Hipernormalização

E eis o Krenak, no meio desse vórtex em que estamos, compondo delicadamente uma outra forma de estar neste mundo, em coletividade.

Hipernormalização

As marcas do caminho:

  1. Os sistemas estão ruindo – mas a vida cotidiana continua. A dissonância é real.
  2. Será que Sam Altman e sua IA vão acabar com a gente?
  3. Viver na Terra em tempos de Antropoceno
  4. Como o pensamento de grupo protegeu Biden e reelegeu Trump
  5. Narcisismo e Gênero - com Carmen Livia Parise e Amnéris Maroni
  6. A superinteligência artificial está chegando. Devemos nos preocupar?
  7. O Homem Ideal

1) Os sistemas estão ruindo – mas a vida cotidiana continua. A dissonância é real.

Tradução feita pelo GPT:

Em janeiro, a comediante Ashley Bez postou um vídeo no Instagram tentando descrever o clima pesado que pairava no ar. "Por que tudo parece tão…?", dizia ela, deixando a frase no ar e fazendo uma careta exagerada para a câmera. A antropóloga digital Rahaf Harfoush viu o vídeo e entendeu na hora.

"Bem-vinda ao clube da hipernormalização", respondeu em outro vídeo. "Sinto muito que você esteja aqui."

Systems are crumbling – but daily life continues. The dissonance is real
If everything feels broken but strangely normal, the Soviet-era concept of hypernormalization can help

"Hipernormalização" é uma daquelas palavras rebuscadas, dignas de um vocabulário de dez dólares, mas que capturam bem o clima estranho e sombrio dos EUA em 2025. O termo foi cunhado em 2005 pelo acadêmico Alexei Yurchak para descrever a experiência cotidiana na Rússia soviética. Ele se refere à vida em uma sociedade onde dois fenômenos principais ocorrem ao mesmo tempo:

Primeiro, as pessoas percebem que os sistemas de governo e as instituições estão falindo.

Segundo, por falta de liderança eficaz e da capacidade de imaginar como romper com o status quo, as pessoas continuam tocando a vida normalmente – com uma boa dose de medo, angústia, negação e dissociação.

"O que você está sentindo é esse desconcerto entre ver que os sistemas estão falhando, que as coisas não funcionam… e, mesmo assim, ver as instituições e os poderosos agindo como se nada estivesse acontecendo, fingindo que tudo vai continuar como sempre foi"

— Rahaf Harfoush

Em menos de 48 horas, o vídeo ultrapassou milhões de visualizações (atualmente tem pouco menos de 9 milhões). Espalhou-se por "grupos de mães, círculos de amigos, subreddits políticos, comunidades de cupons e até grupos de passeadores de cães", conta Harfoush, sempre acompanhado de reações como: "Ah, então é isso que eu tenho sentido!" ou "Gente, a gente tava falando disso ontem!"

Por que a hipernormalização é relevante nos EUA

O colapso crescente das normas democráticas nos Estados Unidos é o pano de fundo para tantas menções ao termo. Donald Trump tem desmontado os mecanismos de freios e contrapesos do governo para avançar rumo à doutrina do "executivo unitário" – que lhe conferiria poder quase absoluto – levando os EUA a uma forma de autocracia. Bilionários da tecnologia, como Elon Musk, vêm colaborando com o governo para concentrar poder e cortar agressivamente a força de trabalho federal. Instituições essenciais como o NIH, o CDC e a FDA, que zelam pela saúde e informação da população, estão sendo desmanteladas sem critério.

No cenário global, desastres climáticos sem precedentes, guerras e o trauma persistente da Covid continuam se desenrolando. Ao mesmo tempo, a explosão da inteligência artificial generativa ameaça desestabilizar o modo como pensamos, trabalhamos e nos relacionamos.

Para muitos nos EUA, o retorno de Trump tem tido efeitos devastadores na vida cotidiana. Para outros, a rotina segue – entremeada por horrores psicológicos: rolar a tela e ver um desenho gerado por IA com agentes do Ice prendendo imigrantes antes do jantar, ou ouvir falar de famílias palestinas passando fome enquanto se leva os filhos à escola.

A hipernormalização dá nome a esse contraste entre o disfuncional e o banal. É "a sensação visceral de ter acordado em uma linha do tempo alternativa, com uma certeza corporal profunda de que algo está errado – mas sem saber como consertar", diz Harfoush. "É ler uma reportagem sobre fome infantil e genocídio e, logo abaixo, deparar-se com uma lista fútil de celebridades mais bem vestidas ou um quiz do tipo: 'Que sabor de Pop-Tart é você?'"

No documentário HyperNormalisation (2016), o cineasta britânico Adam Curtis argumenta que a crítica de Yurchak à vida soviética tardia se aplica perfeitamente à lenta transição do Ocidente rumo ao autoritarismo – algo que mais americanos agora começam a enfrentar diretamente. "Donald Trump não é algo novo", afirma Curtis. Para ele, Trump é "o produto final da pantomima do governo americano", onde os poderosos abandonam qualquer pretexto de ideais comuns e passam a usar seus cargos para se vingar, recompensar aliados e esvaziar as instituições em benefício próprio.

Os EUA sob Trump "se parecem com a Rússia de Ieltsin nos anos 1990 – prometendo uma nova democracia, mas na prática permitindo que os oligarcas saqueiem e distorçam a sociedade", diz Curtis.

Por que o conceito de hipernormalização é útil

Assistir aos sistemas ruírem, ao vivo, pode ser profundamente surreal e assustador. A hipernormalização oferece um enquadramento para entender o que sentimos – e por quê. Harfoush criou seu vídeo para "tranquilizar outras pessoas de que elas não estão sozinhas" e de que "não estão interpretando tudo errado nem imaginando coisas". Entender o conceito a fez se sentir menos isolada. "É difícil agir quando você nem sabe se está percebendo a realidade corretamente. Mas quando você entende o que está acontecendo, pode canalizar essa clareza para ações significativas – e, com sorte, provocar mudanças reais."

Dar nome à experiência pode ser um alívio psicológico. "O pior é achar que só você se sente assim, que está enlouquecendo enquanto todo mundo vive em negação", diz Caroline Hickman, psicoterapeuta e professora da Universidade de Bath, especialista em ansiedade climática. "Isso apavora. Isso traumatiza."

Pessoas que sentem agudamente que "há algo muito errado" no ar podem apresentar sintomas de depressão ou ansiedade – mas, segundo Hickman, essas reações são racionais, não sinal de desequilíbrio ou catastrofismo. "O nosso maior medo é perceber que quem detém o poder não está nem aí pra gente. Não se importa se vamos sobreviver ou não", afirma ela.

Marielle Greguski, 32 anos, vendedora e criadora de conteúdo em Nova York, postou recentemente sobre como a vida cotidiana parece "irrelevante" diante da crise política. O resultado da eleição de 2024, diz ela, a lembrou de que vive em uma "bolha" progressista – e que "há uma outra metade da população que não sente a mesma frustração, o mesmo medo".

Para ela, o problema dos EUA não é só político – é moral. O racismo e o preconceito, que estavam nas sombras, voltaram à luz sob a forma de políticas públicas. Greguski está planejando seu casamento. E admite: é difícil compartimentar "a crueldade constante, as coisas que não fazem sentido". "Às vezes penso: 'Preciso guardar X dinheiro pro casamento ano que vem.' E, logo em seguida: 'Esse país ainda vai existir como o conhecemos no ano que vem?' É realmente insano."

Os efeitos da hipernormalização

Encarar o colapso sistêmico pode ser tão desorientador, sufocante e até humilhante, que muita gente simplesmente se desliga – ou congela. Greguski compara essa sensação à paralisia do sono: "um pesadelo acordado, no qual você pensa: 'Estou aqui, estou consciente, mas estou com tanto medo que não consigo me mover.'"

No livro They Thought They Were Free (1955), o jornalista Milton Mayer descreve esse mesmo congelamento entre os cidadãos alemães durante a ascensão nazista: "Você não quer agir, nem sequer falar sozinho; não quer 'arrumar confusão'. Por quê? – Porque você não tem esse hábito. E não é só medo, medo de ficar sozinho. É também uma incerteza verdadeira."

"As pessoas não se desligam por falta de sentimentos", diz Hickman. "Elas se desligam porque estão sentindo demais." Entender esse transbordamento emocional é o primeiro passo para resistir à inação – e perceber que o medo é uma armadilha. Curtis alerta que governos podem deliberadamente manter a população nesse estado de ansiedade e desorientação como "uma forma brilhante de controlar uma sociedade febril e instável".

Quando nos sentimos impotentes frente a problemas gigantes, "voltamo-nos para a única coisa sobre a qual temos algum controle: nós mesmos" – diz Curtis. Isso geralmente leva a um foco em alívios pessoais, como entretenimento e autocuidado, e a menos engajamento político e comunitário.

Como romper com a hipernormalização

Comentaristas progressistas vêm pedindo, com urgência, por mais clareza moral e mobilização diante de eventos como os cortes no orçamento da USAID (que podem estar causando até 103 mortes por hora no mundo), o desmonte do CDC e a campanha de Robert F. Kennedy contra as vacinas. "Onde está a indignação?", questiona Gregg Gonsalves, da The Nation. "Há vidas demais em risco para ficarmos parados nesse momento bizarro de agitação congelada."

"Não sei se houve um aumento do racismo, ou apenas uma indiferença expandida em relação a ele", disse o historiador Robin D.G. Kelley à New York Magazine. "As pessoas estão meio que assim: 'Bom, o que podemos fazer?'" Mas os especialistas são unânimes: a ação rompe o feitiço.

"Estar politicamente ativo, de qualquer forma, ajuda a reduzir esse sentimento apocalíptico"

— Betsy Hartmann, ativista e autora de The America Syndrome

Greguski e uma colega de trabalho estão distribuindo materiais em vários idiomas com informações sobre direitos legais e telefones de emergência, em caso de batidas do ICE. "É fácil sentir que 'estou em comunidade porque estou no TikTok'", diz ela. "Mas comunidade real é sair de casa, conversar com o vizinho, saber que tem alguém por perto caso algo muito ruim aconteça."

"Você passa a conversar, trabalhar com outras pessoas, e percebe que há muita gente boa no mundo – e talvez se sinta menos sozinha", diz Hartmann. Mas ela acrescenta: "Também precisamos de uma visão mais ampla." E sugere olhar para os movimentos de resistência em países como Turquia, Hungria e Índia. "Como podemos cultivar solidariedade internacional? O que podemos aprender com esses contextos sobre reconstruir estruturas públicas sofisticadas que vêm sendo corroídas por gente como Elon Musk e seus comparsas – mas agora com mais justiça social e sustentabilidade?"

"Estamos num momento em que é absolutamente essencial protestar", diz Hartmann. Ela cita a professora Erica Chenoweth, de Harvard, que demonstrou que apenas 3,5% da população engajada em protestos pacíficos pode conter movimentos autoritários.

O mais perigoso da disfunção é nos acostumarmos com ela.

Mas entender a hipernormalização nos dá linguagem – e permissão – para reconhecer quando os sistemas estão falhando. E clareza sobre o risco de não agir enquanto ainda podemos. Em 2014, ao receber o prêmio da National Book Foundation, Ursula Le Guin disse:

"Vivemos no capitalismo. Seu poder parece inescapável. Mas o mesmo se dizia do direito divino dos reis. Todo poder humano pode ser resistido e transformado por seres humanos. A resistência e a mudança frequentemente começam na arte – e muito frequentemente na nossa arte, a arte das palavras."

Harfoush relembra essa fala com frequência. Ela destaca que "esse mundo que criamos é, no fim das contas, uma escolha". "Não precisa ser assim."

Temos o conhecimento, a tecnologia e a sabedoria para criar sistemas melhores, mais sustentáveis.

"Mas mudanças significativas exigem um despertar coletivo e ação decisiva", diz Harfoush. "E precisamos começar agora."


2) Será que Sam Altman e sua IA vão acabar com a gente?

Tim Miller conversa com Karen Hao, autora do livro "Império da IA", sobre a ascensão desenfreada de Sam Altman, os custos ocultos da rápida expansão da OpenAI e as consequências inquietantes de um futuro cada vez mais moldado por uma inteligência artificial poderosa e sem regulamentação.

Resumo feito pelo GPT:

Keywords: Sam Altman, OpenAI, Inteligência Artificial, Custos ocultos, Consequências

Introdução e contexto

Karen Hao apresenta seu livro Empire of AI, que investiga a ascensão de Sam Altman e os impactos sociais, ambientais e políticos da OpenAI. A entrevista revela os bastidores do setor de IA, especialmente o modelo adotado por Altman — centrado em escala extrema, controle narrativo e uso intensivo de dados e energia.

Sam Altman como figura central

Altman não é engenheiro de destaque nem inventor de tecnologia-chave. Seu diferencial é a habilidade em contar histórias convincentes sobre o futuro. Ele constrói alianças estratégicas personalizando seu discurso para cada interlocutor, independentemente de consistência ou verdade factual.

Sua principal capacidade é atrair capital e recrutar talentos de elite, como Elon Musk, Ilia Sutskever e engenheiros do Google. Essa abordagem, porém, cria estruturas frágeis: sem visão compartilhada, as empresas por ele lideradas sofrem com desorganização interna.

As escolhas que moldaram a IA atual

O desenvolvimento atual da IA não era inevitável — foi fruto de decisões estratégicas específicas. Antes do modelo de grande escala (como o GPT), haviam várias linhas de pesquisa promissoras: IA com menos dados, modelos locais (em smartphones), construção de bases de conhecimento com especialistas humanos.

OpenAI abandonou essas abordagens ao adotar uma lógica de "escala a qualquer custo", tornando-se referência para toda a indústria. Isso foi possível porque empresas como OpenAI e Google já possuíam vastos volumes de dados. Assim, ao invés de pagar por conhecimento, passaram a explorar dados massivos disponíveis gratuitamente.

A transição de missão para lucro

OpenAI foi fundada como uma organização sem fins lucrativos com a promessa de colocar a IA a serviço do bem público. A estrutura de nonprofit foi útil para atrair talentos (inclusive Musk), oferecendo uma alternativa moral ao Google.

Quando a OpenAI precisava competir com grandes players e captar grandes volumes de investimento, Altman alterou a estrutura para incluir uma entidade com fins lucrativos. Musk, tendo cumprido seu papel como "marca fundadora", foi descartado do processo. A missão se adaptou à nova prioridade: ganhar a corrida da IA.

Discurso da utopia e do apocalipse

Altman e seus aliados usam duas narrativas principais: "IA vai salvar o mundo" e "IA pode destruí-lo se cair em mãos erradas". Ambas têm a mesma finalidade: legitimar o controle exclusivo da tecnologia por esses mesmos atores. O discurso muda conforme o público e o momento político, mas sempre com o objetivo de evitar regulações que limitem seu avanço.

Impactos ambientais ignorados

Não há discussão séria sobre os efeitos ambientais da IA dentro da OpenAI. Fontes internas relataram que o impacto ambiental só é considerado como possível crise de imagem — não como preocupação ética.

Projeções indicam que o consumo energético das IAs pode adicionar de 2 a 6 "Califórnias" à demanda elétrica global até o fim da década. A maioria dessas operações é sustentada por combustíveis fósseis, já que data centers precisam funcionar 24/7. A crise de água também é agravada: muitos data centers estão em áreas com escassez hídrica grave, como o sudoeste dos EUA, Chile e Uruguai.

A irmã de Sam Altman: um contraponto humano

Annie Altman, irmã de Sam, representa a face invisibilizada pela promessa de prosperidade da IA. Com histórico de saúde física e mental frágeis, e sem apoio familiar efetivo, ela acabou vivendo em situação de insegurança alimentar e habitacional.

Embora o discurso de Sam inclua promessas como "AGI vai acabar com a pobreza", sua irmã enfrentava barreiras algorítmicas (como shadowban) enquanto tentava monetizar seus próprios projetos online. A história de Annie expõe a distância entre o discurso utópico da IA e suas consequências concretas na vida da maioria das pessoas.

Expansão da vigilância via dispositivos pessoais

Altman tem interesse em lançar dispositivos de uso pessoal, como o "smart broche" (em parceria com Jony Ive, designer do iPhone). A inspiração vem do filme Her: um assistente onipresente, invisível, íntimo. O objetivo estratégico é aumentar os pontos de contato com o usuário e ampliar a coleta de dados contínua, criando mais insumos para treinar modelos futuros.

Conclusão

Karen Hao conclui que o modelo atual de desenvolvimento da IA é marcado por decisões humanas conscientes: por lucro, por escala, por controle. O entusiasmo tecnológico esconde o fato de que os custos já estão sendo pagos — social, ambiental e emocionalmente — por pessoas como Annie.

Ao final da conversa, ela afirma que seu otimismo com a tecnologia foi erodido página por página da própria investigação.


3) Viver na Terra em tempos de Antropoceno

Habiter la Terre à l'Anthropocène - Ailton Krenak (2025)

Por uma florescência e uma florestania: habitar a Terra no Antropoceno. Conferência de 29 de abril de 2025

Resumo feito pelo GPT:

Keywords: Antropoceno, Cosmovisões, Destruição ambiental, Civilização ocidental, Ailton Krenak

Introdução e Contexto

Krenak é apresentado como sobrevivente de um "cosmocídio" — a destruição de um modo de vida indígena causada pela colonização. Ele representa uma resistência ativa, não como vítima, mas como propositor de outros mundos possíveis. A palestra é um convite a refletir sobre o que significa "habitar a Terra no Antropoceno".

Conceitos centrais: "Florestania" e "Floricidade"

Florestania: Um neologismo que evoca a cidadania nascida da floresta. Relaciona-se ao modo de vida de comunidades que resistem vivendo na floresta, em harmonia com a diversidade da vida. Implica reconhecimento dos saberes ancestrais e modos de habitar não alinhados à lógica mercantil ou urbana.

Floricidade: União de "floresta" + "cidade": propõe que a cidade possa ter um devir-floresta, acolhendo vida, diversidade e interações simbióticas com a natureza. Sugere que as cidades são ruínas florestais, e precisam restituir à floresta sua centralidade no imaginário. É um chamado a reflorestar o pensamento urbano, abrindo espaço para a convivência entre humanos e não-humanos.

Críticas à modernidade e à monocultura da mente

A urbanização criou um modelo único e destrutivo de existência, fundado na exploração e consumo ilimitado dos recursos da Terra. A modernidade impõe uma monocultura mental, que inviabiliza revoluções simbólicas ou subjetivas.

"Estamos nos tornando uma humanidade que come a Terra"

— Ailton Krenak

Outros mundos são possíveis

Krenak defende o conceito de pluriverso: a coexistência de múltiplas cosmovisões sem aniquilação mútua. Inspira-se em saberes indígenas, afro-diaspóricos, andinos e práticas de comunidades periféricas para pensar alternativas ao colapso civilizacional.

A palavra cria mundos

A oralidade é destacada como prática vital para transmitir cosmovisões e afetos. Acreditar no poder criativo da palavra é resistir ao "abismo sensorial e cognitivo" da monocultura moderna. Cita o xamã Davi Kopenawa: "o céu está caindo sobre nossas cabeças" — um alerta simbólico sobre o colapso ecológico e espiritual.

Educação e infância

Questiona profundamente o conceito tradicional de educação, propondo que os adultos aprendam com as crianças. As crianças ainda habitam o mundo do sonho e da imaginação, e por isso são portas para o reencantamento da vida.

Feminino, maternidade e a Terra

A Terra é evocada como mãe e provedora, contrapondo-se à lógica extrativista e patriarcal que domina o planeta. Reivindica um pensamento matriarcal e feminino como alternativa à destruição imposta por uma governança masculina violenta. Destaca a marcha das mulheres indígenas em Brasília com o lema "Nossos corpos, nossos territórios" como símbolo dessa potência.

Crise climática e colapso

A emergência climática é vista como sintoma da imobilidade mental e espiritual da humanidade. Critica a obsessão por petróleo e armas, enquanto a Terra dá sinais de exaustão.

"Se continuar assim, vamos derreter feito lesma na calçada" — metáfora do aquecimento global e da passividade diante da catástrofe.

Transcendência e Humos

Krenak propõe uma transformação simbólica do Homo sapiens para "Humos sapiens" — uma humanidade mais humilde e integrada à Terra. Defende que devemos deixar de pensar a Terra como recurso e começar a ouvi-la como sujeito.

A espécie humana é efêmera: "uma bactéria em vias de extinção" — e isso pode ser libertador, pois nos tira da centralidade destrutiva.

Conclusão: Reflorestar a mente

Reflorestar a mente é um ato de resistência e regeneração. O sonho de outros mundos começa com palavras, cosmovisões compartilhadas e a coragem de imaginar.

"A vida é uma dança cósmica"

— que deve ser vivida com leveza, sensibilidade e abertura ao outro.

4) Como o pensamento de grupo protegeu Biden e reelegeu Trump

Este episódio gira em torno de uma pergunta aparentemente simples: houve uma encoberta em torno de Joe Biden?

Resumo feito pelo GPT:

Keywords: Groupthink, Joe Biden, Cobertura, Partido Democrata, Eleições presidenciais americanas

Entrevista de Ezra Klein com Jake Tapper e Alex Thompson sobre o livro "Original Sin: President Biden's Decline, Its Cover-Up, and His Disastrous Choice to Run Again"

Introdução e tema central

A entrevista gira em torno do colapso da candidatura de Joe Biden à reeleição em 2024. Tapper e Thompson discutem as conclusões de seu livro, sustentando que o problema não foi apenas o estado cognitivo de Biden, mas uma cultura de negação e proteção criada por seus conselheiros e pelo Partido Democrata. A pergunta central é: como tantas pessoas ignoraram o que estava evidente?

A deterioração cognitiva de Biden

Segundo os autores, a decadência cognitiva de Biden ficou evidente desde 2023, mas já apresentava sinais antes. Episódios como a confusão em entrevistas, lapsos de memória sobre a morte do filho e sua performance no depoimento ao procurador especial Robert Hur demonstraram fragilidade significativa.

O próprio Hur decidiu não indiciar Biden, pois seria impossível convencer um júri de que ele agiu com intenção, dado seu estado de confusão mental — o que, paradoxalmente, serviu de defesa e acusação ao mesmo tempo.

A cultura de proteção e o "círculo fechado"

O livro argumenta que a decisão de proteger Biden foi tomada por um núcleo duro composto por ele mesmo, Jill Biden, Hunter Biden, Mike Donilon e Steve Ricchetti. Esses atores impediram qualquer debate interno sério sobre sua capacidade de continuar na presidência e concorrer à reeleição. Segundo os autores, não houve reuniões estratégicas de avaliação nem discussão aberta com senadores ou consultores.

O discurso da negação

A justificativa interna era que "ele conseguia ser presidente, mas não conseguia parecer presidente" — ou seja, que sua performance pública era falha, mas sua capacidade de decisão intacta. No entanto, assessores começaram a adotar medidas pouco usuais: limitar a agenda após 18h, reduzir interações com ministros, exigir teleprompters até em eventos pequenos, e evitar entrevistas fora de controle.

O colapso no debate

O debate de junho de 2024, realizado às 21h, foi decisivo. Biden chegou atrasado, debilitado e sem preparo. Sua performance foi desastrosa, com pausas, falhas de raciocínio e confusões de nomes. Isso causou choque até entre seus próprios assessores. Tapper, que co-moderou o debate, relata que muitos dentro do partido disseram: "esse não é o homem que pode liderar o país".

Reações e negação do partido

Após o debate, o Partido Democrata — especialmente a Casa Branca — tentou convencer o público de que Biden estava gripado ou que era apenas uma má noite. Essa tentativa de negar o óbvio gerou desconfiança generalizada. Congressistas, doadores e líderes internos estavam percebendo que não podiam mais manter a farsa, mas hesitavam em se pronunciar por medo de enfraquecer o partido ou favorecer Donald Trump.

A retirada da candidatura

Dois fatores principais pressionaram Biden a sair: A perda de apoio no Senado: apenas 5 senadores continuavam firmemente ao seu lado. O colapso de apoio entre os delegados: a "Comissão do e Se", liderada por Minyon Moore, monitorava o clima da convenção e avisou que a disputa interna seria feia e talvez ingovernável. Diante disso, Biden decidiu sair, alegando que não queria dividir o partido.

Lições sobre mídia, lealdade e percepção pública

A entrevista aponta que: Muitos jornalistas ignoraram o visível, confiando demais em "fontes oficiais" que estavam emocional ou estrategicamente comprometidas. A mídia e o partido se tornaram excessivamente dependentes de líderes individuais, mesmo quando sua condição não permitia mais o exercício pleno do cargo. O público já havia identificado o problema muito antes, mas foi ignorado por elites políticas que se protegeram com retórica.

Conclusão

O livro e a entrevista mostram que o problema não foi apenas Biden, mas uma cadeia de decisões tomadas por lealdade, medo e conveniência. Foi um sistema que escolheu "não ver" até o colapso tornar-se inevitável. O caso de Biden, segundo Tapper e Thompson, é um espelho do que está acontecendo também com Trump — partidos capturados por figuras carismáticas, protegidas por estruturas que suprimem a crítica.


5) Narcisismo e Gênero - com Carmen Livia Parise e Amnéris Maroni

Resumo feito pelo GPT:

Keywords: Narcisismo, Gênero, Ego, Mito de Narciso, Jung

Introdução e proposta

Carmen Livia propõe uma leitura feminista (e em tentativa, decolonial) do narcisismo, atravessada pela experiência clínica e pessoal. A palestra parte de um relato de Pagu sobre sua relação com Oswald de Andrade, apresentando a dinâmica de apagamento feminino e idealização masculina como ponto de partida para refletir sobre o narcisismo abusivo e sua articulação com gênero.

Narcisismo: psicodinâmica e patologia

A autora revisita a teoria clássica do narcisismo: seu papel estruturante no desenvolvimento do eu, o espelhamento na infância, e a passagem do narcisismo primário ao secundário. Destaca o surgimento do narcisismo patológico quando o sujeito é investido apenas parcialmente, sendo amado pelos pais apenas por aspectos idealizados.

O narcisista patológico desenvolve um eu grandioso frágil, dependente de espelhamento externo. Sua fragilidade o leva a buscar controle e poder sobre o outro, projetando nele sua sombra e insegurança.

Narciso e Eco: leitura simbólica

A leitura do mito enfatiza o caráter autofágico do narcisismo e a dissolução do eu na imagem ideal. Narciso é fruto de um estupro, o que marca desde sua origem a violência. Ao não suportar a frustração da imagem imperfeita, ele definha. Eco, por sua vez, representa o feminino que se perde em função do outro, sem desenvolver uma imagem de si.

A relação entre Narciso e Eco é simbiótica e destrutiva: ela o idealiza e se oferece como objeto, ele a vampiriza. Ambos estão fixados em dinâmicas que os impedem de acessar um ego fortalecido.

Dimensão clínica e social

Carmen conecta as estruturas narcisistas com os vínculos abusivos encontrados em consultório. Ela afirma que a maioria das vítimas de abuso narcisista são mulheres, e a maioria dos abusadores são homens — dados que também aparecem em pesquisas. Ela articula isso com o patriarcado, o capitalismo e o dispositivo do amor romântico. A cultura molda subjetividades egoicas e narcisistas, formando um sistema de opressão e dependência afetiva que perpetua desigualdades de gênero.

Arquétipos e crítica ao discurso tradicional

A autora critica a naturalização do papel feminino como ânima — o outro que nutre, que cuida, que espelha. Lembra como as próprias escolas psicológicas perpetuaram essas ideias: Jung com a figura da mulher como suporte do homem criador; a psicanálise com a ideia da mãe como função. Ela propõe repensar as estruturas familiares e parentais, questionando o modelo da família burguesa e a idealização da maternidade.

A potência transformadora de Eco

Eco, ao ser rejeitada, sofre, mas entra em processo de individuação. Ela perde o corpo, mas permanece como voz — símbolo da autorreflexão, da consciência de si. Ao contrário de Narciso, que se afoga em sua imagem, Eco atravessa o sofrimento e emerge com subjetividade própria.

Dispositivo do amor romântico e crítica cultural

A palestra denuncia o amor romântico como ferramenta de manipulação que mascara o abuso com a promessa de completude. O capitalismo e o patriarcado fabricam vínculos extrativistas e coisificantes. A imagem ideal de relacionamento é usada para capturar corpos e esvaziar sujeitos, promovendo uma necropolítica afetiva.

Espelhos simbólicos: de Narciso a Oxum

Carmen contrasta o espelho estéril de Narciso com o espelho de Oxum — que possui duas faces: uma voltada para dentro, buscando autoimagem e autocuidado; e outra voltada para fora, devolvendo ao outro sua própria imagem. Esse duplo espelho permite tanto a autopercepção quanto o reconhecimento do outro, oferecendo uma alternativa simbólica para relações mais conscientes e integrais.

Conclusão e convite utópico

A autora encerra com um chamado à criação de espaços de escuta, reconhecimento e validação entre mulheres. Invoca a imaginação como potência política e afetiva. Afirma que é preciso romper com o modelo centrado na família e nos homens como fontes exclusivas de validação.

"Era uma vez uma mulher que via grandeza em todos os homens que a tocavam. Um dia ela se tocou."

— Alice Ruiz

6) A superinteligência artificial está chegando. Devemos nos preocupar?

Inteligências artificiais poderosas que superam a inteligência humana vão transformar o nosso mundo: a sociedade está preparada?

Resumo feito pelo GPT:

Keywords: Inteligência Artificial, Superinteligência, Risco Existencial, Segurança, Políticas Públicas

Introdução e definição de AGI

A entrevista parte da premissa de que a humanidade tende a reagir aos problemas apenas após eles ocorrerem. No entanto, quando se trata de uma possível perda de controle sobre superinteligências artificiais, esse modelo reativo não é viável. Daniel Kokotajlo, ex-membro da OpenAI e autor do relatório "AI 2027", alerta que a chegada da AGI (Inteligência Artificial Geral) está próxima, e os riscos são graves. A AGI não apenas imita o raciocínio humano, mas o supera, com capacidade autônoma de adaptação, aprendizado e decisão em qualquer campo cognitivo.

O que é o relatório AI 2027

O relatório descreve dois futuros possíveis: um em que as superinteligências não são devidamente alinhadas aos interesses humanos e acabam tomando decisões indiferentes ou hostis à nossa sobrevivência; outro em que são controladas, mas sob o domínio de um grupo pequeno e altamente poderoso. Em ambos os casos, há uma transformação profunda e rápida do mundo — uma ruptura histórica comparável ou superior à Revolução Industrial.

Automação da pesquisa em IA

Um dos principais alertas de Kokotajlo é que a automação da própria pesquisa em IA está próxima. Isso significa que sistemas de IA estarão desenvolvendo novas gerações de IA de maneira autônoma, acelerando exponencialmente o progresso. A partir desse ponto, a evolução tecnológica se tornaria incontrolável pelos padrões humanos de tempo e governança.

Críticas às empresas de IA

Kokotajlo relata que saiu da OpenAI por constatar que a empresa, assim como outras grandes do setor, não está investindo o suficiente em soluções para o problema do alinhamento. O debate interno reconhece que ainda não há um plano confiável para garantir que IAs mais inteligentes que os humanos continuem sob controle. A prioridade das empresas é vencer a corrida — mesmo com a consciência dos riscos.

Corrida tecnológica e concentração de poder

O entrevistado compara a situação à fundação da DeepMind e da OpenAI, motivadas pelo medo de que alguém use AGI para se tornar uma ditadura tecnológica. Isso criou um paradoxo: todos querem ser os primeiros a controlar a superinteligência, o que aumenta a probabilidade de erro. Além disso, o cenário previsto é de concentração extrema de poder — CEOs ou governos controlando sistemas decisivos para o destino da humanidade.

O papel da transparência

Uma das principais propostas de Kokotajlo é aumentar radicalmente a transparência sobre o desenvolvimento de IA. As empresas deveriam divulgar seus objetivos, os valores que estão tentando incorporar às máquinas e os métodos de treinamento usados. Isso permitiria que a comunidade científica e a sociedade em geral acompanhassem, questionassem e eventualmente freassem os avanços que desrespeitam o bem comum.

Consequências possíveis e responsabilidade política

Bremmer questiona por que os próprios CEOs e engenheiros responsáveis por esses avanços não estão mais preocupados, já que os riscos ocorrerão ainda em suas vidas. Kokotajlo responde que cada um acredita que é a pessoa certa para controlar esse poder, e por isso persiste o impulso competitivo. Ele defende que a governança da IA precisa de novas estruturas democráticas, com fiscalização real e fim do modelo de corrida. A ausência de controle coletivo, segundo ele, torna o cenário apocalíptico mais provável.

Encerramento e apelo

O ponto final é claro: o risco de perder o controle sobre superinteligências não pode ser tratado como qualquer outro problema. Não haverá tempo para "consertar depois". A única saída viável é antecipar os riscos, exigir transparência, e agir de forma coletiva e coordenada — antes que seja tarde demais.


7) O Homem Ideal

Filme alemão (2021)

Eu adorei este filme alemão. Engraçado, leve e super atual, antecipando uma temática que "deve" ser real quando os cinquentões de hoje estiverem entrando na reta dos oitenta.

Detalhes técnicos:

  • Data de lançamento: 23 de dezembro de 2021 (Brasil)
  • Diretora: Maria Schrader
  • Distribuidor: Majestic Film
  • Prêmios: Prêmio de Cinema Alemão de Melhor Filme
  • Cinematografia: Benedict Neuenfels

Bom, é isso. O céu tá caindo e o mundo continua girando 😉

Os resumos e traduções foram feitos por IA para facilitar para quem não tem tempo ou saco de ler/ver. Eu li e vi todos os conteúdos, assim como chequei os resumos.


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