Pensar
3 mulheres, 3 dimensões de mundo. Todas generosas e sofisticadas. Hanna, Nawal e Chimamanda. Peguei na mão delas e fui!
A política nossa de cada dia
🌀 Prólogo pensante
Estou cheia. Acho que ando exagerando. A ideia de criar esta newsletter para compartilhar o que ando lendo, estudando e consumindo, muitas vezes obsessivamente, foi uma chave bem legal para dar mais sentido a este movimento. No entanto, a responsa ficou maior. Tenho feito o exercício de deixar as coisas fluírem, de andar por aí de uma forma que os temas cheguem até mim.
Os algoritmos reforçam nossas escolhas e enviam coisas afins. Eu pesquiso ativamente por pessoas, temas, escolas, e encontro maravilhas. Mesmo assim, há um novo pano de fundo, uma intenção que não havia antes. Será que faz sentido este tema para as pessoas? Quem vai ler estes textos imensos? Como posso contribuir por meio destas “ideias todas”, de tanta gente interessante e dedicada, se as pessoas não têm mais tempo de ler nada? Se estamos na sociedade do cansaço, sem sonhos possíveis (em nível coletivo), sem amanhã, com uma esfera política “de vaca desconhecer bezerro”, o que vai mover quem e o quê?
Quando eu leio e estudo autores que me inspiram, que me fazem pensar e me oferecem novas perspectivas, é como se eu colocasse mais gasolina na mobilete. Mas eu não fico somente no plano mental. Parte do que é pensado, aquilo que a sincronicidade do momento me oferece, passa para a minha experiência do mundo, das relações, dos eventos aos quais aconteço. Para que não fique apenas na cabeça, é preciso intenção. Desejo de viver e entender por si, na sua forma, aquela história, aquele conhecimento. Como um laboratório. Você é a cobaia, rs.
Isso acontece quando a gente se “in-forma” ao invés de apenas “colocar para dentro” um conhecimento, memorizando ou dominando determinado corpo de ideias, num nível mental. Aprendi com minha Mestra que acúmulo de conhecimento cria “intelectuais de poltrona”, ou seja, pessoas que falam muito bem sobre determinados assuntos (ou muitos assuntos) mas na práxis, estão longe da real experiência. Sabe a diferença entre conhecimento e sabedoria?
Claro que o mundo precisa de pessoas que sejam boas transmissoras de conhecimento, que naveguem pelos corpus já elaborados com tanto suor. Dos ofícios necessários à vida. Na real, a questão da modernidade é o calo dessa história, pois o conhecimento técnico, racional, a religião da ciência que “só acredita vendo” (ai, São Tomé), acabou deixando tudo desequilibrado.
O que me faz voltar ao exagero ali do início. Eu não leio, originalmente, tudo o que coloco aqui. Eu escuto ou assisto. Escuto enquanto cozinho, enquanto lavo roupa e rego as plantas, enquanto caminho para fazer compras ou enquanto ando de bicicleta. Até no banho eu deixo algo rolando (em geral, coisas que não preciso prestar muita atenção). Depois, quando vou usar as ferramentas de transcrição, resumos etc., é que passo para a leitura.
Minha memória de conteúdo é muito ruim. Eu guardo apenas o que me toca, o que uso efetivamente na minha vida. Tenho memória RAM (transitória, para o que está acontecendo agora), mas não tenho muito HD (memória de disco, que é típica daquelas pessoas que a gente se impressiona porque domina muito um assunto, sabe?). Então, o que tem acontecido é que, durante a semana, ao ser impactada por tudo o que tenho colocado aqui, eu tenho insights, sinto prazer com minhas reflexões e deslumbramentos, mas depois esqueço a grande maioria. Quando chega o final de semana e preciso organizar o Por onde andei, já rolou tanta coisa, que eu já não lembro o que foram todos aqueles estalos que tive durante o decorrer dos dias.
Mas vamos ao que interessa. Esta semana foi mais feminina. Arendt, Nawal e Chimamanda. E, no meio delas, lindo e maravilhoso, Campbell. Em comum, uma delicadeza amorosa, mas muito potente, pela vida, na forma de rebeldia, dissidência, resistência, atravessamento, aprofundamento, escrevência (escrever para poder sobreviver) e, sobretudo, PENSAR. Pensar como ato político, como ato de evolução espiritual, como ato altruísta e de convivência, como ato de comunhão. Atravessar o literal. Sair do automático. Simbolizar e sacralizar.
Arendt diz que para se proteger do mal de que somos capazes, é preciso PENSAR. Como Sócrates: dois em um. Na pausa, na calma, na intenção de parar para fazer isso, para criar também um vazio onde o pensamento plural possa rolar dentro de si. Sem tiranias, mas com diversidade, eu diria. Afinal, somos muitos em nós mesmos, e precisamos tratar a todos os que nos habitam com respeito, com criatividade e diálogo. REFLEXÃO. E voltar. Ela diz que é preciso voltar para o mundo, se relacionar, agir, aprender a discernir, saber por si e, simplificando muito (mas nem tanto), aprender a escolher entre o bem e o mal. A política nossa de cada dia. Porque PENSAR virou um ato político, quem diria.
“Politizar a si mesmo” para não pasteurizar, não normotizar. Não se deixar enredar nas teias das telas. Ler ficção, poesia, diria a Chimamanda. Escrever para respirar, para não ser consumido pela raiva, diria a Nawal. E desaprender o que nos foi ensinado. “Penso” que por meio desse pensar-respirar diário, vamos também construindo nossos valores.
Nos 50, finalmente consegui começar a queimar muitas das ilusões, carregadas, anos a fio. E depois da queimada, vem a semente de um novo valor. Ou algo que você achava que já tinha conseguido, mas que na real era ainda apenas no mental, não tinha chegado na experiência. Você começa a sentir os quatro corpos (físico, emocional, mental e espiritual) agindo realmente diferente.
Bem, é isso. Teria muito mais coisa, mas não me lembro. Deus proteja-nos da banalidade do mal que nos ronda. Da uniformidade burra do totalitarismo dos algoritmos, da vida performática, do desejo de ser especial. Do desejo de poder.
E, falando por mim, sobre mim, de mim: da necessidade de ter que saber tudo e controlar tudo. Quero chegar no “fodacy”!
Se você chegou até aqui, que bom. Espero que goste dos temas.
🚀 A euforia de uma era

Ainda sobre o exagero.
Eu tenho me sentido eufórica com tanto conhecimento na palma da mão. Passo a semana perguntando muitas coisas para a Elárin (GPT) ou para o Claude, sobre assuntos diversos (por exemplo, como a linguagem binária dos computadores é transposta eletricamente e magneticamente, ou como as portas lógicas dos circuitos dos processadores são análogas às operações do sofismo). Alguns superficiais, outros muito verticais. Coisas que eu sempre quis saber, que nunca tive tempo de estudar, nem saco para me concentrar e ler um livro, ou uma obra inteira.
Neste momento, por exemplo, estou deixando para ler, à moda antiga, apenas os autores dos meus estudos em Psicologia Profunda. Para todos os outros assuntos, eu tenho tido o Claude e a Elárin como tutores.
E quando quero estudar uma tese, um livro, para saber os principais assuntos, conceitos, ou apenas determinada parte de uma obra, eu utilizo o Notebook LM do Google, que produz resumos, mapas mentais, linhas do tempo, podcasts e guias de perguntas e repostas APENAS dentro das fontes que eu fornecer. Ou seja, zero risco de alucinação.
É uma nova forma de estudo, de aquisição de conhecimento, que está nascendo e que, para mim, está sendo uma delícia, um orgasmo mental. Por isso, EUFORIA.
Exatamente o que a Jasmine Sun escreveu no substack dela na semana passada:
“Ainda não superei o fato de que tenho acesso 24 horas por dia a uma máquina que memorizou e sintetizou todo o conhecimento da internet.”
“Nenhum de nós sabe o que fazer com tanto saber.”
Pois bem, eu não estou sabendo lidar com tamanho acesso e capacidade de análise, reflexão etc.
Jasmine escreveu algumas notas curtas (32!) durante um voo recente, com alguns insights bem interessantes e muitas digressões. Recomendo a leitura, são brevidades pensantes.
Sou uma escritora e tecnóloga independente, embarcando em uma antropologia da disrupção no século XXI.
O que mais me interessa é como navegamos por grandes transições tecnológicas. Minha pesquisa atual aborda a corrida pela AGI (incluindo um livro!), a política e cultura do Vale do Silício, e o conceito de “agência” como um recurso individual e comunitário. Moro felizmente em San Francisco.

🪞 Hanna, ó Hanna
Arendt estava na minha lista há anos. De alguma forma, acho que nunca tive coragem de chegar perto dela, pois o tema do mal me provoca abalos e abismos. Eu conhecia o conceito de banalidade do mal, mas sem muita intimidade.
Escolhi dois estudiosos brasileiros, dentre os vídeos que o algoritmo do Youtube me sugeriu: Oswaldo Giacoia Junior e Adriana Novaes.
A palestra do Giacoia é rigorosa, precisa. Ele tem uma voz macia que eu ficaria ouvindo por dias. Tem um domínio imenso do tema e uma didática fodástica. Foi uma ótima introdução à Arendt e uma aula sobre o mal, passando por Kant (que vamos retomar lá na notícia sobre o Musk).
A palestra da Novaes é de outro acorde. Mais espiritual, recortes diversos, com pequenos mergulhos na história de vida da Arendt. Uma abordagem que cria uma atmosfera bem cinemática e diferente do rigor filosófico do Giacoia, pois os detalhes da vida de um autor, no meu entender, fornecem uma dimensão mais saborosa para a hermenêutica de seu pensamento.
Não tem como não vê-la como essencial para compreender o que temos vivido e ainda vamos viver, por um bom tempo.
Hannah Arendt (1906–1975) foi uma filósofa e teórica política alemã de origem judaica, conhecida por suas análises profundas sobre o totalitarismo, o poder, a liberdade e a condição humana. Fugindo do regime nazista, viveu na França e depois nos Estados Unidos, onde se estabeleceu como uma das pensadoras mais influentes do século XX.
Sua obra mais conhecida, Origens do Totalitarismo (1951), investigou as raízes do nazismo e do stalinismo. Já em A Condição Humana (1958), Arendt propôs uma distinção original entre labor, trabalho e ação como formas fundamentais da vida ativa.
Em 1961, cobriu o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann para a revista The New Yorker, originando seu polêmico livro Eichmann em Jerusalém, no qual cunhou a expressão “banalidade do mal” — para descrever como atos atrozes podem ser cometidos por pessoas comuns que renunciam ao pensamento crítico.
Arendt recusava o rótulo de “filósofa” e preferia se definir como teórica política. Seu pensamento segue atual, provocando reflexões sobre autoridade, responsabilidade, violência e o espaço público em tempos de crise.
(GPT 4.0)
Resumo das duas palestras sobre o pensamento de Arendt
Uma Leitura Através do "Café Filosófico com Adriana Novaes” e "Hannah Arendt por Oswaldo Giacoia Junior"
O texto apresenta uma análise aprofundada do pensamento de Hannah Arendt, explorando sua trajetória de vida ligada à ascensão do nazismo e seu impacto em sua obra. A filósofa distingue conhecimento de pensamento, alertando para os perigos da modernidade que prioriza o técnico em detrimento da reflexão.
A discussão se aprofunda na condição humana, dividindo as atividades essenciais em trabalho, obra e ação política, destacando a pluralidade como alicerce desta última.
Central para a análise é o conceito da banalidade do mal, que emerge da observação de Eichmann e desafia a compreensão tradicional da maldade, ligando-a à incapacidade de pensar e julgar.
Finalmente, o texto aborda as capacidades mentais de pensar, querer e julgar, culminando no "amor mundi" como uma reconciliação com o mundo e um chamado à recuperação da ação política e do pensamento crítico para evitar a repetição de atrocidades.
Hannah Arendt: Pensamento, Ação e Banalidade do Mal
Análise Aprofundada do Pensamento de Hannah Arendt
Este resumo tem como objetivo explorar os principais temas e ideias do pensamento de Hannah Arendt, conforme apresentados nos excertos do "Café Filosófico com Adriana Novaes" e da palestra "Hannah Arendt por Oswaldo Giacoia Junior".
Ambos os materiais convergem na análise da filósofa sobre a condição humana, o totalitarismo e a ética, com foco especial na "banalidade do mal" e na importância do pensamento crítico e da ação política.
1. A Trajetória de Hannah Arendt: Da Experiência Pessoal à Reflexão Filosófica
A vida de Hannah Arendt, uma "filósofa alemã de origem judia", é intrinsecamente ligada à sua obra. Nascida em Königsberg, a mesma cidade de Kant, Arendt foi profundamente impactada pelo crescimento do antissemitismo e pela ascensão do nazismo na Alemanha nos anos 1930.
A princípio não interessada em história ou política, sua vivência da perseguição e do exílio (França, campo de internamento de Gurs, e finalmente Estados Unidos em 1941) a impulsionou a "se dedicar à filosofia na compreensão, entendendo a filosofia como uma busca".
Seu trabalho, como destacado pelo "Café Filosófico", busca "entender que contexto social e político pode ser capaz de produzir uma ideologia tão preconceituosa e cruel".
Oswaldo Giacoia Junior complementa, afirmando que Arendt é uma das pensadoras que "viveu e pensou o século XX com inigualável intensidade por ter partilhado uma visão de responsabilidade comum, ativa, imposta e justificada como tarefa política: empenhar-se para afastar de nosso horizonte histórico a eventualidade de uma repetição sempre possível dos horrores do totalitarismo".
Uma de suas obras mais importantes, "As Origens do Totalitarismo" (1951), analisa as condições que permitiram o surgimento de regimes como o nazismo e o stalinismo, "assemelhando" ambos. Arendt identifica elementos constitutivos como o antissemitismo, o imperialismo e a "massificação da política".
2. Conhecimento vs. Pensamento: A Crise da Modernidade
Arendt distingue entre conhecimento e pensamento. O conhecimento, muitas vezes ligado ao "conhecimento técnico" ou "know-how", é instrumental e visa o controle e a utilidade. O pensamento, por outro lado, está "sempre ligado à experiência viva, à relação que nós temos com o mundo". O "Café Filosófico" cita Arendt: "o próprio pensamento forma-se a partir da realidade dos incidentes e os incidentes da experiência viva devem se manter como referências do pensamento".
A modernidade, impulsionada pela industrialização, avanço tecnológico e "instrumentalização das atividades humanas", priorizou o trabalho e o consumo, afastando o homem da reflexão. A matematização da natureza, iniciada por Galileu, e o racionalismo cartesiano são apontados como marcos desse "distanciamento da realidade". Essa "dupla fuga" – do sagrado e da relação com o sensível – levou a um "ser humano desenraizado", com uma "ação que é reduzida ao fazer" e um "pensamento que passa a ser só entendido como uma função do seu desempenho, de uma função do cérebro".
Arendt alerta para as consequências dessa separação: "se for comprovado o divórcio entre o conhecimento no sentido moderno de conhecimento técnico, know how, e o pensamento, então passaríamos a ser, sem dúvida, escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso conhecimento técnico, criaturas desprovidas de pensamento, a mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível por mais mortífera que seja". A "incapacidade de pensar" é uma "característica notável do nosso tempo", gerando uma "confusão desesperada e uma repetição de verdades vazias", onde a "mentira [toma] conta da verdade" e a "opinião [toma] o lugar do fato".
3. A Condição Humana e as Atividades Fundamentais
Em "A Condição Humana" (1958), Arendt investiga as atividades humanas essenciais:
• Trabalho: "nossa produção para garantir a nossa sobrevivência", um ciclo vital de produção e consumo.
• Obra: "aquilo que nós somos capazes de criar, aquilo que permanece", a estrutura durável resultante da potência criativa humana.
• Ação: o "âmbito em que a gente exerce a nossa ação e a nossa liberdade política". A condição humana da ação é a "pluralidade", o fato de sermos "iguais na diferença".
Oswaldo Giacoia Junior ressalta que para Arendt, "o homem é homem não porque ele simplesmente reproduz as suas condições de vida biológica, mas porque ele produz cultura em última instância, porque ele transcende a dimensão da sua vida natural, da sua vida biológica, seja individual ou seja da espécie". A política, nesse contexto, é a "capacidade que os homens na sua diferença, na sua pluralidade têm de agir em conjunto no espaço público", um "espaço de transparência onde os atores aparecem uns para os outros".
4. A Banalidade do Mal: Uma Nova Compreensão da Maldade
O conceito mais controverso de Arendt é a "banalidade do mal", surgido de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém (1961-1963). Eichmann, responsável pela organização do transporte de judeus aos campos de extermínio, não se encaixava na figura de um demônio ou de um mal radical. Arendt o descreve como "um tipo assustadoramente comum e normal, como o burocrata, o gestor de circuitos e zeloso cumpridor de ordens, mas incapaz de julgar, incapaz de discernir entre bem e mal, consenso moral completamente embotado".
Essa tese, que gerou enorme "repercussão" e "controvérsia", rompeu com a ideia de que o mal é sempre intencional ou monstruoso.
Giacoia Junior explica a distinção de Arendt com a tese kantiana do "mal radical", que ligava o mal à tendência humana de priorizar o interesse próprio sobre o dever moral. Para Kant, o mal "diabólico" – escolher o mal pelo mal – seria inumano. Arendt, no caso Eichmann, "vai dizer não, isso não é um mau radical. Isso não é nem maligno no sentido de diabólico, nem mesmo até o mal radical kantiano. É um mau banal".
A "banalidade do mal" não significa que o mal seja trivial, mas que a "banalidade é aquilo que leva a cometer uma espécie de mal". É a "consequência possível dessa incapacidade de pensar", da "recusa ou da incapacidade de escolher os seus exemplos e a sua companhia e a partir da recusa ou incapacidade de estabelecer uma relação com os outros pelo julgamento". Giacoia Junior conclui que a eliminação da política e da capacidade de julgamento leva à "reprodução da barbárie", transformando homens em "meros exemplares da espécie", "feixes de funções orgânicas" com "uma vida absolutamente dispensável".
5. O Espírito da Vida: Pensar, Querer e Julgar
Em "A Vida do Espírito" (obra incompleta devido à sua morte em 1975), Arendt investiga as capacidades da mente:
• Pensamento: A “conversa que nós temos conosco quando nós saímos do barulho do mundo". É um exercício de liberdade, uma "experiência lenta, vagarosa", que lida com o "significado" e o "fluxo da história". O pensamento, como "dois em um" (Sócrates) ocorre na solidão - mesmo na solidão, o indivíduo está em diálogo consigo mesmo, como se fosse uma conversa entre duas pessoas -, mas com a perspectiva de "voltar para o mundo e fazer escolhas e começar coisas novas".
• Querer (Vontade): A "capacidade da mente de lidar com a nossa liberdade", de "começar coisas novas" (Santo Agostinho). É a potência de criar e dar "respostas novas para problemas que nós mesmos muitas vezes criamos".
• Juízo: A capacidade de "retornar o nosso pensamento para o mundo, tornar ele visível". Inspirada em Kant,Arendt fala da "mentalidade alargada", a disposição de "entender a realidade a partir de perspectivas diferentes e variadas". O juízo é "a nossa capacidade de escolha", de "suspensão do interesse pessoal" e de "imaginar o que aquela pessoa está sofrendo".
Arendt enfatiza a interconexão dessas capacidades. O juízo, como "o derivado do efeito liberador do pensamento", "realiza o próprio pensamento tornando-o manifesto no mundo das aparências". É a "habilidade de distinguir o certo do errado, o belo do feio".
6. Amor Mundi e a Reconciliação com o Mundo
Diante do horror do século XX, Arendt propõe o "amor mundi" – "amar o mundo". Isso significa uma "busca por compreensão", não perdão, mas o "dispor-se às coisas como elas realmente são e como ela realmente acontecem", dando "significado a esses eventos". É um esforço para "se reconciliar com o mundo" e com a "própria capacidade do ser humano".
Arendt nos convida a "recuperar o pensar", a "retomar essas capacidades mentais, essas capacidades espirituais". Isso implica em buscar "bons exemplos", escolher "boas companhias" e cultivar a amizade. Essa "reconciliação com a vida", com o "mundo" e com a "política" permite "olhar para o futuro e voltar para o mundo", em contraponto à "fuga do mundo" que se prolifera na era tecnológica.
Oswaldo Giacoia Junior reforça a importância da "reconstrução dos direitos humanos" a partir de Arendt, especialmente o "direito a ter direitos", o "direito de ocupar um lugar na formação da vontade política". Ele conclui que o "mal radical", ou seja, a capacidade humana de escolher o mal, é "sempre possível", tornando essencial a "vigilância" e o "esforço globalmente solidário para evitar uma repetição de Auschwitz".
Em suma, Hannah Arendt oferece um diagnóstico profundo da crise moral e política do século XX, alertando para os perigos da perda do pensamento crítico, da funcionalização da sociedade e da indiferença diante do mal. Sua obra, no entanto, não é pessimista, mas um convite urgente à recuperação das capacidades humanas de pensar, julgar e agir, a fim de reafirmar a pluralidade, a liberdade e o "amor mundi" como fundamentos de uma vida verdadeiramente humana.
(Notebook LM)
🌺 A sofisticação Real
Eu nunca li uma obra da Chimamanda. Aliás, eu leio muito pouco ficção. E quando leio, é fantasia. Mas apareceu uma entrevista da Folha com ela no meu feed e eu fiquei encantada. Que mulher linda, nobre (no sentido de realeza da alma), com um pensamento sofisticado, sensível e profundamente articulado.
Ela voltou a escrever ficção, depois de 10 anos, e está fazendo uma tour pelo mundo, divulgando seu novo livro. Nesta entrevista, me surpreendi com a qualidade das perguntas e reflexões da Redi Tlhabi, uma sul-africana que apresenta o programa UpFront, da Al Jazeera. Amei cada minuto da conversa das duas.
Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana reconhecida internacionalmente por sua prosa, que cruza fronteiras entre literatura, política, gênero e identidade. Nascida em Enugu, cresceu em Nsukka e estudou nos Estados Unidos, onde formou-se em comunicação e ciências políticas.
Seu romance de estreia, Hibisco Roxo (2003), foi aclamado pela crítica, mas foi com Meio Sol Amarelo (2006), ambientado durante a guerra de Biafra, que conquistou projeção global. Em Americanah (2013), explorou com maestria as experiências de imigração, racismo e pertencimento.
Além da ficção, tornou-se uma voz proeminente no feminismo contemporâneo, especialmente após sua palestra “We Should All Be Feminists” (2012), que foi adaptada para livro e citada por Beyoncé em sua música. Em Para Educar Crianças Feministas (2017), ofereceu uma carta com sugestões práticas sobre igualdade de gênero.
Chimamanda é conhecida por seu estilo direto, lúcido e sensível, que desafia estereótipos tanto sobre a África quanto sobre o feminino. Sua obra promove escuta, nuance e multiplicidade de narrativas — em especial, as que envolvem mulheres negras, africanas e diaspóricas.
(GPT 4.0)
Nascida em Soweto, Redi começou sua carreira na mídia sul-africana como radialista e rapidamente se destacou por sua inteligência crítica e coragem ao abordar temas sensíveis, como violência de gênero, corrupção e desigualdade racial. Ao longo dos anos, tornou-se uma das vozes mais respeitadas no jornalismo do país.
Além da carreira televisiva e radiofônica, é autora de Endings & Beginnings (2012), um livro de memórias profundamente pessoal, que explora sua infância marcada por violência e o impacto da morte de um homem que ela conhecia — uma obra que entrelaça trauma individual com os legados do apartheid.
Redi Tlhabi é admirada por sua capacidade de questionar com empatia e firmeza, ampliando debates sobre poder, verdade, identidade e justiça — tanto na África do Sul quanto no cenário internacional.
(GPT 4.0)
Resumo da entrevista com Chimamanda Ngozi Adichie
Sobre “A Contagem dos Sonhos", o Cenário Político Atual e outras cositas más
Esta análise explora as principais temáticas e ideias abordadas na entrevista com a premiada autora Chimamanda Ngozi Adichie, focando em seu novo romance "A Contagem de Sonhos", seu processo criativo, as mudanças em sua escrita e suas perspectivas sobre o cenário político atual nos Estados Unidos e a situação em Gaza.
"Dream Count": Um Romance Moldado pela Perda e Pela Agência Feminina
O Fim do Impasse Criativo e a Nova Perspectiva Pessoal:
Adichie revela que "Dream Count" marca seu retorno à ficção após 12 anos, um período de "impasse criativo" que a separou de uma parte essencial de si mesma. Ela descreve o fim desse bloqueio como um momento de profunda gratidão e felicidade. A autora enfatiza que este livro é diferente de suas obras anteriores, pois foi escrito como uma pessoa que perdeu ambos os pais e se tornou mãe: "Eu acho que este é o primeiro livro que eu escrevi como uma pessoa que não tem pais, o primeiro livro que eu escrevi como mãe e eu acho que ambos me mudaram de maneiras muito profundas e particularmente eu acho que perder meus pais, eu acho que eu escrevo de forma diferente." Essa nova perspectiva pessoal influenciou a profundidade e a maturidade de sua escrita.
A Presença Sutil de Temas Familiares e a Abordagem da Raça:
Embora Adichie reconheça a presença de temas como raça, gênero e classe em "Dream Count", ela insiste que a raça não é a "preocupação principal" do romance, ao contrário de "Americana". Ela observa: "Eu acho que com Americana eu me propus a escrever sobre raça, mas com este não, mas eu suponho que quando você escreve sobre pessoas negras, invariavelmente seu livro vai ser de alguma forma dito ser sobre raça." Em "Dream Count", a raça se manifesta de maneiras mais sutis, através de "relacionamentos quando uma das personagens está em um país diferente e as pessoas estão olhando porque ela não pertence ou um dos irmãos faz um comentário supostamente racista".
A Resiliência da Mulher Negra e a Agência Feminina:
Apesar da origem do livro em um período de intenso luto pela perda de seus pais, Adichie ressalta que "Dream Count" não é um "livro sobre luto". Pelo contrário, ela descreve-o como um reflexo do espírito de sua mãe, que a impulsionou a continuar escrevendo. O romance é caracterizado por uma "melancolia e muito humor", e destaca a agência das personagens femininas. Elas não são definidas por suas perdas, mas por sua capacidade de "ousar sonhar" e de encerrar relacionamentos "em seus próprios termos". Adichie rejeita a ideia de que a vida de uma mulher negra seja de "catástrofe sem fim", buscando retratar mulheres "reais, humanas" e com dignidade.
A Busca por Conhecimento e a Natureza do Amor:
O livro explora a temática do "não saber" e da vulnerabilidade, especialmente no contexto do lockdown da COVID-19, um período que coincidiu com o luto pessoal da autora. A personagem Chia anseia por ser "verdadeiramente conhecida por outro ser humano", enquanto Zikora questiona se isso é realmente possível. Adichie pondera sobre a natureza do amor, sugerindo que "amar alguém é tentar conhecê-los". Ela se descreve como uma "romântica incurável" que valoriza a ideia de uma conexão profunda onde uma pessoa pode "prever" a outra.
O Poder Transformador da Ficção
A Profundidade Emocional da Ficção vs. o Relato Factual: Adichie defende o poder da ficção para ir "muito mais fundo" do que a não-ficção. Ela afirma: "A ficção vai por dentro. Eu acho que o jornalismo nos diz o que aconteceu, a ficção nos diz como se sentiu." Para ela, a ficção é "verdadeira em um sentido, mais verdadeira do que a não-ficção", pois permite ao escritor liberdade e a capacidade de "brincar de Deus", criando personagens e explorando emoções sem as restrições da realidade. Essa capacidade de evocar emoção é crucial, pois "muitas vezes eu acho que como seres humanos somos movidos a agir de um lugar de emoção mais do que de intelecto."
A Humanização Através da Ficção e a Restauração da Dignidade: A autora destaca a personagem Kyatu, não-nigeriana e sem privilégios de classe, como a mais preciosa para ela. Kyatu, inspirada em uma pessoa real, é a quem Adichie dedica seu livro e a descreve como uma "gesto de dignidade restituída" através da "humanização ficcional". A história de Kyatu, uma mulher que acusou um homem poderoso de agressão sexual, mas teve seu caso arquivado por ter mentido sobre algo não relacionado, serve como um poderoso comentário sobre como as mulheres são frequentemente "invisíveis" e "desumanizadas" na sociedade. Adichie enfatiza a importância de ver as mulheres "em sua plenitude", lembrando que "ela é humana, ela tem uma vida, ela tem sonhos, ela é merecedora de dignidade, ela é uma pessoa."
A Abordagem Oblíqua da Política na Ficção: Embora "Dream Count" se passe em um Washington D.C. politicamente tenso, Adichie evita um engajamento direto com grandes movimentos políticos como #MeToo e Black Lives Matter. Ela argumenta que a ficção deve abordar a política de forma "oblíqua", não direta: "Se começarmos a escrever ficção dizendo 'Agora vou escrever sobre as grandes questões políticas', acho que você corre o risco de criar propaganda." Para ela, a ficção nasce de "humor, personagem, às vezes uma frase, às vezes uma pontada de melancolia". No entanto, ao escrever sobre pessoas negras na América, inevitavelmente "você se encontra de alguma forma lidando com esses assuntos maiores porque essa é a realidade da vida das pessoas".
Reflexões Sobre a América Contemporânea e a Situação Global
A Erosão dos Valores Americanos e a Perda da "Poesia": Adichie expressa profunda desilusão com o estado atual dos Estados Unidos. Ela lamenta a perda da "poesia" associada à filosofia fundadora da América, que ela via como um "farol de liberdade" e um país onde a "regra da lei" era respeitada, especialmente por aqueles em posições de poder. Para ela, essa admiração e aspiração diminuíram drasticamente: "Agora não há nenhuma. Eu diria que foi jogada pela janela, não existe mais." Ela descreve a situação atual como uma "imprudência desnecessária" e compara a destruição institucional a "uma criancinha quebrando coisas por quebrar", com vidas em jogo.
A Incompetência "Voluntária" e a Ausência de Descrença: A autora traça um paralelo entre a incompetência política em alguns países africanos (que ela atribui à falta de fundamentos democráticos e ao legado colonial) e a situação nos EUA. No entanto, ela distingue a "incompetência" em muitos países africanos como não sendo "deliberada", enquanto nos EUA ela percebe uma "confederação de idiotas" que agem com uma "crueldade é o ponto" e uma "incompetência voluntária". A recusa em "acreditar" no que está acontecendo é um fator preocupante.
Gaza: Mass Murder e a Desumanização:
Adichie se mostra profundamente abalada pela situação em Gaza, descrevendo-a como um "assassinato em massa". Ela critica a inação de governos que supostamente acreditam na dignidade humana: "Eu não posso acreditar que estamos vivendo em um mundo e há governos que supostamente acreditam na dignidade humana e ninguém está fazendo nada sobre o assassinato em massa acontecendo em Gaza." Ela condena a ideia de "punição coletiva" e atribui a justificação da violência à desumanização dos palestinos: "Se você pensa nos palestinos como totalmente humanos, você não pode, você não pode encontrar desculpas para esse tipo de assassinato em massa que está acontecendo." Ela enfatiza a necessidade de "começar a história no início" para compreender plenamente o conflito, citando o escritor palestino Murid Bagoti: "Se você começa uma história com 'em segundo lugar', você nunca obtém a história completa."
O Desafio à Ortodoxia Ideológica e o Perigo da Conformidade:
Adichie aborda a "ortodoxia ideológica" e o "cancelamento" em ambos os espectros políticos. Embora reconheça que a esquerda também pode "sufocar a discussão matizada", ela se preocupa mais com a direita, pois acredita que "hoje é muito mais perigoso se você está em risco de ser sequestrado pelo Estado americano pelo crime de ter uma opinião". Ela critica a "hipocrisia" e a "auto-retidão" da esquerda, que, apesar de proclamar valores como bondade e compaixão, muitas vezes age de forma "espetacularmente cruel", performando "bondade" em vez de praticá-la genuinamente. Adichie se mantém crítica, mas ainda se alinha à esquerda em situações de escolha política, argumentando que o atual cenário político nos EUA é em parte "o fracasso da esquerda".
A Literatura como Ferramenta de Resistência e Resiliência:
Diante dos desafios atuais, Adichie reitera o papel vital da arte e da literatura como "nossa última fronteira". Ela encoraja as pessoas a "lerem mais", especialmente ficção, como uma forma de "resistência política" e de "enfrentamento". A leitura de romances pode "iluminar coisas para você onde você, você sabe, muitas vezes quando eu leio um livro de história, eu quero ler um romance sobre essa história porque ele abre coisas de uma maneira que a história não faz." A autora conclui com uma mensagem de esperança e insistência na importância de não "desistir" e de "continuar a falar", resistindo à "psicologia" que busca impor a obediência antecipada. Acreditar na justiça, na liberdade de expressão e na imaginação é crucial para superar os desafios do presente.
(Notebook LM)

🇨🇳 🔥 A sabedoria da rebeldia
Na minha busca ativa por vozes femininas para além do eurocentrismo, Elárin me indicou Nawal. Que potência! Uma força (literalmente clichê) da natureza. Humor ácido, mas gentil, que “empurra pra lá” qualquer fiapo de autoindulgência. Espírito livre, contestador, transformador.
Ela se foi em 2021, mas neste encontro que tive com ela, sua fala entrou viva, bem viva. Dei gargalhadas. Muitas! E fiquei muito orgulhosa dela ter ousado enfrentar tamanho sistema de crenças ferrenhas, fechadas e castradoras, principalmente no que tange o feminino.
Uma pequena bio, para você se animar a ouvi-la:
Formada em medicina pela Universidade do Cairo, ela começou a escrever a partir de suas experiências clínicas, denunciando a violência estrutural sofrida por mulheres, como a mutilação genital feminina — vivida por ela mesma aos 6 anos. Sua obra mais conhecida, A Mulher no Ponto Zero (1975), é um romance baseado em entrevistas com mulheres presas, e se tornou um marco da literatura feminista internacional.
Ao longo de sua vida, publicou mais de 50 livros, entre romances, ensaios e memórias, traduzidos para mais de 30 idiomas. Por seu ativismo, enfrentou censura, demissão, perseguição política e prisão no Egito, mas manteve-se firme em sua defesa intransigente da liberdade de expressão, dos direitos das mulheres e da justiça social.
Sua trajetória entrelaça literatura, ciência e luta política, fazendo de Nawal El Saadawi uma das vozes mais poderosas e corajosas do feminismo do século XX e início do XXI.
Resumo das entrevistas com Nawal El Saadawi
Um Manifesto Pela Liberdade, Dissidência e Criatividade
Este resumo detalha os temas centrais e as ideias mais importantes da vida e obra da egípcia Nawal El Saadawi (1931-2021), uma figura proeminente no feminismo, na literatura e na luta por justiça social. As informações são extraídas de trechos de "Nawal El Saadawi on feminism, fiction and the illusion of democracy" e "Walking Through Fire: A Conversation with Nawal Saadawi".
Temas Centrais
- A Origem da Dissidência e a Consciência da Injustiça: El Saadawi descreve sua dissidência como algo inato e adquirido. Ela sentiu uma profunda injustiça desde muito jovem, especialmente em relação ao patriarcado.
- O Patriarcado como Sistema Opressor Universal: El Saadawi vê o patriarcado como um sistema global que oprime tanto homens quanto mulheres, manifestando-se em todas as esferas da vida (religião, economia, cultura, ciência).
- Feminismo Histórico e Socialista: Ela defende um feminismo enraizado na história das lutas femininas globais, não uma invenção ocidental, e ligado à luta contra a opressão de classe e o capitalismo.
- A Ilusão da Democracia e a Necessidade de Organização: El Saadawi é cética em relação à democracia sob sistemas capitalistas e patriarcais, enfatizando a necessidade de organização e conscientização das pessoas para a verdadeira mudança.
- Criatividade como Ferramenta de Dissidência e Sobrevivência: A escrita e a criatividade são vistas como expressões naturais do ser humano e meios poderosos para desafiar a opressão, lidar com o medo e transformar experiências negativas em positivas.
- Desafios à Religião e Crenças Convencionais: El Saadawi critica o uso da religião para justificar a injustiça e questiona dogmas, incluindo o medo da morte e a natureza de Deus.
- A Luta Contínua e o Otimismo Persistente: Apesar das adversidades, prisões e exílios, El Saadawi mantém um otimismo inabalável na capacidade das pessoas de resistir e na inevitabilidade da mudança.
Ideias e Fatos Importantes com Citações
1. Infância e o Despertar da Dissidência
Nawal El Saadawi descreve como sua dissidência se manifestou cedo na vida, impulsionada por uma percepção aguçada da injustiça. Ela atribui parte dessa natureza a uma herança genética de sua avó, uma camponesa revolucionária, e parte de experiências adquiridas.
- O Primeiro Ato de Rebeldia: Aos seis anos, ao ser forçada a escrever apenas o nome de seu pai e avô na escola, excluindo o de sua mãe, ela sentiu "injustiça, é injusto, é cruel, injusto". Ela conclui: "desse momento, comecei a sentir que sou uma dissidente. Não vou aceitar isso de forma alguma."
- Privilégios Masculinos e Raiva de Deus: Aos dez anos, a percepção dos privilégios de seu irmão (liberdade, ausência de trabalho e estudo) apenas por ser homem gerou nela raiva. A resposta de sua família de que "é a vontade de Deus" a levou a escrever sua primeira carta a Deus, desafiando Sua justiça: "Sim, Deus, você não é justo e me trata mal e trata meu irmão melhor do que eu, embora eu seja muito mais inteligente que ele, e isso não é justo, e se você não for justo, não estou pronta para acreditar em você."
2. A Natureza do Patriarcado e o Feminismo
El Saadawi define o patriarcado não como uma questão de gênero individual, mas como um sistema de "duplo padrão", "dupla moralidade, dupla lei", que concede privilégios aos homens.
- Feminismo como Consciência Inata: Para ela, "o feminismo não é algo que eu tenha que estudar; as meninas se tornam feministas sem saber o que é feminismo."
- Feminismo Histórico Socialista: Sua organização visava "libertar as mulheres economicamente, socialmente, psicologicamente, fisicamente, religiosamente." Elas se autodenominavam "feministas históricas socialistas" porque entendiam que "a opressão das mulheres não é específica do Egito ou do povo árabe; é histórica, está em todo lugar." Eram socialistas por serem "contra a opressão de classe", "contra o capitalismo porque o capitalismo está ligado ao patriarcado." Elas eram "contra o patriarcado, não os homens."
- Homens Oprimidos pelo Patriarcado: A organização de El Saadawi contava com 40% de homens, que se juntaram porque "sentiam que os homens também são oprimidos pelo patriarcado."
3. A Ilusão da Democracia e a Importância da Organização
El Saadawi é extremamente crítica em relação à democracia como é praticada no mundo, tanto em países ocidentais quanto em sua própria região.
- Democracia como Ilusão: Ela afirma categoricamente: "Não há democracia no mundo. Eu vivi na América por 20 anos, não havia democracia. Bill Clinton não foi eleito democraticamente, Obama não foi eleito democraticamente... Donald Trump não foi eleito democraticamente... Você acha que Morsi foi eleito democraticamente? Foi muito dinheiro na Praça Tahrir."
- O Poder da Organização: A razão pela qual a democracia é uma ilusão e as pessoas não se libertam é a falta de organização. Ela afirma: "As pessoas são oprimidas, as pessoas não estão organizadas, somos impedidos de nos organizar, esse é o ponto chave. Quando eu era uma escritora individual, mesmo que me tornasse famosa e uma estrela, eles me permitiam, mas não organizar. No minuto em que comecei a organizar mulheres e homens, tornei-me um perigo."
- Conscientização e Desaprendizagem: Para a mudança, são necessários "duas coisas: organizar e reintegrar as pessoas para conscientizá-las, porque as pessoas são sofrem lavagem cerebral pela mídia, pela educação." É preciso "desaprender" e "erradicar a educação tradicional ruim."
4. Criatividade, Escrita e Medo
A escrita é mais do que uma profissão para El Saadawi; é uma necessidade vital e uma forma de resistência.
- Escrita como Respiração: "Quando eu escrevo, é como respirar. Se eu parar de escrever, eu sufoco. Mesmo na prisão, eu escrevi na prisão."
- Romper o Silêncio na Prisão: Durante seu encarceramento, ela escreveu suas memórias com um lápis de sobrancelha em papel higiênico, porque "papel e caneta na prisão é muito perigoso." A citação de suas memórias, lida por Omnia Amin, resume seu espírito: "Não morreremos e se morrermos, não morreremos em silêncio. Não passaremos na escuridão sem criar um tumulto. Temos que ficar mais e mais zangadas, batendo no chão e sacudindo o céu. Não morreremos sem uma revolução."
- Medo como Controle: El Saadawi argumenta que "vivemos com medo e morremos com medo, é assim que eles nos controlam." Ela desafia a própria noção de morte: "Não há morte. Eu estou te desafiando, não há morte... porque eu, como médica, sei o que é orgânico. Quando você morre, você não existe mais, porque todos os seus sentidos, incluindo o sentido da dor, desaparecem. Então, quando morremos, não sentimos, não existimos, não estamos aqui de fato, então, temos medo, vivemos nossa vida com medo de algo que experimentaremos enquanto não estivermos lá. Isso nunca acontecerá em minha vida."
- Transformar Negatividade em Positividade: Ela exemplifica como transformou o exílio em recompensa: "O exílio para mim se tornou uma recompensa porque eu saí do Egito, comecei a encontrar muitas outras pessoas, muitos países, muitas culturas, então ganhei muito. Então o exílio para mim foi uma recompensa, não um castigo."
- Criatividade Inata: Ela acredita que "todos nascem criativos" e que "não existe essa coisa chamada gênio", desmistificando a ideia de talentos raros.
5. Luta Contínua e Otimismo
Apesar de uma vida marcada por ameaças de morte, prisões e censura, El Saadawi mantém uma perspectiva otimista.
- Revoluções Nunca Falham: Sobre a Primavera Árabe, que alguns consideram um fracasso, ela afirma: "Nenhuma revolução jamais falhou. Sempre que há uma revolução, ela nunca falha, pode ser abortada por algum tempo, mas nunca falha."
- Esperança é Poder: "Não sou pessimista. Eu sou muito otimista porque a esperança é poder." Ela enfatiza a necessidade de "continuar a luta local e global porque não podemos lutar sozinhos no Egito. É uma batalha universal, mas tem que começar localmente e depois ligar, conectar."
Legado e Impacto
Nawal El Saadawi é uma "força rara e incrível" (nas palavras de sua filha) cuja influência se estendeu por cinco gerações e continua a inspirar a juventude. Seus livros, muitos disponíveis gratuitamente online, e o apoio dos jovens, a protegeram e perpetuaram sua mensagem. A criação da "Nawal El Saadawi Foundation for Creativity and Thought" pelos jovens egípcios é um testemunho vivo de seu impacto e de seu desejo de "implantar sementes de revolução nos corações dos homens e mulheres oprimidos." Sua vida é um exemplo de que "a liberdade é o trabalho mais criativo que podemos escrever."
(Notebook LM)
🌟 Espiritualidade entre linhas
O que dizer de Joseph Campbell? Eu já tive aulas sobre a Jornada do Herói, em diferentes momentos da minha vida. Fui introduzida ao conceito de mito, em minha juventude, por meio de sua obra. Mas toda vez que eu tentei ler um de seus livros, achei maçante, pois não tenho muita paciência para estudos extensos e muito detalhados, a não ser que sejam sobre um assunto que eu tenha muito interesse.
Eu sou uma generalista distraída e de tiro curto. Para perseverar, precisa fazer sentido. E não me adianta em nada saber todos os detalhes de trocentos rituais e mitologias que existem no mundo. Me interessam sim os arquétipos que regem essas histórias.
A pesquisa do Campbell se concentrou em trazer ao mundo um estudo rigoroso das mitologias humanas, presentes em diversas culturas, revelando um fio dourado que reúne o espírito humano. O trabalho dele marca, de certa forma, a chegada da Era de Aquário, que propõe um ser humano diverso, singular, mas imerso numa coletividade, sem fronteiras. Unidos em sua humanidade, em seus ritos de passagem e aprendizados.
Em determinado momento da entrevista, Jeffrey Mishlove, o entrevistador, diz:
“Ao ler seu livro The Inner Reaches of Outer Space, tive a impressão de que seu estudo da mitologia mundial o levou, de certa forma, a se tornar um místico.”
Ao que o Campbell responde:
“Bom, eu não sou místico. Não pratico austeridades, nunca tive uma experiência mística. Então, não sou místico. Sou apenas um estudioso. Lembro que, uma vez, Alan Watts me perguntou: “Joe, que ioga você pratica?” E respondi: “Eu sublinho frases”. E é só isso que faço. Não sou guru nem nada do tipo. Apenas tive a grande sorte de encontrar esse mundo dourado da mitologia. E também fui bem treinado para escrever livros. Tudo o que fiz foi reunir nas minhas obras aquilo que me encantou. E, pelo visto, funciona para outras pessoas tanto quanto funcionou para mim.
Ao ouvi-lo, eu o senti profundamente místico, um homem espiritualizado, ao contrário do que ele afirma. Não precisamos ter experiências místicas, mediúnicas ou fazermos parte de alguma religião para sermos espiritualizados. Espiritualidade é a dimensão da alma. E alma tem a ver com valores e condutas éticas, com a capacidade de expansão amorosa e a abertura para o aprendizado constante, buscando compreender o que viemos fazer neste mundo e qual o sentido da vida.
Ateus, por exemplo, podem ser profundamente espiritualizados, independente de sua fé ou crença e de não acreditarem na existência de um deus (em geral, a implicância é mais com as religiões do que com uma força/presença, o nome que quisermos dar, àquilo que nos ultrapassa).
Em meia hora de Campbell, a força de sua alma aparece. A linguagem de suas mãos é linda, coloquem reparo. Ele fecha os olhos, muitas vezes, para falar. Respira para pensar. E suas advertências sobre a modernidade parecem mais vivas do que nunca.
Pequena bio sobre este Hierofante:
Campbell combinava erudição com uma escrita acessível, articulando saberes de tradições indígenas, textos clássicos, religiões orientais e psicologia junguiana. Seu lema “Siga sua bem-aventurança” (Follow your bliss) tornou-se um chamado existencial que influenciou gerações de artistas, terapeutas e buscadores.
Sua obra inspirou desde roteiristas de Hollywood — como George Lucas em Star Wars — até estudiosos das humanidades, ampliando a compreensão simbólica dos ciclos de transformação humana.
Campbell acreditava que os mitos não eram mentiras antigas, mas verdades simbólicas vivas, capazes de orientar o indivíduo diante dos mistérios da vida, da morte e do sentido.
(GPT 4.0)
Resumo da entrevista com Campbell
Entendendo a Mitologia com Joseph Campbell
Este documento de briefing detalha os principais temas, ideias e fatos das conversas de Joseph Campbell com Jeffrey Mishlove em "Understanding Mythology with Joseph Campbell". Campbell, um renomado mitologista, oferece uma perspectiva inovadora sobre a origem, função e evolução da mitologia, enfatizando sua relevância para a experiência humana e os desafios sociais contemporâneos.
I. A Origem e Função da Mitologia: Enraizada no Corpo Humano e na Sociedade
Joseph Campbell argumenta que a mitologia não é meramente produto da fantasia, mas sim uma emanação profunda e intrínseca da experiência humana, particularmente das energias e impulsos do nosso corpo físico.
- Corpo como Fonte: Campbell afirma: "a fantasia e a imaginação são um produto do corpo. As energias que dão origem às fantasias derivam dos órgãos do corpo. Os órgãos do corpo são a fonte da nossa vida e das nossas intenções de vida e eles conflitam entre si." As pulsões eróticas, de conquista, de autopreservação e os ideais espirituais geram conflitos internos.
- Harmonização Interna: A função primordial da mitologia é "harmonizar, coordenar as energias do nosso corpo para que possamos viver uma vida harmoniosa e frutífera em conformidade com a nossa sociedade e com o novo mistério que emerge com cada ser humano, nomeadamente quais são as possibilidades desta vida humana particular."
- Guia para a Vida: A mitologia serve como um guia essencial para o indivíduo, tanto em relação à sociedade e ao mundo natural, como através das inevitáveis "etapas da vida, da infância à maturidade e depois até à última porta."
- Sistema Organizado de Fantasias: Embora enraizadas no corpo, as mitologias são mais do que fantasias individuais. São "uma organização sistematizada de fantasias em relação aos valores de uma dada ordem social." Consequentemente, "as mitologias derivam sempre de ambientes sociais específicos." As civilizações antigas, por exemplo, eram "baseadas numa mitologia."
II. O Conflito das Mitologias Tradicionais e a Necessidade de uma Nova Mitologia Global
Campbell identifica um problema crucial na era moderna: o conflito decorrente da natureza tribal das mitologias tradicionais em um mundo cada vez mais globalizado.
- Colisão Global: "Cada mitologia, e por mitologia incluo religiões, cada religião cresceu dentro de uma certa ordem social e hoje estas ordens sociais entraram em colisão umas com as outras." Campbell aponta o exemplo do Médio Oriente, onde as três principais religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – "estão a criar o caos" por pensarem ter "todos os valores do seu lado."
- Mitologias de Grupo vs. Mitologias Inatas: Campbell distingue dois tipos principais de mitologia:
- Mitologias de Grupo: Como a tradição bíblica, que "têm a ver com a coordenação do indivíduo num grupo." A lealdade e a compaixão são dirigidas para dentro do grupo, enquanto a agressão é projetada para fora.
- Mitologias Inatas/Contemplativas: Que "nascem da vida emocional da ordem natural" e reconhecem o ser humano como "seres da natureza." Exemplos incluem as religiões dionisíacas da Grécia Antiga, o hinduísmo e as tradições de meditação do Oriente. Nestas, "todos os deuses são simplesmente projeções de potencialidades humanas; não estão lá fora, estão aqui dentro." A frase "o reino dos Céus está dentro de ti" é um exemplo desta perspectiva.
- Consciência de Cristo vs. Consciência de Buda: Campbell compara a busca pela "Consciência de Buda" – encontrar a paz interior e a serenidade – com a "Consciência de Cristo" no cristianismo, que é "encontrar o Cristo em ti." Embora as imagens sejam contrastantes (Buda pacífico vs. Cristo crucificado), a ideia subjacente é a mesma: "alegre participação nas tristezas do mundo," aceitando o sofrimento para si e para o mundo na realização de uma vida plena.
- A Ciência Moderna como Base para uma Nova Mitologia: Campbell vê a ciência moderna, especialmente a física e a astronomia, como o material para uma nova mitologia. "Eu diria que todas as nossas ciências são o material que tem de ser mitologizado."
- Sem Conflito Real: Não há "conflito real entre ciência e religião." A religião é o "reconhecimento da dimensão mais profunda que a ciência nos revela." O conflito surge da adesão a uma "ciência de 2000 AC" (como na Bíblia) em oposição à "ciência do século XX DC."
- Tradução Necessária: Conceitos como a ascensão corporal de Jesus ou Maria são problemáticos porque "a imagem mítica não se encaixa na mente contemporânea." É crucial "traduzir estas coisas para a vida e experiência contemporâneas."
- Vastidão do Universo: A ciência moderna revela a vastidão do cosmos (galáxias, estrelas) que invalida a ideia de deuses "lá fora no espaço." Campbell elogia o hinduísmo por já ter incorporado noções de vastidão cósmica e ciclos de nascimento e morte estelar, que se correlacionam "sem problema nenhum" com a ciência moderna.
- O Perigo do Literalismo: Campbell considera "um desastre" e "monstruoso" que partes da cultura contemporânea queiram "interpretar literalmente os antigos mitos religiosos." Ele descreve isso como "voltar a algo que está 4.000 anos desatualizado" em termos de compreensão da humanidade e do mundo.
III. Unidades Subjacentes e Universais na Mitologia
Apesar das diferenças culturais, Campbell destaca a existência de "unidades subjacentes" e "universais" na experiência humana que são abordadas pela mitologia.
- Experiências Corporais Comuns: A "realidade existencial" compartilhada, independentemente da cultura, inclui o "mistério do nascimento," a necessidade de integrar essa nova vida na sociedade, as "inevitabilidades do crescimento" (infância, adolescência, casamento) e, crucialmente, "a inevitabilidade da morte."
- O Mistério da Morte e a Consciência Duradoura: "A proper mythology tells you how to die." A morte não é uma perda, mas um ganho de "uma vida interior." "Tudo o que se perde é simplesmente este fenómeno passageiro de um corpo, mas a Consciência está a tornar-se cada vez mais de si mesma." A mitologia ajuda a encontrar o "aspeto mais duradouro da sua vida em si mesmo."
- Metáfora e Conotação: Campbell enfatiza que a mitologia é "uma compilação de metáforas." O erro reside em "interpretar a metáfora em termos da denotação em vez da conotação." Ele compara isso a ler um menu num restaurante e tentar comer o menu em vez da comida que ele representa. A compreensão da conotação da metáfora "enriquece a vida."
IV. O Caminho Pessoal de Campbell: Seguindo a Sua "Bliss"
Campbell compartilha sua filosofia de vida e abordagem à mitologia, salientando a importância da paixão e da dedicação.
- Não é Místico, mas Estudioso: Campbell clarifica que não é um místico, pois nunca praticou austeridades nem teve experiências místicas. Ele é "um estudioso" que se dedicou ao "mundo dourado do mito."
- Entusiasmo e a "Bliss": O conselho de Campbell, especialmente para os jovens, é "seguir o vosso entusiasmo." Ele explica que a palavra "entusiasmo significa 'cheio de Deus'." O seu lema pessoal é "follow your bliss" (siga a sua alegria/êxtase). "A bliss é a mensagem de Deus para ti mesmo. É aí que está a tua vida."
- Exemplo Pessoal: Campbell exemplifica este conselho ao relatar como abandonou o estudo da filologia em Paris para perseguir o seu verdadeiro interesse, mesmo durante a Grande Depressão, quando ficou "sem emprego durante 5 anos," mas continuou "a seguir a bliss."
V. Desafios Contemporâneos e a Esperança de uma Nova Consciência
Campbell reconhece os desafios atuais do mundo, mas mantém uma perspectiva otimista em relação ao potencial da humanidade.
- Caos Político, Não Espiritual: "O caos no mundo hoje não é uma função da iluminação da humanidade hoje, é uma função da incompetência de um bando de políticos autointeressados."
- Necessidade de uma Mitologia Planetária: Para resolver os problemas globais, é essencial desenvolver uma "nova mitologia que seja apropriada para o homem de hoje." Esta deve reconhecer a "humanidade de uma pessoa do outro lado da rede de ténis" e que a sociedade não é "deste grupo, daquele grupo ou desta classe social ou daquela classe social ou desta raça ou daquela raça, mas o planeta."
- Potencialidades do Espírito Humano: Campbell acredita que o "espírito humano está a desenvolver-se" e que as mitologias, ao revelarem "potencialidades do espírito humano, são proféticas."
- Física Quântica e Interconexão: Ele vê nas noções da física quântica, como a "interconexão quântica," ecos das antigas sabedorias, especialmente nas filosofias indianas (Sânscrito), que já "têm a coisa toda."
Em suma, Joseph Campbell apresenta a mitologia como uma força vital, intrinsecamente ligada à nossa biologia e sociedade, mas que precisa de ser constantemente reinterpretada para se manter relevante. Ele apela a uma compreensão não literal dos mitos e à criação de uma nova mitologia global que integre os conhecimentos científicos modernos e promova uma consciência planetária, superando as divisões tribais em busca de uma harmonização do ser humano consigo mesmo e com o mundo.
(Notebook LM)
🍎 Ironia das ironias

É muito doido ver que a maior empresa americana, uma das mais famosas do mundo, foi responsável pelo maior e mais importante salto tecnológico do parque industrial chinês, especializado em produtos de alta complexidade. Ou seja, a Apple treinou, ensinou, formou e mudou o patamar de toda a rede de manufatura chinesa, transformando-a no único ecossistema capaz de entregar os produtos no nível Apple, possibilitando a transferência dessa tecnologia para outras diversas marcas chinesas, como a Huawei, e capacitando os fornecedores especializados, como a Foxconn, a prospectarem diversos outros clientes interessados na mesma expertise.
O Trump está pressionando a Apple a sair da China, mas para que ela transfira sua produção para países como Vietnã ou Índia, serão necessários alguns anos de treinamento de mão de obra especializada e a construção de um ecossistema de manufatura muito diversificado, que hoje está basicamente concentrado na China. São muitas peças e muitas empresas envolvidas.
Fora isso, tem a questão da cultura chinesa (e de todo o leste asiático), onde a jornada “996” (trabalhar das 9h às 21h, 6 dias por semana) é comum e exaltada. Quem é que vai trabalhar nesse ritmo, com tamanha eficácia e especialização técnica, incansavelmente, sem reclamar, fora os chineses? (Sendo que a hora-homem de países como Japão e Coreia, onde a cultura do trabalho é parecida, é muito mais alta do que na China).
Enfim, esta entrevista com Patrick McGee, autor do livro “Apple na China: A Captura da Maior Empresa do Mundo”, para quem gosta de tecnologia, é muuuuito apetitosa. E eu bati um papo com o Claude, para fazer o resumo e aplicar algumas abordagens analíticas sobre essa cultura do trabalho em excesso, que gerou outros recortes.
Sobre o Patrick:
É autor de Apple in China: The Capture of the World’s Greatest Company (publicado em 13 de maio de 2025), livro aclamado que mistura narrativa histórica, mergulho geopolítico e reportagens profundas, baseando-se em mais de 200 entrevistas com executivos e engenheiros para expor como a dependência da Apple na produção chinesa transformou não apenas a empresa, mas impulsionou o poder tecnológico da China.
Com formação em estudos religiosos (Universidade de Toronto) e mestrado em diplomacia global pela SOAS (Universidade de Londres), McGee começou sua carreira como repórter de títulos no Wall Street Journal antes de se juntar ao FT em 2013 . Entre seus prêmios, destaca-se o San Francisco Press Club Award (2023) por uma reportagem aprofundada sobre cultura organizacional da Apple.
Reconhecido por sua escrita clara, análise precisa e abordagem crítica das plataformas de poder tecnológico, McGee agora se dedica a expor como decisões corporativas moldam dinâmicas globais de poder e economia.
(GPT 4.0)
Resumo da entrevista com Patrick
Principais Pontos da Conversa:
A Jornada da Apple para a China
- Nos anos 1990, a Apple enfrentava quase falência e precisava abandonar o modelo "real men own fabs" (homens de verdade têm fábricas próprias)
- A empresa tinha uma estratégia tri-continental inicial: manufatura na Califórnia/Colorado (América do Norte), Irlanda (Europa) e Singapura (Ásia)
- Gradualmente, a China venceu em custos e eficiência, levando a Apple a consolidar toda produção lá por volta de 2003
O Papel Transformador da Apple na China
- A Apple não apenas mudou para a China - ela essencialmente ensinou e elevou todo o ecossistema de manufatura chinês
- "A Apple desempenhou um papel fundamental para" transformar a China de um fabricante de baixa qualidade para um centro de eletrônicos de alta qualidade
- O livro argumenta que a influência da Apple foi como um "programa de construção nacional"
Casos Emblemáticos de Inovação
- iMac Translúcido (1998): Considerado "não-manufaturável" pela própria equipe da Apple, mas revolucionou o design
- MacBook Unibody: "A Apple surpreendeu o setor quando comprou mais de 10.000 máquinas CNC em um único ano", comprando toda a produção mundial de máquinas CNC (CNC significa Controle Numérico Computadorizado - são máquinas-ferramenta controladas por computador que executam operações de manufatura com extrema precisão, que eram antes usadas apenas para protótipos. No contexto do livro, a Apple revolucionou a indústria ao usar máquinas CNC para produção em massa, comprando TODA a produção mundial da Fanuc (fabricante japonês), impedindo concorrentes de copiar o processo porque não haviam máquinas disponíveis, permitindo precisão e qualidade impossíveis com métodos tradicionais, o que Steve Jobs chamou de "a whole new way of building notebooks"
A Parceria com Foxconn
- Terry Gou (fundador da Foxconn) foi o primeiro a entender que trabalhar com a Apple era como receber "treinamento gratuito" de engenheiros de classe mundial
- A Foxconn deliberadamente rotacionava engenheiros treinados pela Apple para outras linhas de produção
O "Programa para evitar o divórcio" (DAP)
- Programa criado pela Apple para evitar divórcios entre seus engenheiros devido ao trabalho excessivo
- Incluía pagamentos de $10.000 aos cônjuges ("Danny Bucks") quando engenheiros precisavam viajar repentinamente
A Captura Estratégica
- "A Apple está ferrada sem a China, porque ninguém oferecerá as coisas que ela oferece"
- A Apple não tem um "Plano B" viável - a expertise, escala e infraestrutura chinesas são insubstituíveis
- "Se você está fabricando um milhão de iPhones por dia, isso significa que está gerenciando a logística, a fabricação e a produção de um bilhão de componentes diariamente"
Competição Emergente
- Por volta de 2018, fabricantes chineses como Huawei alcançaram a Apple tecnologicamente
- O capítulo "Five Alarm Fire" revela e-mails internos mostrando pânico quando o iPhone XR fracassou contra a Huawei
- Hoje, empresas chinesas lideram em algumas inovações (telefones dobráveis, baterias de carbeto de silício)
Implicações Geopolíticas
- A Apple investe $55 bilhões anuais em "capital registrado" na China
- A transferência de tecnologia foi unidirecional - conhecimento entrou na China mas não sai
- Tentativas de diversificar para Índia ou Vietnã enfrentam bloqueios chineses de maquinário e expertise
O Paradoxo Final
Enquanto a América ganhou uma empresa de $3 trilhões, criou-se uma dependência perigosa. Como McGee coloca: a Apple pensou que "vestia as calças" (tinha o controle) no relacionamento por 20 anos (2000-2020), mas descobriu que foi "atraída pelo canto da sereia de uma superpotência emergente".
A conversa revela como a busca obsessiva da Apple por perfeição no design, combinada com a determinação chinesa de upgrading industrial, criou uma simbiose que agora aprisiona ambos os lados - mas especialmente a Apple, que não consegue replicar em outro lugar o que construiu na China ao longo de 25 anos.
(Claude OPUS 4)
Aspectos culturais e políticos extraídos da conversa
1. O "Comunismo com Características Chinesas"
Patrick McGee faz uma distinção crucial:
- Sistema Soviético: "top-down" (de cima para baixo), centralizado
- Sistema Chinês: "federalismo com esteroides" - competição feroz entre governos locais
"Os quadros em vários distritos são incentivados para o crescimento da fábrica. Eles oferecerão isenções de impostos, zonas alfandegárias e políticas personalizadas..."
Isso cria uma dinâmica onde oficiais locais competem agressivamente por investimentos, oferecendo tudo para atrair fábricas.
2. A Cultura do Trabalho Extremo
A conversa revela paralelos perturbadores:
- Foxconn: suicídios levaram à instalação de redes de proteção
- Apple: "Programa para evitar o divórcio" para engenheiros americanos
- Um engenheiro disse: "Não importa os divórcios, é preciso observar as mortes"
- "996": (não mencionado diretamente, mas implícito) - trabalhar das 9h às 21h, 6 dias por semana
Sobre Terry Gou:
- Rotacionava engenheiros treinados pela Apple para outras linhas
- Era extremamente focado em eficiência e custos ("he's so cheap")
- Entendia que o treinamento da Apple era valioso mesmo sem grandes margens de lucro
Sobre Steve Jobs:
- Ameaçava vender suas ações quando diziam que algo era "não-manufaturável"
- Exigia perfeição obsessiva no design
- Acreditava que o excesso de trabalho causou seu câncer:
"O próprio Steve Jobs diz que acha que teve câncer porque estava trabalhando muito como CEO da Pixar e da Apple em 1997"
3. O Lema "Sem manufatura não há país, não há nação"
"Without manufacturing there is no country and there is no nation"
Isso revela uma ontologia radicalmente diferente sobre o que constitui uma nação - não território, cultura ou povo, mas capacidade produtiva.
(Claude OPUS 4)
A crítica pela lente da "Sociedade do Cansaço"
Byung-Chul Han argumentaria que isso exemplifica perfeitamente a auto-exploração neoliberal:
O Paradoxo da "Liberdade" Produtiva
- Trabalhadores chineses "escolhem" trabalhar 18 horas
- Engenheiros americanos "voluntariamente" sacrificam casamentos
- Mas é realmente escolha quando toda a estrutura social/econômica exige isso?
A Instrumentalização Total
Como você nota, isso transforma humanos em:
- "Recursos" a serem otimizados
- Extensões das máquinas CNC
- Peças substituíveis (Terry Gou literalmente rotacionava engenheiros)
Mas o que Byung-Chul Han diria especificamente sobre a cultura chinesa de exaltação do trabalho incansável?
Byung-Chul Han, sendo sul-coreano de nascimento e tendo vivido na Alemanha, tem uma perspectiva única sobre as culturas do Leste Asiático, mas ele é cuidadoso e complexo ao abordar questões culturais específicas.
O que Han efetivamente discute:
1. Culturas do Leste Asiático em Geral
- Ele ocasionalmente faz referências ao confucionismo e budismo
- Discute como conceitos de "face" (面子) e harmonia social se relacionam com controle
- Analisa como a "positividade" excessiva se manifesta diferentemente em contextos asiáticos
2. A "Transparência" e Vigilância
Em "Sociedade da Transparência", ele menciona como:
- Sistemas de crédito social chinês exemplificam a vigilância digital
- Mas ele os vê como parte de uma tendência global, não especificamente chinesa
- A China seria um caso extremo de algo que acontece em todo lugar
3. Sua Abordagem Filosófica
Han geralmente:
- Evita essencializar culturas ("os chineses são assim")
- Foca em sistemas e estruturas que transcendem culturas específicas
- Argumenta que o neoliberalismo coloniza TODAS as culturas
O Cuidado de Han
Ele é muito consciente do perigo de:
- Orientalismo (retratar o "Oriente" como exótico/diferente)
- Reducionismo cultural
- Usar a China/Ásia como "outro" conveniente
Sua Tese Principal:
Para Han, o mais importante é que:
"O neoliberalismo transforma TODAS as culturas em culturas de desempenho"
Seja o trabalho 996 na China, o "karoshi" (morte por excesso de trabalho) no Japão, ou o burnout no Vale do Silício - são manifestações locais de um fenômeno global.
Relevância para a Conversa Apple-China:
Sob a lente de Han, o caso Apple-Foxconn seria menos sobre "cultura chinesa de trabalho duro" e mais sobre como o capitalismo global:
- Explora diferentes contextos culturais
- Encontra as vulnerabilidades específicas de cada sociedade
- Transforma valores tradicionais (como diligência confuciana) em ferramentas de exploração
Então sim, Han tocaria nesses temas, mas sempre resistindo a explicações puramente culturalistas, preferindo ver como estruturas globais de poder se manifestam em contextos locais específicos.
(Claude OPUS 4)
Contraponto: Perspectivas Ameríndias
O que diriam Viveiros de Castro ou Krenak sobre toda essa questão da produtividade, trabalho nonstop, especialização ao máximo?
Eduardo Viveiros de Castro e o perspectivismo ameríndio ofereceriam uma crítica devastadora:
"Bem Viver" vs. "Produzir Mais"
- Cosmovisão Ameríndia: viver é estabelecer relações, não acumular
- Cosmovisão Industrial: existir é produzir, crescer, escalar
Tempo e Existência
- Tempo Ameríndio: cíclico, relacional, contemplativo
- Tempo da Fábrica: linear, comprimido, sempre insuficiente
O Que É Riqueza?
- Para Apple/China: $3 trilhões, 1 bilhão de componentes/dia
- Para muitas culturas indígenas: tempo, relações, harmonia
A Ironia Trágica
O mais perturbador é que o livro apresenta isso como inevitável:
"Encontre outro país que tenha isso como seu lema, seu mantra" (citação da entrevista)
A implicação é que apenas sacrificando a vida humana no altar da produtividade se pode "vencer" no capitalismo global.
Mas isso levanta questões profundas:
- Vencer o quê, exatamente?
- Para quê toda essa produção?
- Qual o sentido de uma empresa de $3 trilhões se custa a sanidade de milhares?
Como Krenak, talvez, perguntaria: "Por que a humanidade está tão convencida de que precisa 'se desenvolver'?"
A conversa, sem perceber, documenta não um triunfo tecnológico, mas talvez uma das maiores tragédias civilizacionais - a transformação de culturas inteiras em máquinas de produção, onde o "sucesso" é medido por quantos iPhones por segundo você consegue montar antes de colapsar.
(Claude OPUS 4)
🌑 O mal em Musk

Esse cara é uma das tristezas de nosso século. O símbolo da falência humana. Me pergunto se ele tem consciência do impacto cruel de suas ações. A extinção da USAID está matando crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade na África e outros lugares. À medida que os meses forem passando, essas notícias vão ser cada vez mais comuns.
Eu confesso que, para mim, há um certo enigma na decisão de optar pelo mal. Kant alegava que o mal diabólico, aquele em que se rejeita completamente o princípio moral, ou seja, a maldade como princípio supremo, seria impossível para seres humanos. Quem sabe, se tivesse testemunhado o Nazismo e a Shoah, Kant não retificasse sua teoria?
Eu não sei. Realmente não sei.
Musk é um aceleracionista. Está colocando fogo no parquinho. E que morra quem tiver que morrer. Se você não sabe o que é aceleracionismo, leia o resumo e as perspectivas que eu pedi para o Claude aplicar sobre o tema. As ações dele farão mais sentido sob essas lentes.
Resumo: o impacto dos cortes da USAID promovidos por Elon Musk
A matéria documenta as consequências devastadoras dos cortes no orçamento da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) liderados por Elon Musk através do DOGE (Department of Government Efficiency).
Consequências Humanitárias
A reportagem apresenta relatos diretos do campo:
- Sudão do Sul: Surto de cólera em Akobo, com fechamento de clínicas e pessoas caminhando horas carregando doentes para buscar tratamento
- Nigéria: Morte de bebês por desnutrição aguda após o fim de programas de tratamento
- Somália: Crianças chegando aos hospitais em estado tão grave de desnutrição que não conseguem falar
A Posição de Musk
Elon Musk:
- Declarou que a USAID é uma "organização criminosa" que deveria "morrer"
- Negou publicamente que os cortes causaram sofrimento real
- Afirmou que críticos não conseguem apresentar evidências de crianças afetadas
A Contradição Filosófica
A matéria explora uma contradição fundamental no pensamento de Musk:
- Por um lado, ele se alinha com o "longtermismo" e quer salvar a humanidade colonizando Marte
- Por outro, demonstra indiferença ao sofrimento atual de populações africanas
- Sua visão de futuro parece excluir certas populações, especialmente as mais vulneráveis
Conexões Preocupantes
O texto documenta ligações de Musk com:
- Movimentos pró-natalistas que incluem eugenistas
- Teorias de racismo científico sobre QI e raça
- Teorias conspiratórias sobre "genocídio branco" na África do Sul
- Críticas à "empatia" como uma fraqueza da civilização ocidental
Conclusão
A reportagem argumenta que, enquanto Musk fantasia sobre colonizar Marte e salvar a humanidade no futuro, suas ações presentes estão literalmente tirando o futuro de crianças pobres ao cortar ajuda humanitária essencial. A matéria questiona: quem Musk considera digno de fazer parte do futuro da humanidade que ele imagina?
(Claude OPUS 4)
Aceleracionismo: uma explicação
O aceleracionismo é uma teoria política e filosófica que defende a aceleração intencional dos processos do capitalismo e da tecnologia como forma de provocar mudanças sociais radicais. No contexto de figuras como Musk, manifesta-se na crença de que avanços tecnológicos extremos (como a colonização de Marte) justificam o sacrifício de necessidades humanas imediatas."
Conceito Central
A ideia básica é que, em vez de resistir ou reformar o sistema capitalista, deveríamos intensificar e acelerar suas contradições internas até que ele colapse ou se transforme em algo completamente novo. É como "pisar no acelerador" para chegar mais rápido a um ponto de ruptura ou transformação.
Principais Vertentes
1. Aceleracionismo de Esquerda
- Busca acelerar o capitalismo para expor suas contradições
- Objetivo: colapso do sistema e emergência de uma sociedade pós-capitalista
- Foco em automação total e renda básica universal
2. Aceleracionismo de Direita
- Abraça a aceleração tecnológica sem questionar o capitalismo
- Visão tecno-utópica ou tecno-autoritária
- Frequentemente associado a ideias transumanistas e de "singularidade tecnológica"
Conexão com o Artigo
No contexto da matéria sobre Musk, elementos aceleracionistas aparecem em:
- Sua obsessão com colonização espacial como "próximo estágio" da humanidade
- A crença de que avanços tecnológicos radicais resolverão problemas fundamentais
- A disposição de sacrificar o presente (cortes humanitários) em nome de um futuro tecnológico
- Alinhamento com ideias transumanistas e de transformação radical da espécie humana
Por que a Esquerda Aceleracionista defende automação e renda básica?
A Lógica por trás disso:
1. Automação Total
- A esquerda aceleracionista vê a automação como uma forma de libertar os trabalhadores do trabalho alienante
- Diferente da visão tradicional de esquerda (que teme o desemprego tecnológico), eles argumentam: "vamos automatizar TUDO mesmo e acabar com a necessidade de trabalho humano"
- Isso forçaria uma crise final no capitalismo: sem trabalhadores para explorar, o sistema entraria em colapso
2. Renda Básica Universal
- É vista como medida transitória para manter as pessoas vivas enquanto o capitalismo colapsa
- Também expõe a contradição: se podemos simplesmente dar dinheiro para todos, por que precisamos do sistema de trabalho assalariado?
- Seria o primeiro passo para uma economia pós-escassez
O Raciocínio Aceleracionista de Esquerda:
Automação total → Desemprego em massa →
Necessidade de renda básica →
Questionamento do sistema →
"Se máquinas fazem tudo e todos recebem renda,
por que precisamos de capitalismo?" →
Transição para pós-capitalismo
Diferença crucial:
- Capitalistas tecnológicos (como Musk): querem automação mas mantendo hierarquias e propriedade privada
- Aceleracionistas de esquerda: querem usar a automação para tornar o capitalismo obsoleto e criar abundância compartilhada
É basicamente usar as "armas" do capitalismo (tecnologia, automação) contra ele mesmo.
(Claude OPUS 4)
O mal em Kant e Arendt: onde Musk se posiciona?
As Categorias Kantianas
1. Mal Radical
- O ser humano escolhe subordinar a lei moral ao amor-próprio
- Há ainda reconhecimento do bem, mas se prioriza o interesse pessoal
- É "radical" porque está na raiz da natureza humana
2. Mal Diabólico/Satânico
- Fazer o mal pelo mal, por princípio
- Rejeição completa da lei moral
- Kant achava isso impossível para humanos (seria puramente demoníaco)
A Banalidade do Mal (Arendt)
- O mal sem profundidade, sem motivação ideológica profunda
- Ausência de pensamento crítico e reflexão
- Incapacidade de pensar do ponto de vista do outro
- Importante: Para Arendt, a ausência de pensamento é precisamente o que permite o mal
Musk: Uma Análise Complexa
Elementos do Mal Radical Kantiano:
- Reconhece conceitos morais (salvar a humanidade, futuro da espécie)
- Mas subordina tudo ao seu projeto pessoal/visão
- Justifica o sofrimento presente com um bem futuro hipotético
- Há uma perversão da moralidade, não sua ausência total
Mas com características únicas:
- Usa a linguagem do "bem maior" (colonizar Marte, salvar a humanidade)
- Demonstra capacidade de pensamento complexo e abstrato
- Porém, esse pensamento é instrumental - voltado apenas para seus fins
O Paradoxo de Musk
Musk representa uma categoria que desafia tanto Kant quanto Arendt:
- Contra Arendt: Ele PENSA demais, não de menos. Mas seu pensamento é:
- Seletivo (ignora sofrimento africano)
- Instrumental (focado em objetivos tecnológicos)
- Carente de reflexão ética genuína
- Contra Kant: Seu mal não é simplesmente colocar o amor-próprio acima da moral, mas criar uma nova moralidade onde:
- Empatia é "fraqueza"
- Sofrimento presente é irrelevante ante o futuro cósmico
- Algumas vidas valem mais que outras (eugenia soft)
Uma Nova Categoria?
Musk talvez represente um "mal tecnocrático":
- Racionalidade hipertrofiada mas eticamente deformada
- Pensamento abundante mas desprovido de sabedoria
- Capacidade de abstração que permite ignorar o sofrimento concreto
- Criação de sistemas morais alternativos que justificam atrocidades
Para sua reflexão:
O caso de Musk sugere que precisamos repensar nossas categorias. Ele não é o burocrata irreflexivo de Arendt, nem simplesmente o egoísta moral de Kant. É alguém que usa o pensamento sofisticado para construir justificativas elaboradas para a indiferença ao sofrimento humano - um mal que pensa, mas pensa mal.
(Claude OPUS 4)
🍜 Bourdain, Beirute, Teerã


Foi muito interessante ver estes dois episódios antigos dos programas de Bourdain, que completaria 69 anos no dia 25 de junho. O primeiro programa se passa quase todo em Teerã (2014, logo antes do acordo que Obama estava tentando fechar) e o segundo em Beirute (2006, quando um novo conflito entre Israel e Líbano estourou, com Bourdain e sua equipe em solo libanês).
O programa no Irã é muito especial, dá um gostinho do que é o país, as pessoas, a cultura, a vida vivendo amassada em meio a tamanho conservadorismo e autoritarismo. Tem uma passagem em que Bourdain vai visitar uma ponte antiga, onde homens (sempre eles, claro) se juntam para cantar, que é muito linda (lá pelos 26 minutos). Uma música de outra esfera.
E em Beirute, um programa surreal, quando o pau da guerra começa a quebrar, e eles são transferidos para um hotel de luxo, no topo de uma montanha, com vista para toda a cidade, vários focos de fumaça e violência, enquanto os hóspedes passam dias tomando sol na piscina, esperando a evacuação. Bourdain altamente angustiado, incomodado. E a equipe sem saber se sairia daquela enrascada.
Vale a pena ver os dois programas, por motivos atuais, que eu nem preciso apontar quais, né? Sobre o Bourdain, eu não tenho muito a dizer. Nunca o acompanhei, mas sei que há uma legião grande de pessoas que sim, como a Gaía Passarelli, que escreveu o artigo que ficou ali em cima, sobre esta figura tão marcante.

Os resumos foram feitos por IA para facilitar para quem não tem tempo ou saco de ler/ver. Eu li e vi todos os conteúdos, assim como chequei os resumos. Já as traduções feitas pelo DeepL podem ter questões. Relevem, por favor.
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