moderno funciona diferentemente do clássico - ele se baseia na exibição de prazer e transgressão, não no distanciamento respeitoso
- A atração por esses líderes não é irracional - ela responde a mecanismos psicológicos específicos que podem ser compreendidos
- A exposição de contradições pode não ser suficiente - porque esse poder não se baseia na coerência lógica, mas na fascinação emocional
Compreender esses mecanismos é o primeiro passo para desenvolver formas mais eficazes de resistência que não caiam na armadilha de simplesmente "expor" o autoritarismo, mas que construam alternativas genuínas baseadas em outras formas de poder e organização social.

📚 Uma escritora que comprou uma livraria e que não usa telefone
Autora de obras aclamadas como "Bel Canto" (que lhe rendeu o PEN/Faulkner Award), "The Dutch House" e "Commonwealth", Patchett já foi traduzida para mais de 30 idiomas e figura regularmente nas listas de best-sellers. Além de sua carreira literária, ela é proprietária da livraria independente Parnassus Books em Nashville, Tennessee, que abriu em 2011 como uma resposta cívica ao fechamento das livrarias locais.
Conhecida por sua filosofia de vida desconectada da tecnologia moderna - não possui smartphone nem assiste televisão -, Patchett mantém uma perspectiva otimista sobre a natureza humana que permeia seus trabalhos, retratando personagens que encontram bondade e conexão mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras.
Sua abordagem à escrita é deliberada e sem pressa, publicando apenas quando considera suas obras completamente prontas, o que reflete sua crença de que a arte literária deve ser um ato de amor, não de obrigação comercial.
Existem pessoas na Terra que não usam celular 😂
A Ann entrou na sincronia dos solventes.
Tem uma parte da entrevista em que ela fala sobre o fato de estar sempre se deparando com o bem das pessoas, em sua vida cotidiana. Eu achei isso tocante. Porque na real, o mesmo acontece comigo. E acho que com muitos de nós, se formos parar para pensar com cuidado nas pessoas e nos nossos encontros diários.
Talvez devamos realmente focar mais em nossos microcosmos, ao menos reestabelecer um equilíbrio de nossa atenção e sistema emocional. Não sejamos indiferentes com o sofrimento atroz de nossos semelhantes, mas também não podemos fazer pouco da nossa própria vida e do que ela nos oferece. Também precisamos oferecer algo a ela.
Anna Patchett : o lado bom dos nossos dias
Sobre a carreira de escritora: Ann Patchett revela que sempre soube que queria escrever, mas nunca esperou ter sucesso comercial. Ela tinha uma visão modesta de si mesma e associava arte literária com falta de sucesso financeiro. Curiosamente, quando criança, não pensava em escritores como pessoas vivas, já que os autores que lia estavam mortos.
A livraria Parnassus: Patchett não planejava abrir uma livraria - isso aconteceu porque Nashville ficou sem livrarias independentes. Ela se associou a Karen Hayes inicialmente como sócia silenciosa financiadora, mas eventualmente se tornou proprietária total quando Karen se aposentou. Para ela, foi uma questão cívica: "não queria viver em uma cidade sem livraria".
Estilo literário: Patchett descreve seus romances como histórias onde "um grupo de pessoas é jogado junto e eles têm que resolver as coisas porque estão presos". Ela gosta de cenários de "ilha deserta" - pessoas em confinamento que precisam trabalhar seus relacionamentos. O foco está sempre nos relacionamentos humanos, não no cenário.
Visão otimista da humanidade: Quando questionada sobre retratar pessoas fundamentalmente boas em seus livros, Patchett explica que escreve o mundo que vê. Apesar das notícias sombrias, as pessoas com quem interage diariamente - na livraria, vizinhança, supermercado - são genuinamente gentis e decentes.
Vida sem tecnologia: Patchett não possui smartphone, não assiste TV e raramente usa internet. Ela se compara a uma "sobrevivente do apocalipse zumbi" quando vê todo mundo olhando para telas. Essa escolha vem de experiências de infância com um padrasto controlador que usava pagers para rastrear sua mãe, criando uma aversão a ser constantemente localizável.
Sucesso tardio: Seus três primeiros livros tiveram vendas modestas, mas ela estava satisfeita por conseguir sobreviver como escritora. "Bel Canto" só se tornou best-seller em edição de bolso após o 11 de setembro, quando clubes de leitura buscavam livros sobre terrorismo.
Pressão criativa: Patchett não sente pressão para produzir livros regularmente. Ela só entrega um manuscrito quando está completamente satisfeita e lembra que "o mundo continuaria muito bem" se ela parasse de escrever. Faz isso por amor à arte, não por obrigação.
A entrevista revela uma autora que encontrou sucesso mantendo-se fiel aos seus valores, priorizando conexões humanas genuínas sobre tecnologia e comercialismo.
🤖 Zumbis filosóficos: a consciência das máquinas vem aí
Michael Graziano (Princeton): psicólogo e neurocientista, que desenvolveu a "teoria do esquema de atenção", que oferece uma explicação mais mecânica para como o cérebro cria a sensação de ter consciência.
Uma discussão sob o ponto de vista materialista deste assunto que, pra mim, é o segundo mais importante deste século XXI. O primeiro é saber se a humanidade vai se autodestruir ou não. Incluso aí, a ideia de tornar a Terra um lugar tão poluído e tão extremo como habitat, que faça de Mad Max uma realidade.
Eu voltarei com outros pontos de vista sobre esta discussão, mas por enquanto, fiquemos com esta primeira camada. É inacreditável a palavra "alma" não surgir da boca destas pessoas.
Mas na academia não pode né?
Parece igreja! 😂
De qualquer forma, "ambos os especialistas concordam que a consciência artificial é possível e provavelmente inevitável. Graziano chama isso de 'a maior transformação da história da nossa espécie - maior que a linguagem escrita ou ferramentas de pedra'."
Por enquanto as IA's são zumbis filosóficos, mentes muito inteligentes que processam informações, mas que ainda não tem experiência "de si".
Pode a Inteligência Artificial se tornar consciente?
Este debate aconteceu na Universidade de Princeton em 2025, reunindo dois dos principais especialistas mundiais em consciência para discutir uma das questões mais profundas da nossa era: as máquinas podem desenvolver consciência?
O que é Consciência?
Os especialistas concordam que consciência é fundamentalmente sobre experiência subjetiva - o fato de que "existe algo que é como ser você". Por exemplo:
- Há algo que é como sentir a cor vermelha
- Há algo que é como sentir dor
- Há algo que é como estar com raiva
Esta experiência interna e pessoal é o que distingue seres conscientes (como humanos e provavelmente outros animais) de objetos como mesas ou computadores tradicionais.
Duas visões diferentes
Visão de Chalmers: O "Problema Difícil"
Chalmers argumenta que explicar comportamento inteligente é relativamente "fácil" - podemos entender como o cérebro processa informações e produz respostas. Mas explicar por que temos experiências subjetivas é o "problema difícil". Mesmo que entendamos todos os mecanismos do cérebro, por que não somos apenas "zumbis filosóficos" - seres que se comportam exatamente como humanos mas sem experiência interna?
Visão de Graziano: A Teoria do Esquema de Atenção
Graziano oferece uma explicação mais prática: o cérebro constrói modelos de si mesmo para se autorregular, incluindo um "esquema de atenção" que monitora seus próprios processos. Nossa sensação de consciência seria resultado desses modelos internos - quando introspeccionamos, acessamos esses modelos simplificados e relatamos ter experiências "mágicas" ou misteriosas.
As IAs atuais são conscientes?
Resposta curta: Provavelmente não, mas isso pode mudar em breve.
O que falta nas IAs atuais:
- Processamento recorrente: As IAs como ChatGPT são "alimentação direta" - processam uma pergunta e param. Humanos têm loops contínuos de processamento mental.
- Modelos de si mesmas: As IAs não constroem modelos internos de seus próprios processos como fazemos.
- Processamento multimodal integrado: Embora as IAs mais recentes já processem texto, imagem e áudio, ainda falta integração completa.
O futuro da IA consciente
Ambos os especialistas concordam que a consciência artificial é possível e provavelmente inevitável. Graziano chama isso de "a maior transformação da história da nossa espécie - maior que a linguagem escrita ou ferramentas de pedra".
Marcos importantes que podem indicar progresso:
- Processamento recorrente: IAs que continuam "pensando" entre perguntas
- Esquemas globais de trabalho: Áreas centrais onde informações ficam disponíveis para todo o sistema
- Modelos de si mesmas: IAs que monitorem e controlem seus próprios processos
Implicações práticas
Por que isso importa:
- Ética: Se IAs se tornarem conscientes, elas poderiam sofrer ou ter bem-estar
- Cooperação social: A consciência pode ser necessária para IAs verdadeiramente cooperativas
- Futuro da humanidade: Pode abrir possibilidades como "upload" de mentes humanas
Desafios de detecção:
Como saberemos se uma IA é realmente consciente? Os relatos verbais (como quando uma IA diz "eu sou consciente") podem não ser confiáveis porque essas máquinas são treinadas para imitar humanos.
Cronograma
Os especialistas sugerem que mudanças significativas podem acontecer em 5 anos ou menos. A velocidade do progresso em IA surpreendeu até mesmo os especialistas - modelos que processam múltiplas modalidades (texto, imagem, áudio) já são realidade.
Reflexão Final
Esta discussão não é apenas sobre tecnologia - é sobre a natureza fundamental da mente e da experiência. Se conseguirmos criar máquinas conscientes, isso revolucionará nossa compreensão de nós mesmos e nosso lugar no universo. Como disse Graziano, estamos potencialmente "cercados por mentes artificiais trilhões de vezes mais inteligentes que nós" - uma transformação sem precedentes na história humana.

🐉 A microgerência de Xi Jinping
Especialista em política chinesa, economia política e relações EUA-China, Shih é autor de importantes obras como "Coalitions of the Weak: Elite Politics in China from Mao's Stratagem to the Rise of Xi" e "Factions and Finance in China: Elite Conflict and Inflation".
Com PhD em Governo pela Harvard University (2003) , é amplamente reconhecido por suas pesquisas sobre políticas bancárias chinesas, políticas fiscais, taxas de câmbio e a política das elites chinesas.
O Xi é um dos líderes mais enigmáticos de nossa era.
A China é um grande planeta dentro do nosso planeta.
Todo mundo que vai para lá, diz que eles estão uma década à frente.
Um bilhão de pessoas. E muitas Chinas, assim como temos muitos Brasis.
Eu sou fix em ouvir os recortes sobre este planeta, como vocês já devem ter percebido 😂
A abordagem de Xi Jinping à IA, crise da dívida e política do Politburo na China
Este resumo compila insights do Prof. Victor Shih, Diretor do 21st Century China Center da UC San Diego, sobre a política de elite chinesa, o sistema econômico e a postura em relação à Inteligência Artificial (IA).
Centralização do Poder sob Xi Jinping
A China, que já foi fiscalmente descentralizada entre meados dos anos 1970 e meados dos anos 1990, passou por uma significativa centralização do poder e da tomada de decisões sob Xi Jinping.
- Centralização Fiscal: Uma mudança chave ocorreu em 1994, quando o governo central assumiu o controle da arrecadação de impostos mais lucrativos, como o Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Embora partes da receita sejam reembolsadas às províncias, a autonomia fiscal local diminuiu. "A autonomia fiscal, eu diria, tem caído desde 1994." Os governos locais, anteriormente incentivados a atrair investimento estrangeiro direto (IED) e investimento local, agora dependem muito do governo central, especialmente após a repressão ao mercado de terras em 2022.
- Microgerenciamento de Xi: Xi Jinping é retratado como um líder que microgerencia detalhes em todas as áreas políticas. Ele passa uma quantidade extraordinária de tempo em reuniões, com "Xi Jinping e seus colegas tendo reuniões sobre políticas quase todos, você sabe, tipo 270 dias do ano". Sua preferência sobre uma direção política é diretiva: "se Xi Jinping expressa uma preferência sobre uma direção política, essa é a direção para a qual você tem que ir, não importa o que aconteça, porque se ele observa que você está arrastando os pés ou que está buscando uma agenda ligeiramente diferente, você será expurgado."
- Grupos de Liderança Pequenos (Leading Small Groups): A tomada de decisões foi transferida para esses grupos, onde a autoridade de Xi é inquestionável. Ao contrário do Politburo anterior, onde havia debates, "quando a maioria das decisões foi empurrada para todos esses diferentes grupos de liderança pequenos, geralmente há uma outra pessoa que tem um posto semelhante ao de Xi Jinping... mas todos os outros seriam esses vice-premiês, ministros ou governadores provinciais que definitivamente têm um posto inferior ao de Xi Jinping e... em nenhum cenário eles debateriam uma política particular com Xi Jinping." Isso impõe um grande fardo a Xi, pois ele deve estar profundamente envolvido em inúmeras áreas políticas.
- Competência da Liderança: Embora muitos membros do Politburo tenham formação técnica impressionante (PhDs em engenharia, economia), a tomada de decisões pode ser prejudicada pela prioridade do Partido em preservar o poder e pela influência direta de Xi. "O que repetidamente leva a uma política subótima é o instinto do partido de se preservar e, de uma forma pior do que isso, de preservar seu poder." O currículo educacional chinês também exige "ideologia governamental" em vez de habilidades práticas como economia para estudantes de STEM.
- Ausência de um Sucessor: Não há planos claros para a sucessão de Xi Jinping. A transição futura é esperada para ser "mais implacável, mais bruta e potencialmente mais disruptiva", dada a falta de confiança e capital social entre os membros do Politburo, em contraste com as transições mais pacíficas da era pós-Mao.
A Abordagem "Paranoica" da China à IA e AGI
A China vê a IA como uma prioridade máxima, mas com uma forte ênfase no controle e na segurança devido ao medo de que ela possa ser usada para subverter o poder do Partido.
- Preocupação Central com o Controle: O Partido Comunista Chinês (PCC) é "muito, muito paranoico de que algum ator externo, mas até mesmo interno, vai usá-lo como uma ferramenta para usurpar o poder do partido."
- "Desenvolver os Freios": Ao contrário da abordagem ocidental, que é impulsionada principalmente pelo setor privado em busca de rápido desenvolvimento, a China enfatiza o desenvolvimento de "freios" para a IA simultaneamente com sua capacidade. Ding Xuexiang, um dos tenentes mais confiáveis de Xi e chefe do Escritório da Comissão Central de Cibersegurança, defendeu que "precisamos investir em IA, mas precisamos fazê-lo, não podemos ir com tudo investindo nela sem saber quais são os freios, temos que desenvolver os freios também ao mesmo tempo."
- Supervisão de Ding Xuexiang: Ding Xuexiang, apesar de sua formação técnica em "forjamento metalúrgico", tem a confiança de Xi para supervisionar a cibersegurança e, por extensão, a IA. Ele era o principal secretário pessoal de Xi e é visto como um dos indivíduos mais competentes no Politburo para liderar os esforços de IA.
- Controle sobre o Conteúdo: A China é extremamente cautelosa com o conteúdo gerado por IA, exigindo supervisão humana e algorítmica rigorosa para evitar "conteúdo subversivo." Empresas como Deepseek têm equipes designadas prontas para "desligar" o sistema se a IA gerar conteúdo sensível (por exemplo, relacionado a Falun Gong).
- Deepseek como Ferramenta de Informação Política: O modelo de IA Deepseek, desenvolvido por um fundo de hedge para negociação no mercado chinês, é notavelmente eficaz em detectar documentos e reuniões políticas importantes do governo chinês, superando outros LLMs em chinês. Isso sugere um treinamento focado em comunicações políticas, o que é valioso para prever movimentos governamentais.
A Crise da dívida do Governo Local e suas implicações
A dívida do governo local na China é um problema crescente e sistêmico que afeta a alocação de recursos e a qualidade de vida.
- Magnitude da Dívida: A dívida total do governo (incluindo a dívida do governo local e central) está "empurrando 200%" do PIB. Estima-se que a dívida do governo local seja de 120% a 140% do PIB.
- Propósito da Dívida: Essa dívida foi acumulada principalmente para financiar projetos de infraestrutura massivos (ferrovias de alta velocidade, aeroportos) e, mais recentemente, políticas industriais, como parques científicos e fundos de capital semente para startups de tecnologia, especialmente em setores como semicondutores e IA.
- Repressão Financeira: O sistema bancário estatal, que é "totalmente controlado pelo estado", permite que o governo direcione grandes quantidades de capital para setores estratégicos, mesmo que não sejam lucrativos. As taxas de depósito baixíssimas (cerca de 1%) efetivamente atuam como um "imposto sobre os poupadores", direcionando os fundos para investimentos estatais. "Para o socialismo, eles só se preocupam com a produção... o estado pode usar o sistema bancário estatal... para alocar uma enorme quantidade de capital para maximizar a produção de todas essas coisas diferentes que lhes interessam, mas quando você maximiza a produção, você não necessariamente ganha dinheiro fazendo isso."
- Ineficiência e Corrupção: Embora existam histórias de sucesso impulsionadas pelo estado (como Huawei), há "bilhões e bilhões de dólares simplesmente jogados em um buraco" devido a projetos fracassados e corrupção. A seleção de projetos é frequentemente baseada em aprovações burocráticas, que são suscetíveis à corrupção e não necessariamente a considerações de lucro.
- Impacto na Qualidade de Vida: Apesar do forte crescimento do PIB, a repressão financeira e outras políticas resultam em serviços sociais inadequados para a maioria da população, incluindo moradia, saúde e assistência a idosos. Muitos trabalhadores migrantes mal conseguem sobreviver, e o funcionalismo público local sofre com salários atrasados.
- Crescimento Impulsionado pela Oferta vs. Consumo: A China continua focada em mais investimentos e crescimento impulsionado pela oferta, em vez de estimular o consumo doméstico. A capacidade de "rebalancear" a economia em direção ao consumo é limitada devido à alta dívida e à relutância em implementar políticas de bem-estar social amplas que beneficiariam a maioria dos cidadãos.
- Impacto da IA na Dívida: Embora a dívida seja um problema sério, províncias mais ricas como Xangai e Guangdong estão em uma posição fiscal melhor e o governo central priorizará o financiamento de IA e tecnologia, independentemente da situação da dívida local, devido à sua importância para os objetivos de Xi Jinping.
Relações EUA-China e perspectivas de crescimento
A China prioriza a competição com os EUA e busca a dominação da cadeia de suprimentos, o que molda suas políticas econômicas e tecnológicas.
- Prioridade de Competição: Xi Jinping "se importa muito com isso [tecnologia], mas apenas da perspectiva de que a competição com os Estados Unidos é um objetivo muito importante do Partido Comunista Chinês, é para ele pessoalmente um objetivo muito importante, então ele quer vencer."
- Previsão de Crescimento Econômico: A previsão do Prof. Shih para o tamanho da economia chinesa em 2040 é "similar ao dos EUA, talvez ligeiramente maior" em termos de renda real (não PPP), o que é "uma previsão bastante pessimista", considerando as expectativas comuns de dominância chinesa. Isso se deve à desaceleração das taxas de crescimento, à pressão comercial e à falta de um grande estímulo ao consumo.
- Taiwan e o Risco de Invasão: Xi Jinping deseja a unificação com Taiwan, mas não a ponto de "correr um risco muito grande." Ele é visto como um formulador de políticas conservador, não imprudente. A guerra na Ucrânia provavelmente "aumentou o limiar" para uma ação contra Taiwan, mostrando os riscos de inteligência falha e forte resistência.
- Fluxo de Informações para a Liderança: A liderança superior da China ouve os especialistas, mas as informações podem ser manipuladas por grupos de interesse, e as decisões políticas podem ignorar as recomendações dos especialistas por razões políticas. A política de "zero-COVID", por exemplo, ignorou a superioridade das vacinas de mRNA ocidentais em favor da indústria farmacêutica doméstica.
Em resumo, a China sob Xi Jinping é caracterizada por uma centralização de poder sem precedentes, microgerenciamento e uma abordagem "paranoica" ao desenvolvimento de IA, com um forte foco no controle para proteger o poder do Partido. A crescente dívida do governo local e a repressão financeira têm um impacto significativo na economia e na qualidade de vida, embora a liderança continue a direcionar recursos substanciais para prioridades estratégicas como a IA, impulsionada por uma intensa competição com os EUA. A dinâmica política interna e a ausência de um plano de sucessão tornam o futuro da liderança chinesa potencialmente "mais implacável, mais brutal e potencialmente mais disruptivo."
🕊️ Aprender a morrer
Simplesmente, assistam.
Uma obra em homenagem à amizade entre duas mulheres.
Um dos amores mais profundos.
Uma aula sobre a morte.
O que a enfermeira dos cuidados paliativos ensina sobre a sabedoria do corpo na etapa final, no último capítulo, deveria ser ensinado a todos nós, e repetido sempre, desde que somos crianças.
Os resumos foram feitos por IA para facilitar para quem não tem tempo ou saco de ler/ver. Eu li e vi todos os conteúdos, assim como chequei os resumos. Já as traduções feitas pelo DeepL podem ter questões. Relevem, por favor.
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