Coração

Os tempos/mundos estão se sobrepondo de muitas formas. Um sanduíche que pode esmagar ou uma brecha pra gente respirar? O exercício é saber transitar. E aprender a se proteger.

Coração

🌈 Caminhando

Separar as coisas me ajuda a organizar o viver.
Cada coisa no seu canto, cada experiência na sua própria casa.
Gosto de separar o mundo em fases também, me ajuda a navegar.
Na verdade, não é que eu goste, é que o mundo é assim.
Eu é que demorei um pouco para entrar nessa dança.

Ciclos eternos que se regeneram e se repetem.
Parecem os mesmos, só que não são.
Por um lado, sim, por outro, não.

Essa estrutura da separação, por vezes, me causa problemas.
Mas isso é isso? E aquilo é isso? Nãooooo.
Isso não se mistura com “aquisso”.

E assim, vou.
Separando.
Mas unindo também.
Coração-mente. Cérebro-intestino.

O inconsciente fala, eu abro a orelha e peço legenda.
Tem hora que entendo, tem hora que como mosca.
Tem hora que tremo nas bases. Tem hora que me emociono.
Eu sonho, meu corpo sente.

Então, esta semana, resolvi separar.
Em quatro atos. Porque me ajuda a acalmar.

A César o que é de César...
A Deus o que é de Deus...
Mas afora César e Deus, o que são estas figuras?

No primeiro ato, força, consciência, amor, solidariedade e inteligência.
No segundo ato, tristeza, reconhecimento, impotência e crueldade.
No terceiro ato, soberba, megalomania, mediocridade e eugenia.
No quarto ato, vida que segue. Consegui atravessar.

Todos estes tempos são mundos.
Eles estão se sobrepondo constantemente, nesta vida doida em que estamos.
Por isto é bom saber separar.
Para saber se proteger. Reconhecer e continuar.

Eu me alimento no mundo primeiro.

✨ Primeiro Ato - LUZ
O coração pulsa

🌍 A sabedoria Obuntu Bulamu de Sylvia Tamale

💡
Syvia Tamale é uma jurista, acadêmica e ativista feminista de Uganda, conhecida por seu trabalho pioneiro em sexualidade, direitos das mulheres e justiça social na África. Professora na Faculdade de Direito da Universidade de Makerere, foi a primeira mulher decana da instituição.

Tamale é uma das principais vozes do feminismo decolonial africano, articulando uma crítica ao patriarcado e ao legado colonial a partir de uma epistemologia africana enraizada na filosofia Ubuntu. Em obras como Decolonization and Afro-Feminism, propõe a recuperação dos sistemas de conhecimento e valores filosóficos africanos como base para um modelo alternativo de justiça, cidadania e dignidade.

A palestra da Sylvia é muito forte. Ela é super bem-humorada, sagaz e precisa em suas colocações e diagnósticos. Ao mesmo tempo, transborda paciência e resiliência. Meio um aconchego, sabe?

Toda vez que se fala de descolonização do saber, eu penso no processo de conscientização que começa, entre outras coisas, por entender quais são as regras invisíveis que nos pautam.

Existem regras que vêm das estruturas culturais, ancestrais e coletivas, entranhadas em carne viva, e existem regras que vêm das nossas estruturas mais íntimas, familiares, grudadas lá nas cartilagens dos ossos.

Todo esse processo de consciência de que a Sylvia fala, como única saída, me acende. É um assunto que me anima, me diz respeito.

Ela tem uma sabedoria que é bem visível e gostosa. Plural, afeita ao movimento. Tanto que ela tem o cuidado de ressaltar: é preciso evitar que o pensamento decolonial se torne uma nova ortodoxia elitista. Porque a gente adora um novo conjunto de regras, não é mesmo?

Se você quiser ir direto para o ponto em que ela responde às perguntas dos alunos, pra sacar essa forma de que estou falando, clica aqui.

Ubuntu é a chave. Se a gente agir a partir dessa filosofia, com esses valores e essa consciência, mesmo aos trancos e barrancos, fica mais suave de atravessar, e mais amoroso.

Fiquei pensando que, talvez, na segunda metade deste século, ou, quem sabe, no próximo, tenhamos uma União Africana nos moldes da União Europeia. Sylvia propõe um panafricanismo porque entende, com toda razão, que as 54 nações do continente, juntas, terão sempre muito mais força para se relacionar com o mundo. As nações africanas são muito novas. Em 2025, Uganda completará 63 anos de independência.

Na sequência, um resuminho e a palestra toda traduzida para você baixar, se preferir ler.

A colonialidade do saber

  • O imperialismo ocidental impôs uma narrativa hegemônica que define a forma “correta” de ser humano.
  • Essa visão se naturalizou por meio de instituições como educação, mídia, religião, lei e museus, operando mais pelo consentimento do que pela coerção.
  • A “grande mentira” marginaliza as epistemologias africanas e reconfigura as subjetividades e o imaginário coletivo desde a infância (ex.: alfabeto escolar com símbolos irrelevantes para o contexto africano).

A educação como ferramenta de dominação

  • O currículo escolar é eurocêntrico e ignora a história e o conhecimento africanos (ex.: revolução haitiana, genocídio dos Herero e Nama).
  • A universidade africana ainda funciona como centro de reprodução colonial — valorizando teoria sobre prática, ciência sobre arte, masculinidade sobre feminilidade.
  • Tamale propõe uma educação inspirada em Paulo Freire, com pedagogias participativas e valorização das formas africanas de aprendizagem (narração oral, parábolas, poesia, teatro comunitário).
  • A produção de conhecimento deve ser desmercantilizada, acessível e conectada às comunidades.

O tempo como construção colonial

  • O conceito de “tempo linear e produtivo” é uma invenção colonial e capitalista que mercantiliza o cotidiano.
  • A crítica à “hora africana” revela o quanto a noção ocidental de pontualidade é usada como ferramenta de julgamento moral e civilizatório.
  • Tamale defende um retorno às concepções africanas de tempo: espiralado, relacional, ecológico, ligado aos ciclos da natureza e à continuidade entre ancestrais, vivos e não nascidos.

A solidariedade comunitária Afro-Ameríndia

  • A ideia de desenvolvimento como progresso linear (medido por PIB, industrialização e mercado livre) é ineficaz e nociva.
  • O modelo neoliberal aprofunda a dependência, o endividamento e a desigualdade social nos países africanos.
  • Tamale aponta como alternativa o paradigma do “Vivir Bien” (VVABN) latino-americano, que valoriza a vida coletiva, harmonia com a natureza e solidariedade comunitária — em sintonia com o Ubuntu africano.

Ubuntu como epistemologia e projeto político

  • Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”. Valoriza o bem comum, a interdependência e a dignidade coletiva.
  • Serve de base para um modelo de justiça e cidadania descoloniais.
  • Convida à superação do individualismo liberal e da obsessão com crescimento material.

Gênero e sexualidade na epistemologia africana

  • O colonialismo impôs à África uma visão binária, patriarcal e heteronormativa do gênero.
  • Sociedades africanas tradicionais reconheciam formas flexíveis e pluralistas de gênero (ex.: “filhas masculinas” e “maridos femininos” entre os Igbo).
  • Defende a valorização de estruturas multigênero e da fluidez sexual presentes nas cosmologias africanas, com base em valores de solidariedade e inclusão do Ubuntu.
  • Propõe uma crítica feminista interseccional e pós-queer, conectada às práticas culturais africanas e não subordinada ao liberalismo ocidental.

Propostas para descolonização africana

  • Reinventar a universidade africana como espaço anticolonial, anticapitalista, antissexista e não elitista.
  • Valorizar saberes de camponeses, curandeiros, artistas, griôs e líderes comunitários, criando sinergias entre conhecimento acadêmico e popular.
  • Expandir publicações de acesso livre e formas criativas de difusão (TikTok, mídias sociais, teatro, música).
  • Promover um panafricanismo radical liderado pelos jovens, focado na transformação estrutural e epistêmica.
  • Evitar que o pensamento decolonial se torne uma nova ortodoxia elitista.

O Museu como espaço de violência epistêmica

  • Museus ocidentais congelam e descontextualizam as culturas africanas, reforçando hierarquias raciais e coloniais.
  • Artefatos são exibidos como relíquias exóticas, não como manifestações de civilizações vivas.
  • A restituição de peças saqueadas é feita com condições paternalistas, como o “empréstimo compartilhado”.
  • A museologia ocidental precisa ser substituída por práticas antirracistas, éticas e contextualizadas, devolvendo o protagonismo aos povos representados.

 Crítica ao Discurso dos Direitos Humanos

  • O arcabouço dos direitos humanos é limitado, liberal e não protege verdadeiramente as populações negras, pobres, LGBTQIA+ ou com deficiência.
  • Surgiu para proteger o comércio e a propriedade, não para garantir justiça social.
  • Tamale propõe ir além da linguagem dos direitos humanos e pensar em modelos alternativos de justiça enraizados em cosmovisões africanas.

Mudança exige autoconsciência

  • A responsabilidade de descolonizar cabe aos próprios africanos, especialmente à juventude, pois os líderes atuais frequentemente operam como agentes do neocolonialismo.
  • A mudança exige autoconsciência, ruptura epistemológica e ação política coordenada.
  • “A é para África”, diz Tamale — um novo começo simbólico na alfabetização do futuro africano.

🌱 Deixar o mundo morrer e habitar outros mundos

Já deu pra perceber que o Krenak e o Viveiros de Castro são queridinhos neste espaço, né?

Esta conversa dois dois começa como "quem não quer nada", eles vão papeando e a coisa vai tomando uma forma que me encaminhou para o tema sobre o qual escrevi semana passada: conviver com a realidade das escolhas da humanidade. Aceitar a morte, a decadência, a crise do nosso mundo.

E, claro, lembrar que os povos originários de todos os continentes foram dizimados e colonizados (em tantos sentidos) pelo povo branco, europeu, sempre me faz ressignificar esta morte.

Primeiro, eles não foram extintos, sobreviveram. E suas tradições e sabedorias estão vivas. Elas fazem, inclusive, parte dos raios que podem nos ajudar. Viveiros de Castro diz que existem mais de 370 milhões de indígenas na Terra. É muita gente.

Segundo, significa que não somos especiais, este sofrimento não é exclusividade nossa. Civilizações morrem, acabam. Nosso apocalipse não é tão importante assim. Os povos originários criaram novos modos de existência. Criaram novos mundos, novas formas, num mundo dizimado. É um senhor aprendizado.

Krenak toca num ponto essencial:

“Eu costumo dizer que a gente precisa expandir a nossa subjetividade a ponto de poder habitar esses mundos dos quais a gente pode saltar de paraquedas coloridos.”

Ele não está falando da realidade compartilhada, concreta. De soluções para a crise climática, para a violência, para as guerras. Ele sabe que o buraco é mais embaixo e que o céu está caindo. Ele está falando de novas formas de ser, sentir e criar. Mundos dentro de mundos.

Se você for assistir, repare no momento em que Krenak começa a movimentar o chocalho, o assunto que Viveiros está abordando e como a energia muda.

Uma conversa sobre o fim de mundos

Ailton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro dialogam sobre as convergências entre a ciência moderna e a sabedoria indígena, especialmente diante da crise ambiental e do colapso do mundo como conhecemos. Eles usam a metáfora do maracá (chocalho indígena) como um “acelerador de partículas”, comparando o papel do instrumento na comunicação com os espíritos ao papel dos aceleradores de partículas na física ocidental, que buscam desvendar os segredos da matéria. Para os indígenas, o maracá revela os segredos do espírito.

A conversa aborda:

• A aceleração do tempo e a sensação de que o mundo está “fora do eixo”, com mudanças climáticas e a perda de referências naturais.

• A diferença entre o pensamento “selvagem” (não domesticado, atento ao sensível e ao concreto) e o pensamento científico ocidental (abstrato, matemático).

• A crítica à separação radical entre ciência e política na modernidade, enquanto para os povos indígenas toda relação com a natureza é também política.

• O papel dos povos indígenas como guardiões da biodiversidade: embora sejam apenas 6% da população mundial, protegem 80% da biodiversidade restante.

• A ideia de que os povos indígenas são “especialistas no fim do mundo”, pois já sobreviveram ao colapso de seus próprios mundos desde a colonização, reinventando-se e criando novos modos de existência.

• A crítica ao capitalismo, que depende da criação constante de necessidades e da exploração de recursos, e à dificuldade de imaginar alternativas sistêmicas.

• A noção de que o futuro pode ser ancestral: a memória e a sabedoria dos ancestrais são sementes para possíveis futuros.

• Reflexões sobre a vida como algo que transcende o humano, presente em tudo, e a necessidade de expandir nossa subjetividade para habitar outros mundos possíveis.

A conversa é permeada por metáforas poéticas e críticas sociais, propondo que, diante do colapso, é preciso aprender com os povos indígenas a criar novos mundos a partir das ruínas do antigo, valorizando a ancestralidade, a sensibilidade e a relação política com a Terra.

🦅 Wóksape: a sabedoria e a bronca Lakota de Russell Means

Discurso de Russell Means, índio Lakota, em julho de 1980
“A tradição materialista europeia de desespiritualizar o universo é muito similar ao processo mental que conduz à desumanização de outra pessoa.”
💡
Russell Means foi um ativista, intelectual e artista do povo Lakota Oglala, conhecido por sua atuação na defesa dos direitos indígenas nos Estados Unidos. Figura central do American Indian Movement (AIM), ganhou notoriedade internacional pela ocupação de Wounded Knee em 1973.

Ao longo da vida, articulou críticas contundentes ao colonialismo interno norte-americano, defendendo a soberania das nações indígenas e o resgate das cosmologias nativas como fundamentos éticos e políticos. Em sua visão, a sabedoria dos povos originários não era apenas resistência, mas um modelo alternativo de convivência com a Terra e entre os seres.

Viveiros de Castro fala sobre este discurso do Russell no meio da conversa com Krenak, lembrando que ele havia previsto a catástrofe em que estamos.
Eu já tinha ouvido falar deste Mestre Lakota e sua sabedoria.
Eu tenho uma ligação especial com a espiritualidade e a cultura dos povos originários da América do Norte. Os considero como luminares na história da raça humana.
O que Russell diz sobre a catástrofe:

Há outro caminho. Há o modo tradicional Lakota e os modos dos povos indígenas americanos. É o caminho que sabe que os humanos não têm direito de degradar a Mãe Terra, que sabe que há forças além do que qualquer mente europeia já concebeu, de que os humanos precisam estar em harmonia com todas as relações ou as relações eventualmente irão eliminar a desarmonia.

Uma ênfase assimétrica nos humanos pelos humanos – a arrogância europeia de agir como se estivessem além da natureza de todas as coisas relacionadas – pode resultar somente em uma total desarmonia e em um reajuste que corte os humanos a seu tamanho, dê a eles um gosto da realidade que está além de sua compreensão e alcance e restaure a harmonia.

Não é necessária uma teoria revolucionária para trazer luz a isto; está além do controle humano. Os povos da natureza desse planeta sabem disso e, portanto não teorizam sobre isso. Teoria é uma abstração; nosso conhecimento é real.

Os índios americanos têm tentado explicar isso aos europeus por séculos. Mas, como disse antes, europeus provaram-se incapazes de escutar. A ordem natural irá vencer, e os agressores morrerão do modo como morrem os alces quando ofendem a harmonia por haver superpovoado determinada região. É apenas uma questão de tempo até que o que os europeus chamam de “uma catástrofe maior de proporções globais” ocorra.

É o papel dos povos índios americanos, o papel de todos os seres da natureza, sobreviver. Uma parte de nossa sobrevivência é resistir. Não resistimos para derrubar um governo ou tomar o poder político, mas porque é natural resistir ao extermínio, sobreviver. Não queremos poder sobre as instituições brancas; queremos que as instituições brancas desapareçam. Essa é a revolução.

Russell "desce a lenha" no marxismo e nos "ismos". Ele os considera todos a "mesma cantilena" do homem branco. Presumo que, na época, por estar acompanhado de pessoas progressistas, de esquerda, deve ter enchido o saco de ouvir que a solução estaria no marxismo, no socialismo, no anarquismo, etc. Entendo o que ele diz, concordo muito com ele, inclusive, como já deixei bem claro nas minhas colocações do Por onde andei da semana passada.

A proposta cultural dele é bastante parecida com a da Sylvia. Ele também aborda a consciência. Fala de "desespiritualização" e de redução da complexidade do universo, por meio de um modo de pensar linear, abstracional. Povos originários têm uma raiz a qual podem recorrer para se "reencontrar". Para descolonizar.

Mas e nós, normóticos ocidentais? Quais nossos valores, quais as raízes com as quais queremos nos conectar? Não precisa ser, necessariamente, uma linha transgeracional, ligada à sua família de sangue, ou ao seu país de origem, caso você se sinta um estranho na própria terra. Pode ser uma raiz espiritual, filosófica, que faça sentido, que seja um farol. É uma questão de vontade, de querer sair do automático.

Quando utilizo o termo europeu, não me refiro à cor da pele ou a uma estrutura genética particular. Me refiro a um modo de pensar, uma visão de mundo que é produto do desenvolvimento da cultura europeia.

As pessoas não são geneticamente codificadas para possuir essa perspectiva; são aculturadas a possui-la. O mesmo é verdade para os índios americanos ou membros de quaisquer culturas.

O que estou propondo aqui não é uma proposta racial, mas uma proposta cultural. Aqueles que em última análise advogam e defendem as realidades da cultura europeia e seu industrialismo são meus inimigos. Aqueles que resistem a isso, que lutam contra isso, são meus aliados, os aliados dos povos índios americanos. E não dou a mínima para que cor seja sua pele.

Esta parte, me emociona sobremaneira. É o lado luminoso de Aquário, a era em que estamos entrando. É sobre isso. Este é o horizonte.

Branco é uma das cores sagradas dos povos Lakota – vermelho, amarelo, branco e preto. As quatro direções. As quatro estações. Os quatro períodos da idade e da vida. As quatro raças da humanidade. Misture vermelho, amarelo, branco e preto juntos e ocorre o marrom, a cor da quinta raça.
Este é o ordenamento natural das coisas. Parece-me natural, portanto, trabalhar com todas as raças, cada qual com seu sentido, identidade e mensagens especiais.

Abaixo, um resumo deste discurso, que é uma paulada. Bem dada.

Defesa da Oralidade

Russell Means inicia seu discurso expressando seu desprezo pela escrita, que ele vê como um conceito europeu que desvaloriza a tradição oral de sua cultura Lakota. Ele explica que a oralidade é a forma "legítima" de pensamento em sua cultura e que a escrita é um meio de imposição cultural e genocídio. Permite que suas palavras sejam transcritas apenas como uma concessão pragmática para se comunicar com o "mundo do homem branco", embora seu interesse principal seja em outros povos indígenas que resistem à assimilação

"In dio" - em Deus

Means defende o uso do termo "índio americano" em vez de "nativo-americano" ou "ameríndio", argumentando que todos esses termos são de origem europeia. Ele, no entanto, oferece uma etimologia alternativa para "índio" ("in dio" – em deus, do italiano), que, segundo ele, Colombo utilizou. O ponto central é que a verdadeira identidade de seu povo, e de outras tribos, reside em seus próprios nomes (Lakota, Dineh, Miccousukee, etc.), e que a controvérsia sobre o termo é uma distração.

Abstração e desespiritualização do universo

Means argumenta que o pensamento europeu, desde pensadores como Newton, Descartes, Locke e Adam Smith, tem se caracterizado pela abstração e desespiritualização do universo. Ele vê um processo contínuo de redução da complexidade espiritual da existência humana a equações lineares, códigos e abstrações materiais. Esse processo, segundo ele, tornou a Europa capaz de ser uma cultura expansionista, valorizando a "eficiência" mecânica em detrimento da verdadeira compreensão da realidade.

Marxismo como continuidade da tradição europeia

Russell Means dedica uma parte significativa do discurso a criticar o marxismo, não como uma alternativa revolucionária, mas como uma continuação da mesma tradição europeia que ele já havia criticado. Para Means, o marxismo herda a desespiritualização e o materialismo de pensadores anteriores como Hegel e Marx, substituindo o conflito religioso pelo conflito "ser vs. ter". Ele argumenta que o marxismo, assim como o capitalismo, está comprometido com a perpetuação e o aperfeiçoamento do sistema industrial que destrói os povos indígenas e o meio ambiente.

Desumanização e destruição ambiental

Means faz uma poderosa conexão entre a desespiritualização do universo na mentalidade europeia e a desumanização de outros povos e a destruição do planeta. Ele compara o processo mental que permite soldados e assassinos desumanizar suas vítimas ao que permite que o "progresso" e o "desenvolvimento" justifiquem a destruição de montanhas, lagos e ecossistemas. Ele enfatiza a falta de "sentimento de perda" dos europeus em relação a essa destruição, vendo a satisfação apenas na aquisição material.

A revolução da Ordem Natural

Means propõe que a verdadeira "revolução" não virá de teorias europeias (como o marxismo ou o capitalismo), mas sim da restauração da harmonia com a Mãe Terra e a ordem natural. Ele profetiza que a Terra retaliará os violadores e que a desarmonia será eliminada, com a natureza "cortando os humanos ao seu tamanho". Os povos indígenas americanos, que mantêm essa conexão com as profecias e tradições ancestrais, sobreviverão a essa "catástrofe maior" e continuarão a habitar o hemisfério, restabelecendo a harmonia.

A proposta cultural, não racial

Para evitar mal-entendidos, Russell Means esclarece que, ao falar de "europeus" ou "mentalidade europeia", ele não se refere à cor da pele ou a uma distinção racial. Ele se refere a um "modo de pensar, uma visão de mundo que é produto do desenvolvimento da cultura europeia". Ele distingue entre "maçãs" (índios que adotam valores europeus) e "seres humanos" (brancos que não defendem a cultura europeia e industrial). Ele reitera que seus inimigos são aqueles que defendem o industrialismo e a cultura europeia, independentemente da raça, e seus aliados são aqueles que resistem a isso.

Identidade e liderança

Ele conclui rejeitando o rótulo de "líder" no sentido da mídia branca, que ele vê como resultado de uma confusão que não tem mais. Russell Means se descreve orgulhosamente como um "patriota Oglala Lakota", confortável com sua própria identidade e propósito. Ele não busca direcionar ninguém ao marxismo ou a qualquer "ismo", mas encoraja os povos a confiar em sua própria visão baseada na comunidade e na cultura, resistindo à industrialização e à extinção humana.

🧘 Buda e Freud de mãos dadas

💡
Mark Epstein é psiquiatra e escritor norte-americano, conhecido por integrar a psicologia ocidental com os ensinamentos do budismo. Formado em Harvard em medicina, ele se aprofundou na tradição Theravada e na meditação vipassana, influenciado por mestres como Jack Kornfield e Joseph Goldstein.

Seus livros, como Pensamentos sem Pensador e Atraído pelo Fogo, propõem uma abordagem terapêutica que acolhe a impermanência, o vazio e o não eu como fundamentos para o alívio do sofrimento psíquico. Epstein desafia a lógica do eu sólido e permanente, oferecendo uma escuta mais compassiva e menos medicalizada para as dores da alma.

Conversa maravilhosa. Achei muito interessante a relação entre a abordagem freudiana e a filosofia budista. Não conhecia o Marc Epstein, não sei se tem a ver com sua idade, mas ele me passou uma "fragilidade extremamente forte". Uma auto-ironia gostosa e um olhar para "as coisas como elas não são, sem deixar de ser".

Eu ri muito no final da conversa. Me lembrou o lance de focar no processo e não no objetivo. Mas, se tem um objetivo que é "mara" e muito bom de se alcançar é nos demorarmos menos em nossas "nhenhenhecas". O timing alquímico do tempo dos sentimentos.

Uma "troca clássica" entre a placidez da maturidade e a impetuosidade da juventude.

Ezra| 61:24
É algo que você sente ao longo da sua vida, da sua prática, da sua terapia, que você melhorou muito? Qual é a diferença entre a maneira como Mark Epstein lida com uma situação perturbadora hoje em dia e quando você estava na faculdade?

Mark Epstein| 61:38
Não há muita diferença.

Ezra| 61:42
Todo esse trabalho que você fez, toda essa meditação, você fica no mesmo lugar?

Mark Epstein| 61:44
Quando estou chateado com alguma coisa, fico chateado da mesma maneira. Espero que não dure tanto tempo.

Ezra| 61:53
Então, para que foi tudo isso?

Mark Epstein| 61:55
Bem, algo para fazer.

Ezra| 61:58
Vamos lá, ou você não acredita no que está me dizendo, ou isso prejudica um pouco o livro.

Mark Epstein| 62:04
Acho que não. Acho que tudo depende da atitude que se tem em relação à própria experiência.

Ezra| 62:11
Mas essa pode ser a diferença.

Mark Epstein| 62:14.116
Essa é a diferença.

Ezra| 62:15.
Então, qual é a diferença entre a atitude que você teria aos 20 anos e a atitude que você tem agora?

Mark Epstein| 62:19
Oh, eu tenho muito mais senso de humor sobre mim mesmo, pelo menos logo após qualquer coisa que tenha me deixado chateado. Quer dizer, eu definitivamente fico chateado com as coisas que me chateiam. E as pessoas próximas a mim têm que conviver com isso.

Ezra| 62:41
Então você não se tornou não reativo?

Mark Epstein| 62:44
Não, não acho que isso seja possível.

Ezra| 62:48
Então, qual é a possibilidade aqui? Se você passar a vida inteira fazendo esse trabalho e tudo correr bem, o que você terá conquistado no final, além de ter sido interessante? E eu concordo que meditar é interessante.

Mark Epstein| 62:57
Sim. O que eu consegui? Paz de espírito.

Ezra| 63:02.160
Mas não parece que você esteja em paz. Parece que você está tempestuoso.

Mark Epstein| 63:04
Não, estou tranquilo, com certeza.

Ezra| 63:06
Tudo bem, junta isso pra mim.

Mark Epstein| 63:08
Dentro da tempestade. Não estou tentando não ser tempestuoso.

Ezra| 63:13
Então, as pessoas estão lidando com o fato de você ser tempestuoso. Elas precisam lidar com isso. Você tem o temperamento que sempre teve e a irritação que sempre teve. Que parte de você tem paz de espírito durante isso? Ou é só mais tarde que você fica melhor, voltando a algo mais tranquilo?

Mark Epstein| 63:32
Bem, não é uma parte de mim que tem paz de espírito. Ou eu tenho ou não tenho. Porque só existe um eu, se é que existe um eu. Mas tenho confiança nas pessoas que estão ao meu redor, que elas me conhecem e não podem ser destruídas por mim. Isso é muito reconfortante. Então, tenho permissão do ambiente de que não sou tão ruim a ponto de destruir. Isso é muito... útil como um recipiente. E sei que as reações frustradas, violentas, raivosas e tristes são apenas reações, e não quem eu realmente sou. Então, há sempre uma parte de mim que olha para isso e pensa: “Ah, se eu fosse escrever algo, como seria? Como eu retrataria isso?”

Ezra| 64:41
A paz de espírito é uma sutil desidentificação. Com a experiência que você está tendo.

Mark Epstein| 64:46
Sim, com certeza.

Ezra| 64:48
E o que isso traz de benefício para você?

Mark Epstein| 64:51
Isso me deixa menos receoso.

Ezra| 64:53
De quê?

Mark Epstein| 64:54
De mim mesmo.

Ezra| 64:56
E você costumava ter mais medo de si mesmo.

Mark Epstein| 64:59
Não sei se estava consciente disso, mas estava ansioso.

Ezra| 65:05
E isso criou... você não considera essas experiências como...

Mark Epstein| 65:11
Sim, criou um buffer.

Ezra| 65:14
Buffer é uma palavra interessante. Sinto que, nos períodos em que minha meditação está indo bem, o que nem sempre acontece, o que eu tenho é um espaço. É muito pequeno. Mas é como uma pequena separação. E é muito valioso. E é muito difícil de manter. Mas é como alguns milissegundos entre mim e minhas reações.

Mark Epstein| 65:35
O que isso traz é um tipo de humor, que é muito útil quando lidamos com nós mesmos, que tendemos a nos levar muito a sério. Então, acho que essa é a outra maneira de responder à sua pergunta. O que mudou? Acho que tenho um pouco mais de senso de humor sobre mim mesmo ou sobre as situações, por mais terríveis que elas possam ser.

Os livros que Marc recomenda no final parecem ser muito legais.

John and Paul, A Love Story, de Ian Leslie
"Você acha que conhece os Beatles, mas não conhece os Beatles... Em termos da mutabilidade do eu, do ato criativo e do amor, tem tudo. É fantástico."

Essays After 80, Donald Hall
"Donald Hall era um poeta mais direto do que os poetas beat, mas da mesma época. Ele foi casado por muitos anos com Jane Kenyon, que era mais jovem, e todos perguntavam a ela: “Por que você está com esse homem mais velho? Ele vai morrer. Mas então ela morreu, e ele ficou sozinho. Ele parou de escrever poesia, mas continuou escrevendo ensaios. Em sua casa na fazenda em New Hampshire. E os ensaios são incríveis sobre ter vivido uma vida inteira. Alguns deles são sobre ter 80 anos, e outros refletem sobre quando ele era jovem. E isso dá uma sensação de alguém que teve uma vida coesa e uma voz maravilhosa, totalmente inspiradora."

Kairos, de Jenny Erpenbeck
"É um romance maravilhoso sobre a divisão de Berlim, a queda do muro de Berlim. É uma história de amor entre uma garota de 19 anos e um homem de 50 anos que é incrivelmente envolvente."

Uma nota importante: Freud não "descobriu" o inconsciente. Isto é uma besteira. Mas algum dia, quem sabe, retomo este assunto. O livro do Henri F. Ellenberger "A descoberta do Inconsciente" é uma boa fonte sobre o tema.

A natureza elusiva dos pensamentos e a crítica à fetichização da mente vazia na meditação

Ezra inicia a discussão descrevendo sua experiência com a meditação, que o leva a perceber que não controla seus próprios pensamentos, que eles são projeções repetitivas na "tela da sua psique". Mark Epstein, um psiquiatra e autor que une a psicoterapia ao budismo, compartilha a visão de seu professor Joseph Goldstein de que um pensamento é "apenas uma coisinha, mais do que nada". Epstein explica que os pensamentos são, de certa forma, uma extensão do ego, uma ferramenta para o ego tentar dar sentido à existência humana no mundo.

Epstein adverte que ver os pensamentos como um problema ou valorizar a "mente vazia" como uma grande conquista pode ser um erro do ponto de vista budista. Ele enfatiza que o objetivo da meditação e da psicoterapia não é tornar a pessoa "mais burra", mas sim mais consciente para fazer escolhas sobre como viver. Ter uma experiência de mente vazia é atraente e tranquilo, mas o risco é se apegar a ela em busca de uma cura total, o que é um engano. O propósito não é livrar-se dos pensamentos, mas cultivar pensamentos úteis e mudar a forma como nos relacionamos com o que está acontecendo internamente. 

Freud, a descoberta do inconsciente, as limitações da ciência e o valor da experiência pessoal

Ezra e Epstein discutem a influência de Freud no trabalho de Epstein e na compreensão moderna da mente. Epstein revela que Freud, de certa forma, era um "meditador" que usava cocaína no início de sua carreira para observar seus próprios sonhos e mente, o que levou à sua autoanálise e à descoberta do inconsciente. O método freudiano de associação livre e atenção uniformemente suspensa visava afastar a mente racional para aprofundar-se na experiência pessoal e sondar o inconsciente. No entanto, Epstein ressalta que Freud (assim como outras abordagens como psicodélicos, Prozac e a própria meditação) "prometeu demais", pois as pessoas buscam uma cura universal que a psicanálise não pode oferecer.

Ezra questiona a validade das narrativas freudianas em contraste com a valorização contemporânea de formas de conhecimento que podem ser externamente validadas pela ciência. Epstein concorda que há um esforço para documentar cientificamente os benefícios da meditação, como a redução da pressão arterial. Contudo, ele argumenta que a ciência não consegue capturar a "poesia da experiência" ou o "amor" que pode surgir da meditação , pois esses são aspectos da "verdadeira natureza" humana que só podem ser vivenciados internamente.

O Eu, a auto-observação, o Não-Eu e Terapia vs. Meditação: tensões e pontos de convergência

A conversa aprofunda-se na natureza do "eu" e na "abnegação" (ausência do eu) na psicologia budista. Epstein explica que, para compreender a abnegação, é preciso "localizar dentro de si mesmo o eu que não existe". Ele usa o exemplo de sentir-se injustiçado em um relacionamento para ilustrar como o "eu" indignado pode ser "apenas um pouco mais do que nada", um sentimento que se desfaz sob o poder da auto-observação. A meditação permite ver que o "eu" é intrinsecamente relacional, e que a indignação justa pode levar ao isolamento, não à felicidade. 

Ezra sugere que a terapia "desvenda para dar sentido" e "examina o eu acumulado", enquanto a meditação "pede para parar de dar sentido" e "despojar-se das defesas". Epstein reconhece essa tensão, mas enfatiza que levar a sério a história pessoal é crucial. Ele critica a tendência de alguns meditadores de diminuir a importância da dor emocional e dos traumas. Para ele, a terapia e a meditação se complementam: a terapia ajuda a entender quem somos, e a meditação ajuda a afrouxar os apegos a essas identidades, promovendo a liberdade. 

Trauma, narrativas, a dificuldade de ser humano e o desejo, o apego e a "mão aberta"

Ezra observa que, apesar da maior conscientização e disponibilidade de terapia, a depressão, ansiedade e trauma parecem onipresentes na sociedade atual, questionando se as narrativas terapêuticas podem ser "contagiosas" e reforçar essas identidades. Epstein concorda que o pêndulo oscilou de uma supressão para uma "articulação excessiva" do trauma, ambas problemáticas. Ele explica que o trauma é uma "experiência terrível que não é mantida em relação" e que a necessidade é de apoio. Ele reitera que "ser uma pessoa é muito difícil", e que a psicoterapia, mesmo com suas limitações, oferece um espaço único para conversas autênticas e relacionamento.

Ezra e Epstein discutem o conceito budista de desejo, que é visto como a causa do sofrimento. Epstein clarifica que não é o desejo em si, mas o apego ao desejo que causa o sofrimento, especialmente quando se tenta obter mais do desejo do que ele pode proporcionar. Ele conecta isso à "lacuna" entre o que é imaginado e o que é realmente possível, ecoando o "princípio da realidade" de Freud. A "mão aberta" como metáfora significa que, mesmo diante de frustrações ou desejos não realizados, os sentimentos surgirão, mas não precisam prender a pessoa; a amplitude da "palma da mão mental" permite avançar para novas realidades.

Amor, liberdade, impermanência e os benefícios da meditação: paz de espírito e humor

Epstein define o amor como uma "revelação da liberdade da outra pessoa", significando aceitar que a subjetividade do outro nunca pode ser totalmente conhecida ou possuída. Amar é permitir a liberdade do outro, mesmo que isso traga uma sensação inicial de decepção, que depois se transforma em libertação. Essa "lacuna" da decepção é um "lugar espiritual" para explorar a impermanência e a aceitação. Ele cita o Sutra do Diamante para descrever o mundo como evanescente e impermanente – "como uma estrela ao amanhecer, uma bolha em um riacho" – o que nos convida a relaxar nossa identificação com o "eu" fixo e irritado.

Questionado por Ezra sobre o "ganho" de décadas de prática, Epstein afirma que, embora as reações iniciais a situações perturbadoras possam não mudar drasticamente, a diferença reside na atitude em relação à própria experiência. A meditação e a terapia proporcionam uma "paz de espírito" que é uma "sutil desidentificação" com a experiência que se está tendo. Isso resulta em menos medo de si mesmo e na criação de um "buffer" — um pequeno espaço entre o indivíduo e suas reações. Essa "distância" permite um maior senso de humor sobre si mesmo e as situações. A meditação não elimina o conflito interno, mas aumenta a "disposição para reconhecer o conflito".

🪞 Segundo Ato - REFLEXO
O coração chora

💔 Uma grande tragédia espiritual

Tenho um amigo que me contou que um dos livros do Harari mexeu muito com um de seus familiares, a ponto de ter interferido na sua relação com o divino (para o mal). Ele é puto com o cara. Entende que seu ateísmo declarado colocou água numa relação que já estava estabelecida (pelo visto, nem tanto assim).

Já li críticas bem ruins sobre seu trabalho e abordagens como historiador. Por exemplo, tem gente que afirma haver pouco rigor em sua pesquisa.

De minha parte, considero-o uma cabeça muito interessante, tanto que não é o primeiro vídeo dele aqui no Por onde andei. No entanto, me surpreendeu vir justamente dele o destaque para um aspecto muito relevante do que vem acontecendo em relação a Israel e o povo palestino, culminando nesta ação genocida que temos assistido, impotentes: a catástrofe espiritual.

Tenho uma relação muito próxima com a espiritualidade judaica. Se admiro as nações indígenas norte-americanas, a filosofia espiritual da Kabbalah eu literalmente estudo e pratico. A Kabbalah é diferente da religião judaica em si. Poderíamos dizer que é a mística judaica. Na minha tradição, ela se inicia lá no Egito, há mais de 5 mil anos.Tenho um mínimo de conhecimento histórico sobre essa linhagem, sua mitologia, sua moral e já estudei vários grandes Mestres desta sabedoria, que me é muito cara.

Harari conseguiu sintetizar algo que eu vinha remoendo, triste, assombrada. Perguntado sobre como os eventos atuais se encaixam na história judaica, se são uma nota de rodapé ou um capítulo inteiro dessa história, ele responde:

Acho que é um dos maiores pontos de virada da história judaica, talvez o maior desde a queda do templo em 70 d.C., desde a conquista romana, porque o judaísmo sobreviveu.

Tornou-se o campeão mundial em sobreviver a catástrofes, mas nunca enfrentou uma catástrofe como a que estamos enfrentando agora, que é uma catástrofe espiritual para o próprio judaísmo. Porque o que está acontecendo agora em Israel poderia basicamente, eu acho, destruir, anular 2.000 anos de... pensamento, cultura e existência judaica.

Esse é o pior cenário que estamos enfrentando agora, e eu enfatizo, é o pior cenário. Ainda podemos evitá-lo e podemos conversar mais tarde sobre como evitá-lo, mas devemos ter clareza sobre o que estamos enfrentando se Israel continuar na trajetória atual. O que estamos enfrentando é a possibilidade de uma campanha de limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia, resultando na expulsão de dois milhões, talvez mais, de palestinos.

A partir daí, o estabelecimento de um Grande Israel, a desintegração da democracia israelense e a criação de um novo Israel. Baseado em uma ideologia de supremacia judaica e na adoração de valores que foram completamente antijudaicos nos últimos dois milênios. Um país baseado na adoração do poder e da violência, e que é militarmente forte. Ele sobreviverá. Será militarmente forte. Terá alianças com vários valentões ao redor do mundo. Também será economicamente viável.

E isso será um desastre espiritual. Porque esse será o novo judaísmo com o qual todos os judeus do mundo terão que lidar. Ele não desaparecerá. Mais uma vez, os judeus são muito bons em lidar com catástrofes, desde a conquista romana até o Holocausto. Mas essa não será uma catástrofe militar. O Estado será realmente bem-sucedido em termos militares e econômicos. E isso tornará o desafio muito, muito maior. Nenhum judeu, digamos, em Londres ou Nova York, ou em qualquer outro lugar, será capaz de dizer que este não é o verdadeiro judaísmo. É como ser, digamos, um comunista na década de 1950 em Londres e dizer que não, a União Soviética não é realmente comunismo. Eles entenderam mal. Este será o novo judaísmo, e talvez o único judaísmo.

Uma das entrevistadoras argumenta que a parte extremista da sociedade israelense é, na verdade, um minoria.

A história é feita pelas minorias. A maioria das pessoas fica em casa, enquanto a história é feita por 5 a 10% da população. Sempre foi assim. E receio que, pelo menos em relação a algumas das coisas que mencionei, não sejam 5 ou 10% da população israelense. Como eu estava... Não surpreso, mas ainda chocado, que quando o presidente Trump de repente colocou na mesa a ideia de talvez expulsarmos todos os palestinos de Gaza.

Muitos israelenses, incluindo pessoas que conheço pessoalmente, que tinham esses pensamentos em algum lugar no fundo da mente e sempre diziam a si mesmos que não se pode dizer isso, e que é inútil dizer isso porque é irrealista, no momento em que saiu da boca do presidente dos Estados Unidos, sim, podemos fazer isso. Não era 5% ou 10% da população israelense. O apoio a esse tipo de coisa, não sei os números exatos, mas pode ser até mais de 50%.

A entrevistadora insiste dizendo que se a proposta tivesse sido promover um Estado Palestino e normalizar a relação com a Arábia Saudita, por exemplo, haveria um forte apoio do público israelense.

Ainda é possível, mas, novamente, é uma questão do que acontecerá daqui para frente. Mas a possibilidade... novamente, de uma limpeza étnica e de um Israel antidemocrático baseado em uma ideologia de supremacia judaica se tornar a nova realidade. E isso não é uma profecia, mas uma possibilidade real que precisamos levar em consideração. E a grande pergunta que eu faria é: quais são os valores, quais são os ideais que Israel ainda defende? Quais ideais positivos ele ainda defende? Talvez eu diga algo, contarei uma história da história judaica.

Há 2.000 anos, quando os romanos destruíram o templo e destruíram Jerusalém, o rabino Yochanan Ben Zachai pediu um favor ao comandante romano, Vespasiano. Ele pediu que lhe desse a cidade de Yavneh e seus sábios. E Vespasiano concordou. Ele deu a Ben-Zachai Yavneh, onde ele estabeleceu um centro de estudos judaicos. E essa foi a grande transformação anterior na história judaica. Você sabe, o judaísmo bíblico e o judaísmo do Segundo Templo eram uma religião tribal violenta. Os rituais centrais do judaísmo naquela época eram os rituais sangrentos no templo. Era uma religião muito sangrenta.

E naquele momento, Ben Zakkai e seus colegas mudaram completamente o significado do judaísmo. Eles o transformaram em uma religião de estudo. Isso se tornou o valor judaico número um: estudar, aprender, debater, desenvolver sabedoria. Os judeus se sentam em Yavneh e aprendem, vão para Bagdá e Cairo e aprendem. E vão para Golden Green e Brooklyn, e aprendem. E por 2.000 anos, é isso que eles fazem. Nós fazemos. Nós aprendemos. E depois de 2.000 anos, judeus de todo o mundo voltam para Jerusalém para perceber, para colocar em prática o que aprenderam durante 2.000 anos.

E quando olho para Israel agora, pergunto-me: o que aprenderam em 2.000 anos? O que diabos aprenderam? Aprenderam a construir um exército forte? Definitivamente. Aprenderam a lutar com coragem? Definitivamente. Alguns aprenderam a alegria de esmagar pessoas mais fracas sob os nossos pés. Eles aprenderam isso. Mas todas essas coisas, os romanos já sabiam há 2.000 anos.

Portanto, Ben Zakkai fez o pedido errado. Em vez de desperdiçar 2.000 anos aprendendo isso, você poderia simplesmente ter perguntado a Vespasiano: “Diga-me, comandante, como você constrói um exército forte? Diga-me, você e seus legionários, como vocês desenvolvem a coragem para lutar na guerra? E me fale sobre o prazer de esmagar pessoas mais fracas sob nossos pés.” Qual foi o sentido de 2.000 anos de aprendizado, se a única coisa que aprendemos... É o que os romanos já sabiam. É uma perda de tempo.

Infelizmente, não tenho mais nada a dizer.

❓ O que deu errado?

💡
Jonathan Graubart é professor de ciência política na San Diego State University, especializado em direito internacional, política externa dos Estados Unidos e Israel/Palestina. Suas pesquisas articulam uma crítica à ordem liberal internacional, com ênfase nos limites do direito como instrumento emancipatório.

Em obras como Jewish Self-Determination Beyond Zionism, defende um judaísmo ético, não nacionalista, e propõe alternativas ao sionismo político a partir de perspectivas igualitárias e pós-coloniais. Graubart é uma das vozes contemporâneas mais relevantes no debate sobre justiça, autodeterminação e o futuro do pluralismo político no Oriente Médio.

O fio da meada continua com Hanna Arendt. Imagino o que ela estaria fazendo se estivesse viva...

O que me chama a atenção, como sempre, é que os diagnósticos sobre a realidade atual e as avaliações sobre o que foram escolhas equivocadas são super precisos e aprofundados, mas as propostas e sugestões sobre como as coisas "poderiam" ser "parecem" irrealizáveis. Sempre a mesma sensação de que os drives que movimentam as dinâmicas de poder nas esferas individuais e coletivas não permitem (ainda) um alinhamento com estas propostas. Este descasamento é um dos motivos do desânimo.

É por esta razão que bato sempre na tecla de, ao menos, tentarmos criar pequenos universos em nossos microcosmos relacionais onde estes valores e ideias possam ser vividos na prática.

Sobre a conferência (texto traduzido da descrição do vídeo no Youtube):

As reflexões extraordinárias de Arendt sobre nacionalismo, federalismo, renascimento político, imperialismo e racismo têm origem em seus escritos sobre a experiência judaica moderna na Europa e sobre o projeto sionista. Esta palestra revisita suas reflexões profundamente pessoais e intelectualmente ricas sobre as promessas e os perigos do sionismo. Arendt valorizava o Yishuv — a comunidade judaica pré-Estado na Palestina — por desenvolver um novo centro cultural judaico e instituições socialmente justas, como os kibutzim. Ela via no sionismo um potencial tanto para avançar a emancipação judaica quanto para contribuir com as lutas globais por um mundo mais igualitário, democrático e pacífico.

No entanto, Arendt lamentava que o movimento sionista tivesse abraçado duas dinâmicas que haviam se mostrado desastrosas tanto para os judeus quanto para o mundo em geral: o sistema de Estados-nação e o imperialismo. Para realizar a promessa do sionismo, segundo ela, o movimento precisaria superar duas patologias debilitantes: a crença em um antissemitismo eterno e a atração por um nacionalismo “tribal”. Seus escritos sobre o sionismo continuam essenciais tanto para refletir sobre a grave crise contemporânea do próprio sionismo quanto para inspirar os párias judeus de hoje.

O livro mais recente de Jonathan Graubart, Jewish Self-Determination beyond Zionism: Lessons from Hannah Arendt and other Pariahs (Temple University Press, 2023), foi descrito por Richard Falk como “uma reavaliação crítica, emocionante, profunda e humana do sionismo enquanto base ideológica do Estado de Israel. A visão alternativa de Graubart reforça o que o sionismo poderia ter se tornado, se seus líderes não tivessem optado por um Estado judeu exclusivista, sustentado por repressão contínua, exploração e discriminação contra o povo palestino em sua própria terra. A recente guinada da política israelense para a extrema-direita torna este livro urgente, especialmente para judeus liberais, que deveriam estar profundamente perturbados com o que tem acontecido em Israel sob a bandeira do sionismo.”

O Contexto Histórico da Crítica de Arendt

  • Surgimento do Sionista Humanista: Antes de 1930, grande parte do movimento sionista (exceto os revisionistas) não defendia explicitamente um Estado-nação judeu. A posição oficial era de "autonomia mútua para judeus e árabes na Palestina, onde nenhum dominaria o outro".
  • Mudança de Paradigma: A Revolta Árabe de 1936, o Relatório Peel de 1937 (que propôs a partição) e o Holocausto levaram a maioria do movimento sionista a exigir um Estado-nação judeu.
  • Os "Humanistas Sionistas": Figuras como Judah Magnes e Martin Buber, e mais tarde Arendt, opuseram-se a essa virada. Eles defendiam a construção de um lar judaico na Terra Santa, mas se opunham à "orientação separatista e estatista" do sionismo dominante, que, segundo eles, "minava o espírito de renovação judaica e desconsiderava as preocupações da população árabe indígena".
  • Visão Alternativa: Favoreciam uma "federação binacional" com desenvolvimento autônomo para cada comunidade, igualdade coletiva e espaços compartilhados de governança.

Temas centrais e críticas de Arendt ao Sionismo Hegemônico

Contexto Histórico do Anti-Semitismo Europeu: Arendt via o anti-semitismo como um "fenômeno político moldado por eventos históricos", e não como um "mal demoníaco" ou "fenômeno atemporal". Ela enfatizava que a forma contemporânea de anti-semitismo surgiu com a disseminação dos Estados-nação e a transnacionalização do imperialismo. Para ela, a interação dos judeus com a comunidade externa era crucial, e não apenas sua passividade como vítimas.

Rejeição do Modelo de Estado-Nação Homogêneo: Arendt criticava o modelo de Estado-nação em geral. Para o sionismo, isso significava "desvincular a autodeterminação judaica dos projetos estatais e encontrar novos modelos políticos que permitissem a coexistência de múltiplos grupos nacionais".

Patologias Fundamentais do Sionismo Dominante: Arendt identificou duas patologias principais:

  • Anti-Semitismo Eterno: A crença em um anti-semitismo que é "inacessível à política ou ao desenvolvimento histórico, quase demoníaco".
  • Nacionalismo Tribal: Um nacionalismo que "rejeitava qualquer colaboração, exceto alianças de conveniência temporária com outros grupos".

Afixação no Poder e a Realpolitik: Arendt alertou que o futuro Estado de Israel seguiria uma "realpolitik extrema": "militar forte, postura agressiva, desconfiança do direito internacional ou das instituições internacionais, e tornar-se útil a uma forte potência imperialista". Ela previu:

  • "A construção de um Estado judeu dentro de uma esfera de interesse imperial pode parecer uma solução muito boa para alguns sionistas. A longo prazo, dificilmente há um curso imaginável que seria mais perigoso." (Arendt, 1944).
  • Advertência Sombria: "Os judeus 'vitoriosos' viveriam cercados por uma população árabe inteiramente hostil, reclusos dentro de fronteiras sempre ameaçadas, absorvidos com a autodefesa física a um grau que submergiria todos os seus interesses e atividades. O crescimento de uma cultura judaica deixaria de ser a preocupação de todo o povo; os experimentos sociais teriam que ser descartados como luxos impraticáveis; o pensamento político se centraria na estratégia militar." (Arendt).

Compromisso com uma Ordem Global Transformada: Arendt via a saúde a longo prazo de Israel e do povo judeu como ligada a uma "ordem global mais justa e desenvolvida", opondo-se ao "insularismo" do sionismo hegemônico. Essa nova ordem deveria "se libertar do imperialismo e do sistema de Estados-nação".

A Visão alternativa de Arendt e o legado para o presente

A visão de Arendt para a Palestina era de um "lar judaico" (Jewish homeland), distinto de um "Estado judeu".

  • Coexistência Judaico-Árabe: "O verdadeiro objetivo dos judeus na Palestina é a construção de um lar judeu... A independência da Palestina só pode ser alcançada com base sólida na cooperação judaico-árabe. Governos locais autônomos e conselhos municipais e rurais mistos judaico-árabes em pequena escala e o mais numerosos possível são as únicas medidas políticas realistas que podem eventualmente levar à emancipação política da Palestina." (Arendt).
  • Realismo e Cooperação: "A ideia de cooperação árabe-judaica não é um devaneio idealista, mas uma declaração sóbria do fato de que, sem ela, todo o empreendimento judaico na Palestina está condenado." (Arendt, 1944). Ela esperava que essa coexistência pudesse servir de modelo para "neutralizar as perigosas tendências de povos anteriormente oprimidos a se fecharem do resto do mundo e desenvolverem complexos de superioridade nacionalista."

Consequências da Trajetória Sionista Dominante (segundo Arendt e Graubart):

  • Militarismo Ascendente: Elevação do militarismo e da segurança do Estado de Israel acima do sionismo cultural.
  • Contradição Fundamental: Um Estado democrático liberal e um Estado judeu são contraditórios, levando à "supremacia judaica sistemática em toda a Grande Israel".
  • Alinhamento Imperialista: Orientação internacional atrelada a uma ordem imperialista, onde Israel "corteja a potência dominante e trata as normas e o direito internacional como inerentemente suspeitos".
  • Mentalidade de Cerco: Os oponentes (palestinos, árabes, Irã) são vistos como "crises existenciais para o povo judeu na magnitude do Holocausto". Isso torna Israel "mal equipado para tomar as medidas necessárias para alcançar uma paz sustentável".
  • Subordinação da Diáspora: A segurança de Israel subordina a vida judaica fora de Israel, gerando conformidade em vez de revitalização cultural.

A Utilidade do pensamento de Arendt hoje:

  1. Repensar o Sionismo: Arendt e os sionistas humanistas inspiram a "repensar o que queremos do sionismo", focando na saúde do povo judeu de forma que promova a justiça social e se relacione positivamente com o mundo exterior, em vez de ser sinônimo de apoio incondicional ao Estado de Israel. Ela notou que as respostas humanistas ao anti-semitismo eram "muito mais permanentes [e de] valor humano e político do que os desafios" (Arendt).
  2. Auto-Análise Crítica: Arendt é crucial para a necessária "auto-análise" do sionismo, especialmente após 7 de Outubro. Ela desafia a noção de um "anti-semitismo eterno e potencialmente genocida" e o apego a uma "mentalidade de cerco" ("punhal de ferro").

"A noção de que podemos usar nossos inimigos para nossa própria salvação sempre foi para mim o pecado original do sionismo, e você entenderá por que acredito que certos elementos da ideologia sionista são muito perigosos e devem ser descartados pelo bem de Israel." (Arendt, 1965).

  1. Abraçar o Direito Internacional: Arendt inspira um "abraço produtivo do direito internacional e da Comunidade Internacional", em vez de assumir que eles são inerentemente "contra Israel".
  2. Aceitar a Ligação Profunda dos Palestinos: Arendt alerta para a urgência de "aceitar o apego permanente e profundo dos palestinos a toda a Palestina histórica e a interdependência de judeus e árabes". Separar os palestinos em um estado separado ou em "faixas de território isoladas" não é "moralmente aceitável nem compatível com uma reconciliação justa a longo prazo".

Bases para um Futuro Justo (inspirado em Arendt):

  • Valores Compartilhados: Autodeterminação para ambos os povos (judeus e árabes da Palestina), dominação de nenhum sobre o outro, reconhecimento mútuo do apego profundo de ambos os povos a toda a Palestina histórica, interdependência e o objetivo compartilhado de vidas mais igualitárias para todos.
  • Novas Estruturas Institucionais: Criação de instituições locais, nacionais, regionais e internacionais que "construam confiança, facilitem a governança compartilhada, facilitem as fronteiras, evitem que um grupo domine o outro". Isso exigirá "mudanças regionais e globais mais amplas que desafiem a estrutura hierárquica imperialista e o sistema de Estados-nação".

Solidariedade dos Oprimidos: Arendt esperava que os judeus pudessem ser parte de uma "solidariedade dos oprimidos".

Reflexões Atuais sobre a Relevância de Arendt

Graubart argumenta que as ideias de Arendt, embora não ofereçam um "plano específico", fornecem "um conjunto útil de objetivos" para a crise atual. Embora o movimento binacional tenha perdido em 1948, a análise de Arendt sobre o que deu errado é "valiosa", especialmente diante do fracasso da solução de dois estados. A luta por múltiplas identidades nacionais coexistindo em vez de lutar por controle é um desafio global, e Arendt "ainda está correta que, se não fizermos isso, continuaremos a ter assassinatos e incapacidade".

Diálogo com Edward Said e Ella Shohat: Graubart também conecta Arendt a Edward Said (pela perspectiva palestina e crítica ao orientalismo) e Ella Shohat (pela perspectiva dos judeus mizrahi e a complexidade da identidade árabe-judaica), expandindo a aplicabilidade das ideias de Arendt para um diálogo verdadeiramente interativo e menos eurocêntrico.

⚡ A perversidade no poder

Esta matéria do NY Times tem um grande valor jornalístico, político e até jurídico, pois se trata de uma apuração muito bem feita sobre os bastidores do poder e das tomadas de decisão de Netanyahu, baseadas em interesses egoístas e mesquinhos.

Contudo, este é um jornal pró-Israel. Você não verá nenhuma afirmação categórica, apenas linguagem distanciada (alegações, acusações de genocídio, etc). Não há nenhuma voz palestina, nada sobre os crimes de guerra, sobre a magnitude da desproporcionalidade, etc. Netanyahu é humanizado e, no fundo, "seu real objetivo ainda é salvar Israel". Um dos subtextos é este.

Imagine como seria a matéria se o contexto fosse a invasão da Ucrânia pela Rússia... quantas certezas o jornal não teria? Putin seria tachado pelo que é: um ditador brutal. Os crimes de guerra seriam centrais e as vozes ucranianas seriam ouvidas.

A gente precisa sempre ler não só a mensagem pela mensagem, mas a mensagem sob o ponto de vista da dimensão do mensageiro. Não dá pra dissociar as duas coisas. É um exercício constante.

A oferta de trégua abortada e o risco político

A reportagem, baseada em mais de 110 entrevistas e dezenas de documentos afirma que a extensão e expansão da guerra beneficiaram Netanyahu politicamente.

Em abril de 2024, seis meses após o início da guerra, Netanyahu se preparava para aceitar um cessar-fogo prolongado com o Hamas, que incluiria a libertação de reféns e abriria caminho para negociações sobre uma trégua permanente. Ele manteve o plano fora da agenda escrita da reunião de gabinete para evitar a coordenação de ministros resistentes. O fim da guerra poderia, inclusive, ter pavimentado o caminho para um acordo de paz histórico com a Arábia Saudita, o que garantiria o status de Israel na região e o legado de Netanyahu. No entanto, uma trégua precoce representava um risco pessoal para Netanyahu, pois sua coalizão dependia do apoio de ministros de extrema-direita (como Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir) que queriam a ocupação de Gaza e uma guerra prolongada para restabelecer assentamentos judaicos. A dissolução da coalizão resultaria em eleições antecipadas que Netanyahu provavelmente perderia, o que o deixaria vulnerável em seu julgamento por corrupção.

A escolha pela sobrevivência política abortada, o risco político e as causas da prolongação da guerra

Durante a reunião de gabinete em abril de 2024, Bezalel Smotrich, Ministro das Finanças, interrompeu os procedimentos e ameaçou: "Se um acordo de rendição como este for apresentado, vocês não têm mais um governo". Diante do ultimato, Netanyahu negou a existência de tal plano de cessar-fogo e instruiu seus conselheiros a não apresentá-lo. Essa decisão marcou a escolha de Netanyahu pela sobrevivência política em detrimento da trégua.

A guerra se estendeu por quase dois anos, resultando em grande devastação, com mais de 55.000 mortes e grande parte do território de Gaza destruído. A simpatia global por Israel se transformou em ignomínia internacional, com acusações de genocídio na Corte Internacional de Justiça. Muitos israelenses culpam o Hamas pelo prolongamento, mas um número crescente acusa Netanyahu de impedir um acordo para encerrar a guerra.

Recompensas pessoais e consolidação de poder

A guerra proporcionou a Netanyahu um controle sem precedentes sobre o estado israelense. Ele conseguiu adiar uma investigação estatal sobre sua própria culpabilidade no 7 de outubro. Seu governo tem tentado destituir a procuradora-geral que supervisiona seu julgamento por corrupção, uma ação vista como um esforço para obter um acordo favorável. 

A continuidade da guerra também fortaleceu sua coalizão e permitiu o ataque ao Irã. Em setembro de 2024, ele fortaleceu sua maioria parlamentar ao incluir o partido de Gideon Saar, tornando Ben-Gvir e Smotrich menos essenciais. No entanto, em março de 2025, ele quebrou um cessar-fogo forjado em janeiro (idêntico a um que ele havia rejeitado em abril de 2024 ), retomando a ofensiva para apaziguar partidos ultraortodoxos e trazer Ben-Gvir de volta à coalizão, garantindo a aprovação do orçamento e a sobrevivência de seu governo.

Conclusões: fortalecimento do Hamas, divisões internas, falta de planejamento

  • Fortalecimento do Hamas: Nos anos que antecederam a guerra, a abordagem de Netanyahu ao Hamas (incluindo o incentivo ao envio de mais de US$ 1 bilhão em ajuda econômica do Catar ) permitiu que o grupo se fortalecesse e se preparasse secretamente para o ataque de 7 de outubro.
  • Divisões Internas e Vulnerabilidade: Meses antes da guerra, o esforço de Netanyahu para minar o poder judiciário de Israel aprofundou fissuras na sociedade e enfraqueceu o exército, tornando Israel vulnerável e encorajando o Hamas a atacar. O primeiro-ministro ignorou avisos repetidos de seus chefes de segurança sobre o perigo iminente, priorizando sua agenda doméstica.
  • Decisões Pós-7 de Outubro: Após o ataque de 7 de outubro de 2023, as decisões de Netanyahu foram muitas vezes influenciadas por sua necessidade política e pessoal. Ele recusou a oferta de seu principal oponente político, Yair Lapid, de formar um governo de unidade nacional que exigia a remoção de ministros de extrema-direita. Em vez disso, ele incluiu Benny Gantz e Gadi Eisenkot em sua coalizão, garantindo que a extrema-direita continuasse a moldar o curso da guerra.
  • Atraso em Cessar-Fogo e Planos Pós-Guerra: Netanyahu retardou as negociações de cessar-fogo em momentos cruciais e evitou planejar uma transição de poder pós-guerra em Gaza, temendo desestabilizar sua coalizão. Ele buscou objetivos militares maximalistas, como a captura de Rafah, e fez novas exigências nas negociações de trégua, mesmo quando generais consideravam desnecessário. As tropas israelenses, sem um fim de jogo claro, chegaram a "andar em círculos", retirando-se de áreas capturadas e permitindo o ressurgimento do Hamas, exigindo retornos e causando mais destruição.
🌑 Terceiro Ato - SOMBRA
O coração congela

🤖 Grok nazi semeando o caos

📰 The Washington Post 11 de julho de 2025
X ordered its Grok chatbot to ‘tell like it is.’ Then the Nazi tirade began.
Antisemitic outbursts from the AI chatbot promoted by Elon Musk shows how AI companies often face minimal consequences when their projects go rogue.

O Musk não dá ponto sem nó. Ele trata o mundo como terra sem lei. Faz o que quer, literalmente.
Quer semear a discórdia, o caos. Quer que as pessoas se matem e que "os mais fortes, os mais capazes" sobrem olímpicos, ao final de tudo, e que o mundo pós-apocalíptico seja o novo paraíso, a nova era dourada da humanidade. Assim, quem sabe, a raça humana se salve. Esta é cabeça doente dele.
Aliás, não só dele. Dele e dos outros dois que estão neste ato: Andreessen e Thiel.

"Força e desenvolvimento" pra eles têm a ver com tecnologia material. Viver para sempre. Inovação científica. Liberdade para aqueles que são fortes e mais inteligentes (na cabeça deles) decidirem o que é melhor para todos.

Eu andei estudando o que eles pensam, o que eles teorizam. É tudo muito rastaquera disfarçado de inteligente. Quinta categoria.

E, no meio dessa mediocridade, entra a loucura da First Amendment americana: "O discurso de ódio é geralmente protegido pela Primeira Emenda nos Estados Unidos."

"Tenho a impressão de que estamos entrando em um nível mais alto de discurso de ódio, que é impulsionado por algoritmos, e que fazer vista grossa ou ignorar isso hoje (...) é um erro que pode custar à humanidade no futuro", disse o ministro de assuntos digitais da Polônia, Krzysztof Gawkowski, na quarta-feira, em uma entrevista de rádio. "A liberdade de expressão pertence aos humanos, não à inteligência artificial".

Musk é um super vilão de filme distópico-meio horror-meio documental.
Não bastasse, na semana passada, o Grok ter elogiado Hitler como modelo a ser seguido, esta semana a X-Ai lançou a possibilidade de cada usuário criar avatares 3D para interagirem, ao invés de voz ou texto somente. Imaginem o que vai rolar na cabecinha de quem já está pirando.

E o pior, como bem disse o The Runddown Ai:

"É possível desbloquear recursos adicionais, incluindo opções NSFW (not safe for work, ou seja, com conteúdo sexual ou explícito), ao atingir níveis mais altos de relacionamento, adicionando elementos de gamificação à experiência com o chatbot. Os companheiros de IA do Grok chegam num momento em que a indústria lida com crescentes preocupações sobre a segurança das relações emocionais com IAs, especialmente após ações judiciais recentes contra a Character AI. Promover avatares capazes de conversas explícitas parece arriscado, considerando os problemas enfrentados pelo Grok na semana passada, mas está claramente alinhado à visão sem filtros de Elon Musk."

Sabe qual foi "o comando por trás" do comportamento do Grok que desembocou nas respostas nazistas? "Responda como as coisas são, não ligue para o politicamente correto". Ou seja, como as coisas são na cabeça do Musk.

Alondra Nelson, professora do Instituto de Estudos Avançados que ajudou a desenvolver a "Declaração de Direitos da IA" do governo Biden, disse em um e-mail que as publicações antissemitas da Grok "representam exatamente o tipo de dano algorítmico sobre o qual os pesquisadores (...) vêm alertando há anos".
"Sem as proteções adequadas", disse ela, os sistemas de IA "inevitavelmente amplificam os preconceitos e o conteúdo nocivo presentes em suas instruções e dados de treinamento, especialmente quando explicitamente instruídos a fazê-lo".

🧬 Supremacia tosca

📰 The Washington Post 12 de julho de 2025
Tech billionaire Trump adviser Marc Andreessen says universities will ‘pay the price’ for DEI
The investor in a private group chat also criticized Stanford and said colleges are biased against Trump voters: “My people are furious.”
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Marc Andreessen é um investidor de risco, engenheiro de software e estrategista de tecnologia norte-americano, conhecido por seu papel na fundação da Netscape e, mais recentemente, como cofundador da firma de venture capital Andreessen Horowitz (a16z), um dos principais polos de financiamento do Vale do Silício. Figura central na mitologia da internet, Andreessen passou da cultura hacker dos anos 1990 para o núcleo duro do capitalismo de plataforma, moldando parte do imaginário neoliberal digital.

Nos anos 2010, tornou-se um dos mais influentes evangelistas da ideia de que “o software está comendo o mundo”, lema que sintetiza sua defesa radical da disrupção tecnológica como força inevitável e positiva. Ao mesmo tempo, tem se posicionado de forma cada vez mais abertamente contra regulação estatal, sindicatos e qualquer barreira que limite a atuação das big techs. Em 2023, publicou o manifesto The Techno-Optimist, uma apologia ao crescimento exponencial, à inteligência artificial e à aceleração, que foi amplamente criticado por seu desprezo explícito por limites ecológicos, sociais ou éticos.

Andreessen representa uma vertente tecnocrática e libertária do pensamento do Vale do Silício, próxima de figuras como Peter Thiel, embora com um estilo mais público e institucional. É acusado por críticos de ajudar a financiar e legitimar projetos que intensificam desigualdades, desregulação e privatização do comum, ao mesmo tempo em que promove uma visão messiânica da tecnologia como substituta da política. Sua influência cresceu no debate sobre IA e governança digital, onde se opõe frontalmente a freios democráticos ou avaliações morais mais amplas.

Eu sou branca, nasci num meio privilegiado.
Nos anos 80, na minha escola, havia apenas uma criança preta na sala de aula. Acho que era o único indivíduo na escola inteira.

Os anos passaram, as iniciativas afirmativas nasceram e as universidades públicas hoje possuem um perfil muito mais diverso de estudantes.
Muita coisa ainda precisa ser feita. Reparada.

Parte da elite financeira, inclusive, prefere que seus filhos não frequentem a universidade pública justamente por causa dessa mudança. Uma tristeza. Tão medíocre quanto as teorias dos techbros.

Abram a tradução da matéria e vejam os prints do que Marc Andreessen disse num grupo privado do Whatsapp. Ele apagou tudo depois, mas já tinham printado as pérolas egoístas da cabecinha prepotente e limitada dele. Ele considera que as ações afirmativas e de reparação são ações "contra o grupo dele". Ele se acha vítima de preconceito. Ele se vê como vítima.

Essa é a loucura do ser-humano.

👹 Golem disfarçado

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Peter Thiel é um investidor bilionário, estrategista político e pensador de direita radical que ocupa uma posição singular no ecossistema do Vale do Silício. Cofundador do PayPal e primeiro grande investidor do Facebook, Thiel construiu fortuna e influência financiando tecnologias de vigilância (como a Palantir) e fomentando projetos que cruzam interesses corporativos com agendas autoritárias. Ao contrário de figuras mais tecnocráticas, Thiel articula uma visão abertamente antiliberal, inspirada em pensadores como Carl Schmitt e René Girard, cujas ideias sobre conflito, sacrifício e ordem moldam sua crítica ao igualitarismo moderno.

Thiel vê a democracia como incompatível com o progresso tecnológico e defende abertamente uma elite visionária como única capaz de liderar a civilização rumo ao futuro — ideia que sustenta seu apoio a projetos como cidades flutuantes libertárias, moedas descentralizadas e à colonização de Marte. Nos últimos anos, tem financiado campanhas políticas ultraconservadoras nos EUA, incluindo figuras como J.D. Vance, defendendo uma “nova direita” iliberal e populista, articulada contra a diversidade, o Estado e a imprensa.

Embora cultive uma imagem de “intelectual dissidente” dentro do Vale do Silício, Thiel é também acusado de usar sua fortuna para silenciar a imprensa — como no caso da Gawker — e proteger seus próprios interesses. Sua filosofia mistura niilismo político, aceleracionismo tecnológico e nostalgia por formas aristocráticas de poder. Em um cenário de crescente instabilidade política e transformação digital, Thiel encarna o cruzamento entre o poder do capital de risco e o desejo por uma nova ordem pós-democrática.
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Ross Douthat é um escritor, ensaísta e colunista do The New York Times, conhecido por suas análises conservadoras sobre cultura, religião e política nos Estados Unidos. Católico praticante, Douthat escreve frequentemente sobre declínio espiritual, identidade americana e os limites do liberalismo secular. É autor de livros como The Decadent Society e Bad Religion, onde argumenta que a estagnação cultural e o vazio moral estão no centro das crises contemporâneas. Sua perspectiva busca conciliar tradição religiosa com crítica às elites políticas e culturais do mainstream progressista.

O que eu acho muito louco no Peter Thiel é sua falta de capacidade para se expressar oralmente. Talvez ele pense muito rápido e as palavras não acompanhem sua cabeça. Talve ele seja muito introvertido. É muito estranho.

Ele parece não saber escolher as palavras direito. Ou escolhe imagens e ideias que falam de coisas que você tem que adivinhar o contexto. Aparentemente, uma salada doida e sem sentido.

Mas são só aparências. Ele tem livros publicados que são seminais para a loucura aceleracionista do Vale do Silício. Este ano, deu palestras em Harvard, Austin, Yale para um público selecionado e proibiu que divulgassem o conteúdo. O cara está no centro da engrenagem.

Ele mistura a escatologia dos livros canônicos com a teoria do desejo mimético de René Girard. O resultado é um pensamento elitista, destrutivo e violento. Como só eles são inteligentes e sabem a verdade, só eles devem restar "no final de tudo".

Competição é para os fracos. Quem é bom mesmo cria mercados e monopólios. Monopólios são necessários para que a inovação aconteça, já que assim não se perde tempo com os competidores do mercado. Ou seja, em última instância, convivência com o diferente destrói valor.

Tem muito mais que isso, mas vou parar por aqui.

A ideia disruptiva deles, essencialmente, é criar um novo sistema feudal.
Simples assim.

A questão do Anticristo é uma piração perigosa. Atualmente, ele considera a figura da Greta Thunberg (não ela, pessoalmente, mas a replicação do seu comportamento e do seu discurso, que coloca a culpa no sistema capitalista e nas grandes corporações transnacionais) a corporificação do Anticristo.

Vamos tomar uma?

Diagnóstico de estagnação tecnológica e por que o crescimento e o dinamismo são necessários

Peter Thiel reitera sua crença na "tese da estagnação" que ele formulou em um ensaio de 2011. Ele argumenta que, embora haja progresso no mundo digital (computadores, software, internet, inteligência artificial), a velocidade da mudança em outras dimensões, como física, viagens e biotecnologia (ex: Alzheimer), diminuiu significativamente desde 1970. Ele observa que, ao contrário dos períodos de aceleração de 1750 a 1970, o mundo hoje parece "preso". Ele menciona que, se você transportasse alguém de 1860 para 1970, veria um mundo radicalmente diferente, mas de 1985 para 2025 (a década passada), as diferenças no ambiente construído são muito menores, com a exceção da ausência de telefones portáteis.

Thiel contrapõe a ideia de que a sociedade ocidental já é "rica o suficiente" e deveria se contentar com a estagnação. Ele argumenta que a estagnação leva ao "desmoronamento" da sociedade. Ele define a classe média como aqueles que esperam que seus filhos se saiam melhor do que eles próprios, e a ausência dessa expectativa significa o colapso da sociedade de classe média. Ele afirma que as instituições ocidentais, incluindo os orçamentos governamentais, são "fundamentadas no crescimento" e que a ausência de crescimento gera instabilidade. Ele critica o que chama de "socialismo de baixos impostos" ou "capitalismo de consumo", que são insustentáveis sem crescimento contínuo.

Riscos para escapar da decadência, crítica à "Greta Future", política e populismo como agentes de disrupção

Douthat pergunta sobre os riscos que devem ser tomados para escapar da decadência. Thiel responde que deveríamos estar dispostos a  "correr muito mais riscos". Ele cita o exemplo da pesquisa sobre Alzheimer, onde não houve progresso significativo em 40 a 50 anos, e critica a falta de tolerância a experimentos "heterodoxos". Ele se refere à visão de "degrowth" (de-crescimento) da ativista Greta Thunberg como um futuro "super opressivo" e não sustentável. Ele vê a falta de progresso como um sintoma de instituições que se tornaram avessas ao risco.

Thiel discute seu envolvimento na política, especialmente seu apoio a Donald Trump em 2016 e a candidatos republicanos. Ele se vê como um "capitalista de risco para a política", buscando agentes disruptivos para mudar o status quo político. Sua esperança era que Trump pudesse "redirecionar o Titanic" ou, no mínimo, iniciar uma conversa honesta sobre o declínio americano, diferente da retórica "açucarada" de outros republicanos. Embora suas expectativas iniciais fossem limitadas, ele acredita que, em 2025, a percepção de que "algo deu errado" se tornou mais difundida, inclusive em Silicon Valley. Ele vê o populismo e o "Trump 2.0" como "de longe, a melhor opção" para o dinamismo tecnológico, apesar do ceticismo de Douthat sobre se os populistas realmente investiriam em ciência

Inteligência artificial: progresso limitado e riscos

Thiel considera a IA a maior exceção à estagnação, mas a vê em uma escala semelhante à da internet no final dos anos 90, capaz de criar grandes empresas e adicionar alguns pontos percentuais ao PIB, mas não o suficiente para "acabar com a estagnação total". Ele é cético em relação à teoria da "superinteligência" que promete resolver todos os problemas do mundo, incluindo os no mundo físico, pois ele acredita que os problemas podem ser mais profundos do que apenas a falta de inteligência. Ele teme que a IA possa se tornar "estagnacionista" se for conformista e não promover a experimentação heterodoxa. Apesar dos riscos e da possibilidade de distopia, ele defende o desenvolvimento da IA porque "é melhor do que a alternativa", que é "nada de nada".

A visão do Anticristo, o totalitarismo global, liberdade humana e esperança

Thiel tem se interessado pelo conceito cristão do Anticristo. Para ele, os riscos existenciais (guerra nuclear, desastre ambiental, bioweapons) frequentemente levam à proposta de uma "governança mundial" como solução, o que ele descreve como a "singularidade ruim" ou o "estado totalitário mundial". Ele compara o lema ateísta "um mundo ou nenhum" (referindo-se à aniquilação nuclear) com a visão cristã de "anticristo ou Armageddon". Ele sugere que a forma como o Anticristo tomaria o poder hoje não seria como um "gênio do mal da tecnologia", mas sim ao explorar o medo das pessoas de uma catástrofe tecnológica, prometendo "paz e segurança" e, assim, impondo uma "estagnação universal" através da regulação excessiva da ciência e da vida. Ele aponta que já vivemos sob uma forma "moderada" disso, com órgãos reguladores como o FDA e a Comissão Reguladora Nuclear exercendo controle global.

No final, Douthat questiona se Deus está no controle da história. Thiel, embora não seja um calvinista estrito que acredite em predestinação total, afirma que há "muito espaço para a ação humana e para a liberdade humana". Ele conclui que, ao resistir ao Anticristo com a liberdade humana, é preciso ter esperança de sucesso.

✨ Quarto Ato - FRESTAS
O coração se mexe

🐕 Viralata na veia

Adorei esta matéria. Gostei da junção do Gianetti com a Tiburi.
Me parece estar havendo, de fato, uma transição em relação a auto-percepção do brasileiro.
Não dá pra afirmar nada, porque "tudo é muito líquido" atualmente e são muitos Brasis, como diz Stellio Marras. Seriam necessários estudos mais rigorosos para embasar uma mudança deste porte.

Ainda assim, mosaicos de uma percepção tupiniquim mais solar, em meio a barra pesada da vida cotidiana.

Como vocês sabem, a imagem do viralatas vem do Nelson Rodrigues.

Por que ele elege o vira-lata como aquilo que nós temos de pior, aquilo que nós rejeitamos em nós mesmos? Por que o vira-lata? O vira-lata é a miscigenação, é a mistura de raças. Há implicitamente nessa metáfora, um subtexto que é a ideia de que o puro é superior ao misturado, ao miscigenado. Porque a condição brasileira, como aliás, a recente pesquisa de DNA mostra, a condição brasileira é a condição da miscigenação, da mestiçagem. Isso não é alguma coisa da qual nós devamos nos envergonhar, muito pelo contrário, é algo de que nós devemos nos orgulhar. Porque é a característica mais marcante e talvez mais promissora da experiência brasileira no mundo em crise. Essa convivência, essa capacidade de absorver elementos de muitas culturas e dar a isso uma identidade própria.
Eduardo Gianetti

No século XX na França, eles começaram a usar a expressão "do nouveau riche", que tinha a ver com essas classes subalternizadas, exploradas, que de repente começam a enriquecer e começam a fazer a cena da nobreza ou da burguesia. Que perdem a consciência da sua condição de trabalhadores. E no Brasil tem muito isso também.

As populações que eram humilhadas superaram a humilhação, vem superando a humilhação. Existe um orgulho em ser afrodescendente no Brasil. A população branca passa a ter vergonha do racismo, abominar o racismo. E, em relação às mulheres, eu também acho isso, tem uma consciência feminista que cresce, avança e que faz com que as mulheres superem esse lugar subalterno, humilhado, novas lideranças políticas vão surgindo.

Márcia Tiburi

Uma forma de vida menos calcada no calculismo, na acumulação de capital, na produtividade, na eficiência a qualquer preço. E mais voltada para o lado lúdico, afetivo da existência. As relações pessoais, o congraçamento,
a festa, o dom da vida como celebração. Essa capacidade muito brasileira de desfrutar intensamente o momento, de festejar, de manter vínculos densos de afetividade com pessoas, inclusive no local de trabalho, que são características muito arraigadas. E que, na minha observação e na minha análise, derivam da presença de elementos afroameríndios na cultura brasileira.

Eduardo Gianetti

Quando a gente cria um discurso, de tanto repetir um discurso, se cria a noção de que aquele discurso é verdadeiro. Então, por exemplo, se criou essa ideia
que brasileiro não trabalha. Se inventou também no Brasil, a ideia de que no Sul se trabalha muito e no Nordeste se trabalha pouco. São falas que funcionam por repetição e que vão criando essa verdade que domina a cena e domina as mentes.

Márcia Tiburi

Volta para o simpático jornalista, que arremata:

"E nos hipnotizam, para usar as palavras da própria Márcia. Nos deixam submissos a valores e visões de mundo distorcidos, impostos por colonizadores europeus. Que é o que simboliza, no final das contas, o complexo de vira-lata."

📚 A história bem contada

A TV pública canadense (CBC News) produziu esta análise sobre as tarifas trumpianas contra o Brasil. Super didático, direto ao ponto, levantando algumas das reais motivações desta novela.

Como a televisão pública é importante, não é mesmo?


Por esta semana, é só. Tenho tido dificuldades com a escrita.
De transpor minha oralidade para o texto.
A vontade que tenho é de escrever realmente como falo.
Desculpem qualquer erro mais chato. Fui!


Os resumos foram feitos por IA para facilitar para quem não tem tempo ou saco de ler/ver. Eu li e vi todos os conteúdos, assim como chequei os resumos. Já as traduções feitas pelo DeepL podem ter questões. Relevem, por favor.

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